Nós Já Moramos Aqui me despertou sentimentos mistos: uma mescla de curiosidade insatisfeita, dúvidas da profundidade das personagens e se o suspense valeu a pena, ao mesmo tempo que também me causou frustração. O livro, no início, é intrigante, há algo de estranho no ar, e isso me fez querer entender o que, afinal, estava acontecendo. Mas, no decorrer da leitura e principalmente no final, senti como se a história sofresse um certo esvaziamento, como se a promessa inicial se diluísse aos poucos.
Pelo que entendi, a casa abriga várias realidades sobrepostas; não me parecem ser linhas do tempo distintas, mas talvez versões coexistentes do mesmo lugar. E isso meio que se confirmou para mim nos momentos em que vejo a Eve entrar em cômodos da casa, e assim que sai desses cômodos, a realidade parece mudar completamente, com coisas estranhas acontecendo: como o celular aparecendo em mãos erradas, o vitral do escritório que desaparece, a família de intrusos jantando como se a casa fosse deles e chamando a protagonista de Emma. É como se cada cômodo funcionasse como uma porta para outra camada de realidade, sustentando uma sensação de deslocamento constante que acaba dominando a narrativa.
Essa proposta ficou mais clara para mim quando o livro incorpora alguns “documentos”: páginas “estilo Reddit”, que trazem algumas "explicações" em forma de depoimentos de outras pessoas que já interagiram com a casa. Além disso, para além da narrativa, esses documentos contêm símbolos decifráveis por meio de um jogo de realidade alternativa, que propõe a nós, leitores, que continuemos a busca por respostas fora das páginas do livro. Pelo que senti, o autor quis montar um quebra-cabeça que vai além do texto, sugerindo a presença de uma entidade ancestral que habita a casa e aprisiona seus moradores em um labirinto de realidades sobrepostas, uma força que sequestra corpos e transforma pessoas em marionetes.
Não acho que o livro é ruim, longe disso, acho que compreendo a proposta do autor, mas talvez a proposta dele não tenha funcionado tão bem para mim. Pois os mistérios do livro são incompletos, e precisamos sair e buscar respostas pela Internet afora: decifrando códigos, assistindo a entrevistas dadas pelo autor, indo atrás de material que nem está disponível em português e enviando e-mails e aguardando respostas que elucidarão, ou não, todas as questões que a narrativa suscita. Quem sabe em um outro momento da minha vida isso pareceria divertido e me instigasse mais, mas, infelizmente, agora, no momento em que li este livro, eu não senti a mínima vontade de correr atrás das migalhas de pão que foram deixadas pelo caminho.
Talvez por isso, o resultado me soou desequilibrado. O autor entregou um enigma com peças faltando e outras que pareceram ter sido colocadas apenas para manter a busca em movimento, como se a experiência de decifrar fosse mais importante do que o próprio sentido do que está sendo contado. Muitos elementos da ambientação e dos personagens só se esclarecem fora do livro, quando o leitor decide seguir as pistas no mundo real; e, ainda assim, permanecem lacunas que nunca se encaixam por completo.
No fim, senti falta de me importar verdadeiramente com Eve e Charlie. O jogo proposto é engenhoso, mas, em minha opinião, não o bastante para preencher o vazio deixado por personagens que nunca chegam a ganhar vida plena. E confesso que senti certo orgulho de ter percebido, desde o início, algo com relação a Charlie, namorada da personagem principal, e, infelizmente, acho que isso também tenha contribuído para que eu não me importasse tanto quanto deveria com as duas.
É isso, esta foi uma leitura que intrigou por um instante, mas que me perdeu por causa dos furos no enredo e dos elementos que só estão lá para confundir sem somar à narrativa de forma efetiva.