O Bebedor de Vinho de Palma - e Seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos

    Amos Tutuola

    Carambaia
    2024
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9786554610681
    Português Brasileiro

    Tido pela revista Time como um dos 100 melhores livros de literatura fantástica de todos os tempos, O bebedor de vinho de palma e seu finado fazedor de vinho na Cidade dos Mortos foi o primeiro romance africano escrito em inglês publicado fora da África. Lançado no Reino Unido em 1952, seis anos antes de sair no seu país de origem, o livro de Amos Tutuola (1920-1997) ganhou ampla repercussão internacional. Para Chinua Achebe, o livro “abriu as comportas para a escrita moderna da África Ocidental”. Profundamente enraizado na tradição oral iorubá, O bebedor de vinho de palma leva o leitor por uma jornada plena de maravilhamento e mágica, na qual o personagem caminha de mata em mata, parando em vilarejos e às margens de rios, onde encontra todo tipo de obstáculos e criaturas. O herói sem nome – como todos os personagens da história – se identifica como “Pai dos Deuses Que Podia Fazer de Tudo Nesse Mundo”. Ele leva uma vida de ócio e devaneio bebendo vinho de palma, uma bebida alcóolica fermentada a partir da seiva de várias espécies de palmeira, cercado de amigos igualmente bebedores. Até que seu fazedor de vinho, o único que exerce bem o ofício na região, morre numa queda. Isso obriga o herói a ir buscá-lo na Cidade dos Mortos. Das névoas em que vive, ele cai num mundo “real”, mas não no sentido que damos à palavra em nosso mundo moderno e racional. “O ‘real’, em Tutuola, é tudo o que é vivo e se transforma, é tudo que encanta e pode ser encantado, é tudo que é invisível e insondado”, escreve no posfácio Fernanda Silva e Souza, também responsável pela tradução da obra. Se a fábula nigeriana guarda alguma semelhança com Macunaíma, de Mário de Andrade, o personagem de O bebedor do vinho de palma não é, contudo, “um herói sem nenhum caráter”, mas um ser com poderes sobrenaturais, como o de transformar-se em animais e até virar ar. Esses poderes lhe são conferidos por jujus, objetos mágicos que não podem ser usados em qualquer circunstância. É assim que o herói, originalmente altivo, indolente e presunçoso, precisa agir com astúcia num mundo desconhecido. Em seu caminho, ele depara com criaturas às vezes doces, às vezes monstruosas e ocasionalmente com as duas qualidades simultaneamente. São espíritos, seres da mata, da água e da montanha. Depois de encontrar-se com a Morte e tirá-la de sua casa, o herói cruza o caminho de um “cavalheiro completo” que, mesmo devolvendo suas partes, segue existindo como um Crânio. Uma jovem acompanha a criatura e vem a se tornar esposa do herói. De seu polegar nasce um bebê diabólico que é eliminado depois de queimar uma cidade inteira. Pouco depois, aparecem pela primeira vez na jornada três seres, o Tambor, a Canção e a Dança, com poderes regenerativos. Pouco depois, surge a Risada, que traz tanto alegria quanto contaminação. Essa cosmogonia de seres maravilhosos convive com signos do mundo moderno, como telefone, ferrovia, hospitais, revólver e campos de futebol, além de um cenário de cassino dentro de uma árvore. Seguindo a caminhada, desfilam seres ameaçadores como uma criatura branca, sem pés nem mãos e um grande olho no lugar da cabeça; um bicho terrível com quatro cabeças e cinco chifres; um Espírito de Rapina que parece um hipopótamo sobre duas pernas; um rei vermelho, soberano de uma floresta da mesma cor, que também tinge os seres que nela vivem; o Dá-e-Tira, superpoderoso mas disposto a ser um servo invisível; e uma Mãe-Fiel, provedora de todos os cuidados. Muitas dessas criaturas, e outras, impõem desafios ou torturas ao casal de peregrinos. O herói tenta evitar o sofrimento, embora não corra o risco de morrer, pois vendeu sua morte. Em seu périplo, alterna riqueza e fome, enquanto sua esposa ganha sabedoria e passa a orientá-lo.

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    Bruno Oliveira27/07/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    ATÉ ONDE VOCÊ VAI QUANDO TEM CERTEZA DO QUE GOSTA?

    Ler O bebedor de vinho de palma: e seu finado fazedor de vinho na Cidade dos Mortos, do nigeriano Amos Tutuola é uma experiência literária que te tira da zona de conforto ocidental, europeia para te jogar numa oral, africana e iorubá contínua e ricamente fantástica. Tutuola emula bem o narrar oral na forma escrita e, mesmo com os excessos dessa (repetições, contradições etc.), você entende direitinho o que é narrado ali e sente a necessidade urgente de ir até o fim. Lá um narrador sem nome, ou melhor, um narrador-personagem que se autodenomina Pai dos Deuses Que Podia Fazer de Tudo Nesse Mundo enfim se move quando seu fazedor de vinho de palma morre, e é nesse seu movimento, é nessa sua errância (em busca do falecido) que tudo de bom e de ruim lhe acontece. Há vários ensinamentos ancestrais por aqui, por isso, quem o ler, verá que a existência, tanto nossa quanto do que não é a gente, é um todo assim que simplesmente é.

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