Uma mulher se aproxima dos quarenta anos e se depara com questões que definirão o seu futuro. Entre elas, um dilema fundamental: haverá espaço numa só vida para se dedicar de verdade à criação de um filho e à criação artística? Neste romance híbrido, Julia Dantas constrói um jogo duplo, no qual a ideia de ter um filho interfere nas ambições artísticas de uma escritora ao mesmo tempo em que o desejo de viver da arte afeta suas possíveis ambições maternas. Entre dilemas existenciais e conflitos da vida prática, adentramos o espaço mental de uma narradora que é às vezes marcado pelo delírio e às vezes resultado de afiada lucidez.
A Mulher de Dois Esqueletos -
Julia Dantas
Uma vez me disseram que o único jeito certo de se ler...
... é lendo devagar, mas com "A mulher de dois esqueletos" foi impossível. Li, voltei, marquei, risquei, sublinhei, pensei, chamei o meu companheiro – que não é namorado nem marido nem aquele com quem, segundo a autora, eu poderia iniciar uma greve metalúrgica – e falei "escuta só mais essa" pela quarta, quinta, décima (?) vez, sem ver o tempo passar. E acabei lendo muito mais rápido do que costumo. Porque os universos da Julia Dantas, a autora, são assim: oceanos para onde sempre queremos voltar, igualzinho ao que as baleias fizeram milhões de anos atrás. Além de ser uma narrativa sublime e com um encadeamento formidável, "A mulher de dois esqueletos" é um livro que faz a gente arquear as sobrancelhas o tempo todo e se enxergar nas relações, nas dúvidas, no dilema da narradora-personagem. Com um "esqueleto" híbrido, a obra tem espinha de romance, vértebras de conto e tutano de crônica, num tecido que costura narração, digressão, metalinguagem e lista – provavelmente o ponto alto do livro, no capítulo Quarenta que não é o capítulo quarenta (quem ler vai entender). Para mim, no meu lugar de leitor homem de uma narrativa que desenvolve sobretudo questionamentos sobre as possibilidades e as renúncias impostas pela maternidade, uma das maiores proezas da autora (de quem sou fã desde Ruína y Leveza) é parecida com o que esperamos dos livros infantis e dos filmes de animação: os melhores são capazes de tocar não apenas as crianças, mas principalmente os adultos. Longe de pensar que as mulheres deveriam se preocupar se suas obras serão apreciadas pelos homens aos escreverem seus livros, acho que "A mulher de dois esqueletos" acaba se tornando ainda mais instigante à medida que as reflexões da escritora indecisa que não sabe se quer ser mãe dão à luz discussões que superam a particularidade do seu dilema: que escolhas realmente podem ser feitas nesse mundo cheio de curvas erradas que levam a outras curvas erradas que cada vez mais parecem nos conduzir, depressa e irreversivelmente, ao abismo da extinção, ou a algo muito pior? Esse mundo, o único que temos fora dos livros e da arte, é um mundo no qual as pessoas deveriam continuar tendo filhos? O que uma mulher deve fazer com seus sonhos e ambições ao se tornar mãe? Sonhos e ambições podem ser engavetados para sempre no fundo de um armário, filhos não. Os filhos não podem ser esquecidos numa gaveta. Afinal, até que ponto escolher é um ato de liberdade? Medo, desejo, liberdade e identidade, tudo isso se confunde e se complementa no amálgama de incertezas da narradora. "A vida é muito curta para se ter filhos. Será que também é muita curta para não se ter?", questiona a personagem-narradora-autora. Aqui essa dúvida deixa de ser só dela. É a pergunta que todos nós vamos passar a nos fazer, por meio da elaboração de palavras simples, mas sofisticadas que a Julia Dantas articula como ninguém (não é fácil ser simples com as palavras, é preciso muita habilidade e experiência fazer isso bem e ainda "alugar um triplex" na cabeça dos seus leitores). "A mulher de dois esqueletos" tem também essa proeza, de ser simples sem ser simplório. De ser interessante pra todo mundo – mulheres, mães, futuras mães, não-mães e também para os homens, sejam eles seus namorados, maridos, companheiros ou só homens que deveriam pensar mais sobre mulheres, maternidade, feminismo e, quem sabe, a partir daí, pensar mais sobre si próprios (e não em si), sobre o que significa ser um homem ("Ela se chama Rodolfo" fez isso muitíssimo bem), sobre seu papel na criação de um filho, sobre o que significa ser pai, e, principalmente, sobre o corpo sem estrias com o qual não precisará se preocupar no próximo verão, sobre a carreira que não terá que abandonar ou os sonhos que não precisará jogar no fundo de uma gaveta se porventura decidir ter um filho. Ler mulheres que falam sobre si e buscam conhecer melhor a si mesmas é também uma ótima forma de nós homens nos conhecermos melhor enquanto homens. Os livros da Julia são exímios em retratar as questões de gênero que permeiam e muitas vezes definem o cotidiano. "A mulher de dois esqueletos" é um livro que traz mais perguntas do que respostas, mas às vezes é das perguntas que precisamos. Com a sagacidade e a leveza de sempre, Julia Dantas nos lembra, em seu novo romance, o quão bem ela sabe perguntar.
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