Erich Fromm é um dos mais renomados psicanalistas de todos os tempos, bem como é considerado um dos principais representantes do chamado freudo-marxismo. Fromm, através de sua síntese entre o pensamento de Marx e Freud, une a perspectiva psicanalítica sobre o indivíduo com a perspectiva marxista sobre a sociedade capitalista, promovendo uma análise bem superior à muitas formas de sociologismo e de psicologismo. A presente coletânea tematiza alguns dos principais problemas que Fromm identifica na sociedade moderna, tal como a questão da coisificação, da alienação, do caráter social, da liberdade. Fromm percebe a sociedade contemporânea como sendo “doente” e, por conseguinte, sendo necessária transformá-la para o ser humano se libertar e reencontrar com sua essência perdida. A liberdade, a produtividade, a autorrealização, emergem como exigências radicais dos seres humanos numa sociedade marcada pela burocratização, abstratificação, mercantilização, entre outros problemas. O presente livro é leitura fundamental para compreender os indivíduos e seu universo psíquico na sociedade moderna, tal como analisado por Erich Fromm.
Erich Fromm e os Dilemas Humanos na Sociedade Moderna (Coleção Dialética e Sociedade #8) -
André de Melo Santos
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Ver mais“As flores estilísticas da crítica social de Fromm”
“A mentalidade dominante no capitalismo é a mentalidade burguesa, que introjeta a sociabilidade capitalista, que tem como elementos fundamentais a competição social, a mercantilização e a burocratização” Erich Fromm foi um psicólogo e filósofo nascido em Frankfurt na Alemanha e falecido em Locarno na Suíça. Ele era conhecido por suas contribuições nos campos da psicologia social, psicanálise e filosofia humanista. Os seus estudos particularmente exploravam a interseção entre psicologia e sociedade, com foco em tópicos como a relação entre indivíduos e sociedade, liberdade e a condição humana. Nesse livro organizado por André de Melo Santos, reuniu-se cinco ensaios para debater e refletir sobre as contribuições desse autor para entendermos as suas ideias sobre individualismo, capitalismo, conformidade e busca da liberdade. No dia 4 de abril de 1962 na Califórnia, Fromm discursou em uma palestra intitulada “Um Novo Humanismo Como Condição Para o Mundo Único”, no qual ele observava em suas análises que ‘o mundo único’ estava emergindo por conta do fato da produção industrial se tornar comum a todos os povos do mundo. No entanto, ele questionava se a vinda do ‘mundo único’ aumentaria o valor da vida ou se tudo terminaria num grande campo de batalha. Não é incrível isso? Décadas antes de as pessoas falarem sobre a “globalização” ou “aldeia global”, Fromm já chamava a atenção para pensar quais os lados positivos e negativos das redes globais. Segundo ele (em 1962!!!), se não aprendermos que uma pessoa vive num mundo de maneira existencial homogênea, existe o perigo de que tendências nacionalistas possam criar situações em que “o homem se destrói”. Para evitar estes perigos, é necessário um novo humanismo. A luta teórica e prática por um novo humanismo em todos os níveis da coexistência humana é o credo de Erich Fromm . Fromm, em particular, sempre enfrenta o dilema da individuação, o dilema que o esforço para se tornar uma pessoa tem seu preço. Ninguém pode evitar esse dilema. Faz parte da situação especial e contraditória dos humanos neste mundo que estabelece necessidades psicológicas especificamente humanas que – de uma forma ou de outra – exigem uma resposta rápida. Fromm assume duas dimensões de caráter: por um lado, as circunstâncias da individualidade levam à internalização de experiências que são típicas e únicas apenas para a respectiva pessoa e constituem o seu caráter individual. Como ser social, o indivíduo é sempre membro de grupos e comunidades sociais. Ele sente que pertence a eles e se identifica com seus valores, normas e expectativas. Por outro lado, o indivíduo internaliza as expectativas sociais e as exigências socioeconômicas dos grupos, comunidades e sociedades com as quais se identifica. Fromm chama o resultado desta internalização do social de caráter social , de modo que o indivíduo deseja pensar, sentir e agir pelo que deveria lutar para manter uma determinada sociedade e nela se sentir pertencente. O humanismo defendido por Fromm contempla o ser humano em sua totalidade psico-física e defende a ideia de que a destinação do ser humano é tornar-se ele mesmo. Condição prévia disso é que o homem tem sua finalidade em si mesmo. Com isso, o autor entra na fileira dos humanistas do iluminismo, para os quais o homem tem sua finalidade em si mesmo na medida em que encontra seu fundamento último naquilo que para ele é possível. Ele desenvolveu esta tradição humanista ao dizer que, contra a filosofia abstrata - ele criticava fervorosamente o filosofar abstrato - a finalidade em si mesmo só pode ser fundamentada naquilo que é possível ao ser humano, e se esta fundamentação pode ser comprovada pelas ciências humanas. Do meu ponto de vista, o caráter social fornece algo como o elo intermediário para Fromm, o elemento mediador entre o caráter individual e as condições sociais. Esta é uma abordagem totalmente dialética e moderna: mesmo nos tempos atuais de subsistemas sociais pós-modernos e de ação autônoma, não há imediatismo entre as estruturas individuais e sociais. As relações nacionais e globais de poder, poder e autoridade apenas influenciam a forma como os indivíduos sentem, pensam e agem através da mediação. Isto também se aplica à possível influência sobre motivos ou impulsos individuais e inconscientes. A suposição de um efeito determinístico das condições sociais sobre as características individuais - ou vice-versa - levaria (perdoem-me esta reminiscência) a “resultados errôneos porque salta os elos intermediários necessários”, como diria meu ‘amigo’ Marx no seu emblemático “O Capital”. O livro também analisa as consequências psicológicas e sociais da ascensão do autoritarismo e do totalitarismo numa sociedade fragilizada por questões econômicas, logo, a discussão adentra o tema do capitalismo enquanto sistema moedor da existência humana investigando o desejo humano de liberdade explorando como os indivíduos lidam e muitas vezes entregam sua liberdade a sistemas autoritários. É interessante notar que o autor examina como diferentes condições históricas e sociais, como a ascensão do capitalismo e da industrialização, moldaram as experiências humanas e influenciaram o homem moderno a ter uma espécie de medo da própria liberdade. O fosso entre ricos e pobres, a violência e o extremismo, as alterações climáticas, o neoliberalismo e as estruturas autoritárias em muitos países em todo o mundo, as notícias falsas e as teorias da conspiração, os ataques a políticos e jornalistas, a habitação inacessível e a escassez de cuidados de saúde são sinais que apontam para condições políticas imprevisíveis e tempos instáveis na Europa e no mundo. Setenta anos após a adoção da ‘Declaração Universal dos Direitos Humanos’, os populistas e extremistas de direita nos EUA, Europa, Ásia e África estão desconsiderando os valores da tolerância, do respeito e da solidariedade com as minorias. As antigas e novas formas de racismo, misoginia e anti-semitismo também ameaçam os fundamentos humanísticos das nossas vidas. Fromm - veja bem - já pensava e dialogava sobre essas questões na década de 60 do século passado. Genial né não?! Fromm sugere que, nessas condições, os indivíduos podem se sentir alienados, desconectados e sobrecarregados pelas demandas da liberdade, levando-os a buscar segurança e pertencimento por meio de modos de conformidade. Para ele, é aí que reside o perigo social. Os perigos econômicos, ecológicos, sociais e políticos, bem como os ataques ao bem-estar e às vidas daqueles que pensam de forma diferente, exigem um despertar humanista, um “renascimento do humanismo”, como ele dizia. As suas sugestões para um novo tipo humano do mundo são, portanto, mais relevantes do que nunca. Foi bastante enriquecedor para os meus conhecimentos intelectuais conhecer as teorias desse autor que estudava as perspectivas críticas na era do capitalismo pós revoulção industrial. Para isso, seu foco estava na comunicação, na ideologia e na tecnologia. Sua noção de caráter social permite sustentar tal teoria com fundamentos da psicologia crítica. São cinco ensaios incríveis para você conhecer um pouco sobre as ideias de Erich Fromm e seus contemporâneos como Marcuse, Adorno, Horkhiemer e tantos outros que contribuíram para uma mudança de paradigmas na filosofia tradicional para a crítica pós-estruturalista e pós-moderna. ☭🇩🇪🏭💶💭⩜⃝🕰⌛️☭
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