Em "Nuvens" o leitor encontra sujeitos poéticos cujos olhares transitam entre a forma e o informe. A princípio, vê-se um mundo onde o signo deseja se desencontrar da possibilidade de significação. Nesse sentido, a metáfora das nuvens torna-se a multiplicidade de sentidos que a palavra e a própria literatura possibilitam. É “No Quase” das imagens moventes oriundas de um quintal da memória – para se tornarem textualidades oníricas – que os seres do livro sonham “ter sonho por sonho”. No mundo surrealista proposto, as cores se entusiasmam, num gesto de combate ao que se entende por real, indicando, assim, uma língua-lume só de partida.
Nuvens -
Felipe Diógenes
Edições (1)
Ver maisNos desvãos das palavras
Até onde uma palavra pode ser explorada? Felipe Diógenes, com seu livro "Nuvens", explora os limites do uso não-utilitário das palavras, procurando combinações das mais inusitadas, elaborando assim elementos fantásticos em imagens oníricas e metáforas inventivas. Há algumas palavras recorrentes. Uma delas é catacrese; a outra, talisca. Os sentidos das palavras são esgarçados, não importa o sentido, o que mais importa é a sua sonoridade e a composição onírica das construções metafóricas. Claro discípulo de Manoel de Barros, Felipe Diógenes procura explorar os sentidos simples das palavras, mas também seu esvaziamento. Cria novas possibilidades de sentido e não-sentido. A memória e sua fugacidade também é abordada nos poemas. A brincadeira de confundir olvido com ouvido é primorosa e bem-humorada. A palavra se afasta totalmente de seu viés utilitário, levada a alçar voos, inaugurando sentidos oníricos. mas pedra é igual equivalência de nuvem. Nesse verso, presente no primeiro poema do livro, Felipe dá o tom da sua obra, em que os sentidos se entrelaçam. Pedra e nuvem se aproximam e um universo maravilhoso é criado como numa tela surrealista. Mas antes mesmo do primeiro poema há uma epígrafe de Manoel de Barros: Repetir repetir até ficar diferente./Repetir é um dom do estilo. E para seguir os versos de seu mestre, Felipe Diógenes repete até ficar diferente. Suas ideias são recorrentes, como a exploração imagética e sonora das palavras. Criando novas fronteiras, o poeta lança mão de sua genialidade para produzir poemas que nos cativam por sua sonoridade e pelas construções inusitadas. Outra sacada genial de Felipe Diógenes é usar a palavra quase, desconstruindo as palavras colocadas ao lado desta: quase rua, quase todo, quase peixe, quase fogo. Numa sanha de desconstrução, Felipe devassa a língua, tornando-a algo mais, como que inaugura uma outra língua, um código secreto, reservado apenas aos iniciados. A poesia de Felipe Diógenes é incômoda, como toda boa poesia. Como toda poesia genial. Ele nos toma pela mão e nos guia por um caminho caleidoscópico, em que sons e sentidos se misturam, num verdadeiro emaranhado onírico de imagens.
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