Existe um fenômeno (que começou graças ao booktok) que eu apelidei de "síndrome de O Príncipe Cruel": livros que prometem uma protagonista forte, um enemies to lovers bem feito, intrigas políticas e um worldbuilding fascinante, mas que acabam entregando versões extremamente superficiais de tudo isso e, infelizmente, este livro sofre exatamente desse problema. Comecei a leitura cheia de expectativas, livros inspirados na cultura árabe são sempre interessantes, principalmente os de fantasia, e geralmente são melhores que os livros de fantasia eurocêntricos que dominam o mundo. Sendo assim, me prometeram uma protagonista bem desenvolvida, brigas políticas e um worldbuilding maravilhoso, mas o que encontrei foi uma história que mal consegue sustentar as próprias promessas.
Um dos maiores problemas (ou talvez o maior) do livro está justamente no worldbuilding. Arawiya é descrito como um reino que já foi mágico e perdeu sua magia, mas a narrativa nunca se dá ao trabalho em explicar adequadamente como essa magia funcionava, que impacto ela causava na população ou como o reino era antes de sua ausência. O mesmo acontece com as Seis Irmãs (figuras mágicas centrais para toda a mitologia do livro), elas são mencionadas o tempo todo, mas quase nada é realmente revelado sobre quem eram, como surgiram ou o que aconteceu com elas e isso se repete em praticamente todos os elementos importantes da trama. Quem exatamente é a Bruxa de Prata? Por que o sultão está tão obcecado por guerra? Por que Nasir continua matando em nome do pai se o odeia profundamente? A autora parece presumir que o leitor já possui informações que nunca foram fornecidas. E o que mais me deixa frustrada é que a autora tenta fazer parecer que existe um worldbuilding inserindo várias comidas árabes, nomes diferentes e algumas palavras em seu idioma original. Uma fantasia inspirada em culturas árabes deveria refletir essa inspiração não apenas na estética, mas também nos valores sociais, nos conflitos, nas formas de pensar, nas prioridades dos personagens e nas estruturas da sociedade. Em vez disso, o livro parece utilizar arquétipos extremamente familiares da fantasia YA ocidental e apenas trocar a decoração.
Os personagens são os que mais sofrem com esse problema, principalmente a protagonista. A Zafira é apresentada como uma protagonista forte, mas o desenvolvimento dela não passa do clichê habitual da "garota especial presa em uma sociedade opressora". Seu disfarce masculino, por exemplo, parece existir mais para gerar uma premissa vendável do que porque a história realmente precisava dele. A justificativa para a misoginia de Demenhur é tão absurda e mal construída que acaba enfraquecendo ainda mais esse aspecto da narrativa. Aliás, toda a questão da discriminação contra mulheres no califado é um dos melhores exemplos da fragilidade do worldbuilding. O livro tenta justificar essa misoginia através da suposta traição das Seis Irmãs e em vez de mostrar como uma estrutura machista pré-existente se aproveitou de uma crise para consolidar seu poder, a narrativa parece simplesmente inventar uma explicação conveniente para forçar Zafira a se passar por homem durante metade da história. Quanto ao restante dos personagens, a impressão que ficou é que existem apenas dois tipos de personalidade nesse livro: os melancólicos e atormentados, que cada fala soa como uma citação de um coach, e os personagens espirituosos cuja única função é fornecer alívio cômico. Todo o restante parece composto por figuras genéricas que existem apenas para cumprir papéis narrativos específicos antes de desaparecerem da relevância da história. O romance também não ajuda, a química entre Zafira e Nasir não me agradou em nenhum momento, e a dinâmica de rivais prometida na divulgação raramente alcança o impacto emocional que deveria ter.
E então chegamos à trama. A premissa principal não é ruim: recuperar um artefato perdido capaz de restaurar a magia ao reino. O problema é que a execução é tão dependente de clichês que tudo parece uma colagem de elementos já vistos inúmeras vezes na fantasia YA: um artefato lendário, uma ameaça sombria, inimigos que se tornam aliados relutantes e personagens carregando passados trágicos. Nada disso seria necessariamente um problema se houvesse alguma originalidade na forma como esses elementos são trabalhados, mas não há. O ritmo também é um desastre, a história demora uma eternidade para realmente começar, e quando finalmente parece encontrar uma direção, já é tarde demais para gerar envolvimento e cada página parecia durar horas. Houve momentos em que grandes revelações aconteceram e eu simplesmente não senti nada, não fiquei surpresa e nem chocada. Apenas um enorme vazio alimentado pelo tédio acumulado. A tal lendária ilha de Sharr, anunciada como um local aterrorizante e praticamente impossível de sobreviver, também foi uma enorme decepção. Monstros apresentados como ameaças apocalípticas são derrotados com facilidade desconcertante e criaturas aterradoras aparecem apenas para compor a questão visual da história. A sensação de perigo simplesmente nunca existe e em vários momentos me perguntei por que ninguém havia enviado um exército inteiro para resolver a situação.
A escrita também não ajuda, não sei dizer se parte do problema está na tradução ou se o original sofre dos mesmos defeitos, mas a escrita frequentemente parece artificial e inconsistente. O uso de termos estrangeiros é especialmente estranho: algumas palavras comuns são substituídas por equivalentes árabes sem qualquer lógica aparente, enquanto outras permanecem em português/inglês. O resultado não é imersão cultural; é apenas confusão e talvez seja justamente isso que melhor resume minha experiência com este livro: uma sucessão de ideias potencialmente interessantes que nunca recebem o desenvolvimento necessário para funcionar.
Seja qual for a magia que A Caçadora de Arz tentou lançar, ela definitivamente não funcionou em mim. Quando virei a última página, não senti encantamento, emoção ou curiosidade para continuar a duologia, senti apenas alívio e, sinceramente, depois dessa experiência, pretendo fingir que o segundo volume simplesmente não existe.