O som (perturbador) da montanha
"Com que idade Shingo teria começado a se sentir solitário ao acordar no escuro nas manhãs de inverno?" Essa foi uma das leituras mais difíceis do ano. Embora a escrita seja fluida, o conteúdo é bastante denso devido a camadas e mais camadas de exploração psicológica que formam a essência do enredo. De modo perturbador e desconfortável, o autor explora temas como velhice, memória, arrependimentos e a dualidade entre a vida familiar e a vida em sociedade. Tenho até dificuldade de descrever objetivamente do que se trata o livro, além de ser o recorte de uma trama familiar que se passa no Japão pós-guerra. O enredo não segue uma sequência óbvia, quase ignorando os conceitos de começo, meio e fim. A sensação que tive ao longo da leitura é de estar olhando para o céu, acompanhando o passar das nuvens enquanto mudam de forma até se dissolverem completamente. O que posso dizer é que a sensação de entrar na mente dos personagens foi uma experiência perturbadora, como se estivesse passeando em um território proibido. E no fim das contas, ainda não sabemos nada, ou quase nada sobre eles. Verdadeiros enigmas. Como pano de fundo, Kawabata apresenta um Japão em plena fase de transição, passando por um malabarismo coletivo. Vemos uma nação que se agarra às tradições, ao mesmo tempo em que recebe uma enxurrada de influências externas. Esse é um tema recorrente na obra do autor. Outro tópico presente aqui, em momentos e discussões centrais para a trama, é o lugar e a identidade da mulher em uma sociedade em transformação. Ele também não deixa de fora o "legado" sutil e doloroso da guerra, ora na forma de danos emocionais que atrapalham as relações interpessoais, ora na desconfortável presença dos soldados americanos ocupando espaços do cotidiano. Um último ponto que não posso deixar de mencionar é a belíssima representação ciclos da natureza e suas simbologias. Kawabata é mestre em incorporar esses elementos em suas narrativas. Por fim, confesso que o final do livro me pegou de surpresa. Por que o autor fez essa escolha? Ao mesmo tempo, por que não?


