Desvende os mistérios da sua mente descubra os arquétipos internos que moldam suas escolhas e percepções! Em Espelhos do Self, mergulhe em uma jornada fascinante pelos personagens que habitam nosso mundo interior, desde a criança interior até a heroína, explorando sua influência em nossas vidas diárias. Baseando-se nas teorias de Jung, este livro revelador analisa 45 arquétipos diferentes e como eles interagem, desafiando, apoiando e moldando o drama de nossas vidas. Dos conhecidos como o curador e o Self aos mais obscuros como o órfão e o duplo, cada capítulo oferece insights penetrantes e perspicazes. Através desses ensaios envolventes, escritos pelos principais psicólogos contemporâneos, você aprenderá a identificar os arquétipos que governam sua vida interior, explorar suas aparições nos sonhos e aproveitar seu poder para enriquecer sua vida cotidiana. Ao se tornar consciente dessas figuras simbólicas, você poderá mergulhar em sensações mais profundas, redescobrir memórias esquecidas e revitalizar relacionamentos. Liberte-se dos seus medos e desbloqueie sua criatividade ao aprender a ouvir e entender seus arquétipos internos. Prepare-se para uma jornada de autodescoberta que abrirá portas para novas percepções e possibilidades em sua vida.
Espelhos Do Self - Um Estudo Sobre As Imagens Arquetípicas Que Moldam As Nossas Vidas
Christine Dowing
Espelhos do self: As imagens arquetípicas que moldam a sua vida Eis alguns trechos: “...Jung fazia distinção entre arquétipo e imagens arquetípicas. Ele reconheceu que aquilo que ocorre na consciência individual são sempre imagens arquetípicas — manifestações concretas e particulares que sofrem a influência de fatores socioculturais e individuais. No entanto, em si, os arquétipos são desprovidos de forma, são irrepresentáveis... O pensamento simbólico ou arquetípico é uma modalidade de resposta ao mundo que pode nos ajudar a desfazer a ilusão de que existe uma separação entre interior e exterior, uma disjunção entre sujeito e objeto... Todas as imagens arquetípicas parecem evocar em nós uma ambivalência. Somos tanto atraídos como repelidos pelas mesmas; elas têm aspectos sombrios, amedrontadores, destrutivos, da mesma forma que lados criativos e benignos. Em geral, tentamos negar essa circunstância e enfatizar apenas a dimensão criativa ou moralizar e dividir o arquétipo em partes boas e más - por exemplo, a mãe positiva e a mãe negativa - perdendo assim um tanto da energia dinâmica intrínseca às imagens... Os arquétipos podem tornar-se estereótipos quando as imagens não estiverem mais funcionando como imagens vivas. Os estereótipos são rígidos, perderam a flexibilidade do arquétipo vivo, o dinamismo inerente à imagem... Nossas vidas são configuradas por uma pluralidade de imagens arquetípicas. Ser informado por apenas um deles é estar em suas malhas e abdicar da tensão vivificante da interação de todos, pois as imagens na sua variedade nem sempre se dispõem num panteão ordenado e hierarquizado. Muitas vezes constataremos que entram em conflito umas com as outras... A psique é composta por várias subpersonalidades em interação que vivem dentro de nós... No inconsciente, os arquétipos individuais não estão ilhados uns dos outros; eles existem num estado de contaminação, de completa e recíproca interpenetração e fusão... As imagens arquetípicas libertam-nos da identificação com nossos êxitos e fracassos literais, libertam-nos da obrigação de entender nossas vidas como banais ou triviais. A finalidade de atentar para essas imagens é despertar em nós a percepção de nossas possibilidades latentes, ainda irrealizadas, é salvar-nos da nossa sensação de isolamento e ausência de significado, é abrir como janelas as nossas vidas, de par em par, para a renovação e a transformação... Podemos estimular para que essas figuras interiores falem de modo mais claro e direto conosco comunicando que estamos realmente prontos para ouvir. Para começar, podemos apenas observar nossas reações emocionais e nossos sonhos mais de perto, com mais morosidade. A seguir, podemos imaginar que essas figuras estão presentes de forma ativa, disponíveis para uma conversa, para um diálogo no qual iremos aprender mais acerca de nós. Podemos tentar saber quais são as necessidades delas, entender quais são suas perspectivas, valorizar suas forças. Ao criar uma relação mais consciente com essas imagens arquetípicas que vivem dentro de nossas almas, podemos nos libertar do jugo de seus medos e desejos, ficar livres daqueles impulsos cujo poder sobre nossas vidas talvez nunca tenhamos ainda confrontado de modo direto. E podemos também aprender como utilizar sua sabedoria e energia... O ego é aquela parte em nós que afirma ser o todo e que, na verdade, é somente uma parte da personalidade total (que Jung chama de Self). A psicologia profunda relativiza o ego ao nos tornar conscientes do quanto de nossa psique existe para além do alcance de nossa consciência... O ego está subordinado ao Self e mantém com ele uma relação de parte para o todo... O ego é parte da personalidade, não a personalidade inteira. É simplesmente impossível estimar se sua parcela de participação é grande ou pequena, e até onde é livre ou depende das qualidades da psique ‘extraconsciente’. Podemos dizer apenas que sua liberdade é limitada e sua dependência é comprovada de maneira muitas vezes decisiva... No decorrer do desenvolvimento psicológico adequado, é necessário que ocorra uma diferenciação entre o ego e a persona. Isso significa que temos de nos tomar conscientes de nós mesmos enquanto indivíduos separados das exigências externas feitas em relação a nós; temos de desenvolver um senso de responsabilidade e uma capacidade de julgamento não necessariamente idênticas aos padrões e expectativas externas e coletivas, embora, é claro, esses padrões devam receber a devida atenção. Temos de descobrir que usamos nossas vestimentas representacionais para proteção e aparência, mas que também podemos nos trocar e vestir algo mais confortável quando é apropriado, e que podemos ficar nus em outros momentos. Se as nossas vestes grudam em nós ou parecem substituir a nossa pele é bem provável que nos tornemos doentes. Temos de aprender a nos adaptar às exigências culturais e coletivas em conformidade com nosso papel na sociedade; com nossa ocupação ou profissão, posição social, e ainda ser nós mesmos. Precisamos desenvolver tanto uma máscara de persona como um ego adequado. Se essa diferenciação fracassar, forma-se um pseudoego: o padrão de personalidade se baseia na imitação estereotipada ou numa situação meramente zelosa do papel coletivamente atribuído à vida da pessoa... Tal pseudoego é não apenas rígido, mas também extremamente frágil e quebradiço. O pseudoego está sujeito a pressões constantes que vêm de dentro, e não tem meio de ajustar o seu equilíbrio precário; frequentemente, beira o limite da psicose... Quando a individualidade é assim confundida com o papel social, quando a adaptação à realidade não é suficientemente individual, mas inteiramente coletiva, o resultado pode ser um estado de inflação. A vítima se sente esplêndida e poderosa porque é uma refinada figura da sociedade, mas não consegue ser um ser humano, ou mesmo dar os primeiros passos no sentido de se tornar humana. Tal confiança exagerada e inflacionada na persona, ou a identidade com ela, resulta em rigidez e em falta de uma genuína sensibilidade. Tal pessoa é apenas o papel que representa, seja o de doutor, de advogado, de administrador, de mãe, de filha, ou qualquer papel que seja representado de forma tão compulsiva... Essa não-personalidade identificada com o papel social é incapaz de desenvolver uma responsabilidade pessoal e moral; ela não possui princípios éticos ou sentimentos pessoais e valores próprios, escondendo-se atrás da moralidade coletiva e dos costumes estabelecidos. Ela não tem conflitos de consciência porque tudo é definido de antemão de uma maneira estereotipada... No extremo oposto do espectro, quando a formação do indivíduo é inadequada devido a um treino social insatisfatório, ou à rejeição das formas sociais como resultado da exclusão do sentimento, ele não consegue ou se recusa a representar com sucesso o papel que lhe é destinado. Tal pessoa sofrerá de falta de segurança, de rebeldia desnecessária e de autoproteção excessiva. O desenvolvimento da personalidade sofre assim uma interferência em ambos os extremos; uma persona malformada é tão limitadora quanto seu oposto. Um relacionamento inadequado com o arquétipo da persona pode abranger desde a fixação no seu aspecto puramente coletivo até a incapacidade ou a recusa rebelde em aceitar qualquer exigência ou adaptação coletiva. Exemplos de sonhos que exprimem o primeiro estado são aqueles em que o indivíduo é incapaz de tirar suas roupas, ou fica preso dentro de uma armadura pesada, ou está vestido demais, ou está usando uniformes espalhafatosos e decorados em excesso, ou tem uma pele demasiado dura e áspera. A condição oposta, a recusa do coletivo, poderia ser expressa em sonhos nos quais a pessoa está completamente nua numa festa ou descobre repentinamente, ao andar na rua, que está usando um vestido transparente, ou aparece numa recepção usando trapos sujos, ou ainda é uma ostra sem a concha ou uma massa flácida de gelatina. Se a persona está ‘colada’ de forma rígida demais, se falta à pessoa a distinção necessária entre a pele individual e as vestes coletivas, ela se encontra numa posição precária; é como se a pele não pudesse respirar. Doenças de pele reais podem até coincidir com essas dificuldades... A coletividade e a individualidade são um par de opostos polares; daí haver um relacionamento de oposição e de compensação entre a persona e a sombra. Quanto mais clara a persona, mais escura a sombra. Quanto mais a pessoa estiver identificada com seu glorioso e maravilhoso papel social, quanto menos este for representado e reconhecido simplesmente como um papel, mais escura e negativa será a individualidade genuína da pessoa, como consequência de ser negligenciada dessa forma. Por outro lado, a preocupação excessiva com a sombra, com o lado ‘mau’ da pessoa - preocupação excessiva com a aparência, com o quanto a pessoa é pouco atraente e desajeitada - pode acarretar uma persona bastante negativa, defensiva e infeliz. Essa persona negativa - isto é, inadaptada - encontrará expressão na inflexibilidade, na incerteza e no comportamento primitivo e compulsivo. Apesar de, à primeira vista, o ego se descobrir dentro da persona e através dela, vimos que os dois não foram feitos para permanecer num estado de identidade. Somos atores no jogo social, mas também devemos participar de outro jogo. Também fomos feitos para ser nosso Self individual... A identidade com a anima manifesta-se em todos os tipos compulsivos de melancolia, de autopiedade, sentimentalismo, depressão, retraimento ruminativo, acessos de paixão, hipersensibilidade mórbida ou efeminação, isto é, em padrões emocionais e comportamentais que fazem o homem agir como uma mulher inferior. A inflação pela anima é um estado no qual as ambições, esperanças e desejos são confundidos com fatos e realidades acontecidos... A anima em projeção é responsável pelo fato de um homem estar amando ou estar odiando. Ele encontrou a imagem de sua alma, a mulher ideal e única ou, ao contrário, uma megera absolutamente insuportável. Ambas as reações são fascinantes e irresistíveis. Em tais situações, tende a haver um envolvimento compulsório com o qual não conseguimos lidar e que também não podemos deixar de lado. Se fosse apenas o fato de que a mulher é maravilhosa ou horrível, poderíamos amá-la ou abandoná-la. Mas, se não podemos fazer nenhum dos dois, então estamos sob o encantamento arrebatador do arquétipo... Um fato fundamental que facilmente perdemos de vista é que a anima e o animus não estão sujeitos à vontade e ao controle consciente. Nunca podemos domesticá-los ou eliminá-los; temos de estar sempre preparados para novos truques e surpresas. Todo afeto intenso indica que a anima ou o animus está em atividade. A menos que compreendamos isso, sempre seremos vítimas da ilusão de que os dominamos e assim que nos sentimos seguros desse domínio, já caímos na inflação que prepara a próxima armadilha... Quanto mais um homem se identifica com o seu papel social e biológico de homem (persona), maior será a dominação interna da anima. Assim como a persona dirige a adaptação à consciência coletiva, a anima governa o mundo interno do inconsciente coletivo... O animus também é um símbolo da vida que a mulher não viveu, como o demonstram nossas expectativas em relação aos homens e às nossas possíveis idealizações, ou, ao contrário, ao nosso ódio e ressentimento deles... Integrado, o animus pode nos ajudar a parar de nos apaixonarmos de uma forma impotente, para podermos então ser livres e, enfim, amar de igual para igual... O ‘duplo’ é uma alma gêmea do mesmo sexo, de forte proximidade e afeto. O amor entre homens e o amor entre mulheres, como experiência psíquica, frequentemente baseia-se na projeção do duplo, assim como a anima ou o animus são projetados no amor entre sexos diferentes... Além disso, uma vez que o duplo é uma figura da alma, o instinto sexual pode ou não ter envolvimento, ou seja, o motivo do duplo pode incluir uma tendência para a homossexualidade, mas este não é necessariamente um arquétipo homossexual... O lado negativo do duplo é o ‘competidor’, a figura mítica da mesma estatura que o parceiro, mas que está decidida a ir contra o êxito do herói. Enquanto o parceiro se esforça para incentivar o ego, o competidor deseja suplantá-lo... O arquétipo negativo sempre contém a força do positivo, inclusive seu impulso para a individuação. O competidor apresenta um desafio que precisa ser superado, e nesse sentido contribui com uma imagem da própria pessoa que esta deve chegar a realizar através do seu crescimento pessoal. Entretanto, a imagem é apresentada, num contexto negativo, como ameaça. Por causa disso, é muitas vezes objeto de uma imediata projeção e pode tornar-se um fator importante no incentivo das agressões e da competição interpessoais... Individuação significa chegar a um acordo com a nossa verdadeira natureza. A individuação desafia o ego a mover-se no sentido de uma condição desconhecida, em lugar de permanecer cativo dos hábitos e das coisas familiares... Se o Self desafia a nossa vida pessoal com a individuação, em geral começamos com uma sensação de desconforto e de perda. Esse processo exige um considerável alargamento de nossas personalidades... Nosso poder sobre as pessoas, sobre a natureza, sobre as coisas habitua-nos a uma ilusão de controle. Quando começa a falhar esse controle aparente, nosso senso equivocado de identidade centrada no controle também fracassa. Em casos extremos, sentimos que estamos morrendo, que somos impotentes, sem valor. Às vezes, o Self só aparece quando chegamos ao ponto da própria desolação. Quando temos a atitude de que os relacionamentos podem conter o valor essencial e o principal significado de nossas vidas, praticamos uma espécie de idolatria. O Self tende a esfacelar essa idolatria de várias maneiras, inclusive levando-nos a ver que a outra pessoa não corresponde à nossa mais íntima e fundamental imagem anímica... Quando permitimos que o Self influencie o nosso antigo modo de nos relacionar, abandonamos ou modificamos as projeções, em nome do amadurecimento... O Self age por trás de nossos anseios de relação, pois contém em suas potencialidades o casamento interior... A individuação só pode acontecer quando é percebida, quando alguém existe para registrar o que se passa... Ao iniciar-se o processo da individuação, tanto a nossa personalidade como a nossa vida inconsciente passam por uma reorganização. O Self começa a exercer influência sobre as energias pessoais e coletivas inconscientes... Quando nossa orientação consciente se desloca, o inconsciente também se movimenta. O Self parece mover-se em resposta aos nossos movimentos, mesmo que em geral seja quem desencadeia o movimento consciente... A genuína ‘autonomia’ ou ‘lei pessoal’ significa que os métodos sociais de controle perdem o seu poder. O ego anelante ouve rumores dessa autonomia com aparência de liberdade e, em nome do Self, pode racionalizar uma permissão apresentando uma farsa oportunista de individuação... Para viver fora da lei você precisa ser honesto. Jung acentua reiteradas vezes as graves responsabilidades éticas que assumimos quando nos afastamos das normas coletivas, em nome dessa obediência ao Self. Felizmente, em benefício da verdadeira proporção de nossas identidades pessoais, quando estamos cheios da nossa própria importância, ou ‘inflacionados’ pelo Self, como diz Jung, a vida em geral puxa o tapete com força de debaixo dos nossos pés. Qualquer arquétipo do inconsciente pode inflacionar a nossa personalidade, mas quando o arquétipo do Self nos inflaciona, resultam formas específicas de orgulho espiritual. Entramos em estados repletos de glamour nos quais nos deixamos ficar, imersos em atitudes sobrehumanas de inferioridade ou superioridade, marcadas por uma forma peculiar de cegueira no tocante aos nossos limites corporais, emocionais, intelectuais, espirituais, ou onde se destaca uma equivocada aplicação das qualidades... Regressamos a nós, sabendo o quanto somos comuns. O que Jung chama de ‘a função compensatória do inconsciente’ age como um amigo sábio e sóbrio, mesmo que saiba que nossa personalidade inflacionada funciona como um desmancha-prazeres... Todos nós, cientes disso ou não, podemos ser considerados possuidores de uma invisível e poderosa família arquetípica, ao lado daquela que costumamos admitir que temos; aliás, as duas estão quase que inextricavelmente mescladas entre si. O pai ou mãe que aparece nos nossos sonhos, por exemplo, é em geral uma confusa mistura dos pais arquetípico e pessoal... Os arquétipos da mãe e do pai desempenham um papel tão poderoso na nossa psique que costumamos nos sentir dominados pelos mesmos. Em contraste com eles, a avó e o avô podem vir associados com muitos dos mesmos atributos e poderes, mas numa escala menos formidável e menos temível... Em vez do ‘velho pervertido’, do ‘menino rebelde e zangado’, as mulheres precisam encontrar o ‘homem com coração’, o homem interior que tem uma relação positiva com o feminino... Os irmãos de mesmo sexo parecem ser um para o outro, paradoxalmente, o Self ideal e o que Jung chama de ‘sombra’... Discernir todas as nuanças de significado que existem na relação das irmãs na nossa vida exige que prestemos atenção aos três modos: a irmã literal, a irmã substituta, e a irmã interior, o arquétipo. Eu sou quem ela não é. A irmã interior - meu self ideal e o self-sombra, estranhamente um só - tem um papel tão significativo em termos do processo de individuação, que ela está ali, tenha eu uma irmã literal ou não. Não obstante, como todos os outros arquétipos, ela cobra uma passagem para o nível concreto e particularizado e exige que a introduzam no mundo exterior das imagens distintas. Quando não existe a irmã de carne e osso, parece sempre existir irmãs imaginárias ou substitutas. Mesmo quando existe uma irmã literal, ocorrem frequentes figuras de fantasia ou figuras substitutas, como se a irmã real não fosse bastante adequada para conter plenamente o arquétipo e, contudo, o arquétipo precisava ser posto em imagem, ser personificado... O Self contém muito mais do que a nossa visão limitada e contingente da sexualidade e do gênero. Mesmo que envolvam pessoas que a nossa cultura identifica como sendo ‘do mesmo sexo’, relacionamentos homossexuais encarnam uma pluralidade de opostos que ultrapassam de muito a dualidade masculino-feminino, considerada como central pela ideologia ocidental relativa aos sexos. Os relacionamentos homossexuais desafiam essa ideologia heterossexual no seu próprio cerne e devem forçar pessoas judiciosas a se perguntar de que maneira tantas características de personalidade extrínsecas ao gênero são projetadas nos ‘homens’ e nas ‘mulheres’... A mulher com um animus altamente desenvolvido torna-se abertamente agressiva, intelectual e faminta de poder, na tentativa de dar um basta aos padrões de passividade, dependência e rabugice... A necessidade que a vítima tem de encontrar um significado para a sua vitimização não é o mesmo que encontrar um ‘motivo’ para ela. A ‘razão’ pela qual a pessoa torna-se vítima pode ser profundamente diferente do significado que ela atribui à experiência. E, uma vez que cada vítima compreende sua vitimização por um prisma próprio, a descoberta do significado é sempre uma experiência pessoal. Independente de circunstâncias ou agentes, a vitimização revela a coragem ou a covardia da vítima, seu limitado controle das circunstâncias, a profundidade de seu medo e de sua vergonha, sua capacidade para sentir compaixão de si mesma, ou a extensão em que se recrimina... O mito cristão exigiu que o Filho sacrificado fosse como o Pai, sem pecado. Naquela parte de nossa alma em que somos vitimados, devemos buscar uma semelhança com algum deus, e ali erguer um altar interior para assegurar que o nosso sacrifício seja santificado. A sabedoria a ser descoberta não é que ‘você mesmo buscou isso’, mas que isso levou você até o seu Self. A necessidade psicológica não é que salvemos a vítima interior de todas as mágoas e dores, mas que aprendamos a aceitá-la e cuidar dela, na sua dor. Isso significa o sacrifício do papel do ‘salvador’, uma rendição consciente e voluntária da nossa fantasia de total independência e autossuficiência. Não podemos nos salvar e não somos suficientes para nós mesmos. Somente alguém com uma compulsão patológica para a autonomia e o excessivo exercício do faça-você-mesmo seria capaz de contestar essa ideia... Os eventos e vivências que nos causam dor, perda, luto, danos e abandono são ritos de passagem e oferendas sacrificiais que nos ‘aumentam’, que nos forçam a amadurecer. A figura da vítima dentro de nós, ferida e desprotegida, é às vezes resgatada pela reflexão, quando o agressor interior também for reconhecido. Podemos ser vitimados por qualquer uma de nossas mais insensatas loucuras, falhas de caráter, falhas de previsão, erros de julgamento e autotraições. Podemos nos tornar vítimas de qualquer divindade ou poder arquetípico cujo serviço tenhamos negligenciado... Conhecer em si mesmo a ‘vitima sagrada’ é aquela experiência da vida como destino e fim que torna possível à pessoa submeter-se à sua própria condição humana, sacrificando enfim o seu desejo tão humano de ser deus em todas as coisas... O autoquestionamento insistente quanto às atitudes, aos hábitos de agradar, por exemplo, ser ‘boazinha ou bonzinho’, pode revelar a intenção de manipular os outros a agirem conforme os desejos pessoais. A partir da identificação da falha, a consciência pode ter maior atilamento para o convívio interpessoal, gerando novos questionamentos sobre a qualidade das inter-relações. A partir da autoinvestigação, o interessado pode identificar o seguinte padrão doentio durante a manifestação da carência afetiva: pensamentos autodepreciativos – medo da dupla (interna e externa) reprovação – atitudes de agradar... Os pensamentos habitualmente observados durante a manifestação da carência afetiva são de natureza derrotista, caracterizados pela não aceitação mediante os erros e as imaturidades pessoais. A partir da auto-observação identificouse a crença de ter que se esforçar para obter reconhecimento. A autoimposição de atitudes para agradar aos outros pode estar fundamentada em pensamentos de deveres, obrigações e encargos com padrão rígido de que, se não o fizer, será rejeitado. O que impulsiona o esforço constante para agradar aos outros é o senso de inadequação composto de dúvidas incômodas de que você não fez realmente o suficiente. O repertório emocional predominante na manifestação da carência afetiva é composto principalmente por desejo de aprovação, por autoculpa e por medo (da rejeição, da reprovação, da retaliação, de desagradar, de errar, de vivenciar conflitos e confrontos, do abandono, do descontrole emocional, dos credores do passado)... A carência afetiva resulta na idealização e defesa da autoimagem, alimentando a ideia falsa de que se for autêntico perderá a fonte de afeto, pois verão que não se é tão bom assim e não será digno de estima. Há a ocorrência de uma postura sedutora a fim de capturar a atenção dos outros para si. Faz o tipo popular e acessível a todos. Manifesta simpatia para conquistar o afeto interno e externo. A defesa do ego pode se manifestar através da autofragilização e autovitimização, a fim de provocar a comoção e a bajulação por parte dos outros, tendo assim feito uma barganha afetiva. O sintoma da carência afetiva pode ser representada pela imagem de ‘mendigo sentado num pote de ouro pedindo esmola’, alienado quanto às autopotencialidades. Observa-se na manifestação da carência afetiva a expressão de simpatia sedutora com foco em conquistar o afeto do outro para si. A consciência que está enfrentando esse aspecto precisa manifestar a simpatia com foco em doar o afeto de si para o outro. Com isso inverte a direção do fluxo da automanifestação de centrípeta para centrífuga. A carência afetiva consiste em sinalizador de egocentrismo patológico, exigindo reciclagem mental a partir da autodoação lúcida interassistencial libertária... A timidez é o esconder-se usando ‘máscara’ e validando o subterfúgio que a consciência utiliza para manter-se em segundo plano, introvertida, calada, quieta e na zona de conforto. Envolve acanhamento, receio, medo, submissão, passividade, retraimento, atrapalhação, parcimônia, comedimento, recolhimento, vergonha, falta de traquejo social e sociofobia... A timidez pode ter como origem a autoproteção gerada pelos medos conscientes e inconscientes. Os medos podem ser variados, tais como medo de errar, de não ser aceito pelo grupo (rejeição), da imperfeição, de descobrir o próprio potencial, de frustração, de julgamento, etc. A cultura promove algumas exigências comportamentais que influenciam na timidez, tais como: (a) apresentarse passivamente perante qualquer autoridade (respeito à hierarquia); (b) não cometer erros que possam prejudicar a sua autoimagem (evitar a vergonha); (c) mesmo que a situação esteja ruim, não é educado reclamar; (d) modéstia; (e) ser reservado; (f) prática do controle emocional; (g) inibição da autoexpressão. Estes tipos de condicionamentos podem gerar padrões estereotipados que prejudicam a espontaneidade. Além disso, gera a preocupação para manter a autoimagem padronizada, aceita pela sociedade... Muitas consciências tímidas possuem a ilusão de querer saber tudo. Ao constatar que não sabem, geram um sentimento de incapacidade, incompetência e inferioridade. Consequentemente, utiliza a timidez para esconder a sua real opinião como autoproteção... O fato da consciência não obter os resultados esperados propicia um sentimento de falta de competência, derrotismo, frustração e incapacidade. A frustração leva à falta de continuidade, pois acredita que não tem potencial. O desânimo é gerado pela dificuldade de compreender a si mesmo, da falta de paciência, do pessimismo e da imaturidade... O tímido exige controle de si mesmo, das emoções, das ações através da repressão da espontaneidade. A pessoa apresenta uma falsa imagem de equilíbrio emocional... O tímido não quer ser notado, por outro lado, quer ser notado estando escondido. A pessoa está focada em si mesma, perde a lucidez, sente-se vítima nas situações de exposição. A falta de segurança nos seus potenciais e a falta de autoconhecimento promovem a dificuldade de autoaceitação. A consequência deste mecanismo de insegurança é a consciência não se achar qualificada para desempenhar ações, atividades e expor opiniões. O tímido pode não se expor em função do orgulho: não quer ser avaliado, julgado, criticado e precisa manter uma autoimagem intocada. Prefere reprimir a sua espontaneidade a ser exposto à opinião pública. Esse comportamento pode gerar angústias, inquietações, tristezas, depressão e fugas imaginativas. O tímido não quer errar e perder o controle da situação, pois tem medo do julgamento interno e externo. O perfeccionista considera as falhas e adversidades da vida como indicadores de sua incapacidade, apresentando baixa tolerância aos erros e foco negativo. A consciência tímida acredita que pode controlar suas emoções, reações e situações conforme seu desejo pessoal. Muitas vezes, ela utiliza a timidez para esconder a sua visão prepotente. O tímido possui elevada vaidade de si mesmo, entretanto percebe que não é um comportamento saudável. Desta forma, na tentativa de esconder essa vaidade, omite qualquer comportamento e opinião que possa conectar-se à vaidade. Autovalorização, autenticidade e libertação da autorrepressão são as bases de superação da timidez...”
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