A Palavra que Resta -

    Stênio Gardel

    Dom Quixote
    2024
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9789722081313
    Português Brasileiro

    Uma carta guardada durante mais de cinquenta anos - e jamais lida. É essa a relíquia que Raimundo Gaudêncio traz consigo. Homem analfabeto que, na sua juventude, teve um amor secreto brutalmente interrompido, aos setenta e um anos resolve que ainda é tempo de aprender a ler e, talvez, decifrar essa ferida aberta do passado. Nascido e criado na roça, Raimundo não frequentou a escola, pois cedo precisou de ajudar o pai na lida diária. Mas há muito que foi obrigado a deixar a família e a vida no sertão para trás. Desse tempo, Raimundo guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, quando o amor escondido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar outra pista senão aquela carta que Raimundo não sabe ler - pelo menos até agora. Com uma narrativa sensível e magnética, Stênio Gardel leva-nos pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento da sua sexualidade, mas também das novas formas de afeto e de vida que estabeleceu depois de ter fugido de casa. Explorando o poder universal da palavra escrita e da linguagem, e o modo como elas afetam os nossos relacionamentos, A Palavra que Resta é um romance arrebatador sobre repressão, violência e vergonha, mas acima de tudo sobre a coragem de lhes resistir.

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    Bookster Pedro Pacifico04/11/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A palavra que resta, de Stênio Gardel

    A leitura de “A palavra que resta” apenas me confirma o quanto a literatura é capaz de promover uma identificação do leitor com as histórias dos personagens. Apesar das imensas diferenças entre a minha vida e a de Raimundo, nascido na roça, em uma família pobre e sem nunca ter frequentado uma escola, conseguimos nos identificar cada vez mais à medida que nos aproximamos dos sentimentos e dos conflitos interiores. Aos 71 anos, Raimundo, analfabeto, ainda guarda uma carta que recebeu de Cícero, sua primeira paixão, quando ainda eram muitos jovens. A carta foi uma despedida que os dois nunca tiveram, já que depois que suas famílias descobriram o amor que os dois compartilhavam, Raimundo precisou fugir de casa. É a saudade daquilo que nunca lhes foi permitido. Está é a realidade, ainda tão atual, daqueles que são considerados como marginais de uma sociedade que se denomina como tradicional. Apesar de existir ao longo da leitura uma curiosidade para saber o conteúdo da carta, vamos percebendo com o passar das páginas que, mesmo fechada, a carta dá muita força para Raimundo durante todos esse anos em que a manteve sob o seu cuidado. A carta não é apenas a representação do que poderia ter sido, mas do que ainda pode ser! O que ainda pode ser se ele aceitar a sua orientação sexual, parar de repetir comportamentos dentro do padrão social e seguir em frente com os anos que ainda tem pela frente. Essa mudança de perspectiva me fez pensar muito em minha experiência e de todos os gays que conseguiram “sair do armário” e se autoaceitar: deixamos de pensar em como a vida deveria ter sido, para entender como ela ainda pode ser boa quando nos permitimos viver plenamente. O livro, portanto, trata de forma muito sensível e verdadeira um conflito muito atual. Para mim, a narrativa de Stênio Gardel se destaca da metade para a frente da obra, quando conseguimos de fato penetrar nas mais profundas angústias de Raimundo e de seus confrontos com o diferente. E se logo em seu romance de estreia o autor já conseguiu construir um personagem tão humano e real, mal podemos esperar pelo que vem pela frente! Nota 9/10

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