Em uma folha azul, com letra irrepreensível, sem rasuras, Alexandre Dumas dava início à redação de suas memórias. Era 18 de outubro de 1847, cinco e meia da manhã, e o Château de Monte-Cristo estava completamente silencioso. Aos quarenta e cinco anos, o célebre autor de dramas românticos e de famosos folhetins decidiu parar para refletir sobre sua existência e para se dedicar ao introspectivo trabalho que exigem as escrituras do eu. Assim nasceu Mes mémoires: obra caudalosa, entre o registro literário e o histórico, concebida com a ambiciosa pretensão de eternizar, mais do que a sua história pessoal, as memórias de seu país, a França. Maria Lúcia Dias Mendes, "No limiar da História e da Memória. Um estudo de Mes mémoires, de Alexandre Dumas". SP: FFLCH-USP, 2007.
Memórias de Alexandre Dumas, Pai (Memórias, Diários, Ficções #24) -
Alexandre Dumas
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Mes mémoires... As memórias de Alexandre Dumas (1802-1870) - Mes Mémories - escritas a partir de 1847, quando ele tinha 45 anos e estava no auge da carreira, considerado um dos reis de Paris, junto com Victor Hugo, tem cerca de 1.000 páginas nas edições Gallimard; e 'só isso' porque cobre sua vida apenas até 1834, quando ele resolve partir para a Suíça. Embora seja conhecido pelos grandes romances - 'O conde de Monte-Cristo', 'Rainha Margot', 'O visconde de Bragelonne', 'Os três mosqueteiros', 'Vinte anos depois' (continuação de 'Os três mosqueteiros' etc. - poucos sabem hoje que suas primeiras obras foram peças teatrais que fizeram grande sucesso. Seus dramas - 'Cristina', 'Henri III', 'Antony', 'Carlos VII', 'Napoleão Bonaparte' - foram produzidos quando ele tinha entre 25 e 30 anos mais ou menos, rendendo-lhe nome e fortuna, além de precursoras do romantismo no teatro. A peça 'Henri III', por exemplo, impressionou Victor Hugo que, por causa dela, produziu duas obras-primas - 'Marion de Lorme' e 'Hernani' - consideradas atualmente as fundadoras do teatro romântico (em oposição ao teatro clássico dos séculos XVII e XVIII). Os grandes romances de Dumas, citados supra e lidos até hoje, começam a surgir na década dos anos 1840, quando ele estava em vias de se tornar um quarentão, mas já tinha fama e era relativamente rico devido ao teatro. Quando o autor começa a publicar essas suas memórias, elas foram consideradas muito originais devido a uso da bricolagem: para além da descrição da própria vida interior tão típica do romantismo, Monsieur Dumas usa de tudo que é possível como fonte: bilhetes, notícias de jornal, resenhas positivas e negativas de suas obras, correspondências, documentos históricos etc. É uma obra que insere o indivíduo na história e, vice-versa, tenta compreender o peso da história no curso de uma vida individual. Ele sabia, melhor, intuía que se tornaria uma figura histórica tanto de seu país quanto da literatura universal. Esse edição brasileira, com cerca de 300 páginas, é bem peculiar. Foi traduzida nos anos 1940 por ninguém menos que Rachel de Queiroz. Porém, é uma má compilação da obra original: centra-se principalmente nas descrições factuais da participação do autor na Revolução de 1830, a revolta dos citadinos contra as quatro ordenanças do monarca Carlos X (limitação da liberdade de imprensa, restrição do voto etc.) que o levou a perder o trono, e, além de mal traduzida, pontuação inadequada, erros de ortografia (ela escreve cidadões ao invés de cidadãos), as notas da tradutora contém muitas informações erradas. Deve ter aceitado o trabalho só pelo dinheiro. Eu já não era fã dela (muito chata!), depois de seu medíocre trabalho na edição deste livro, então... A sorte é que Alexandre Dumas é tão bom autor - um clássico! - que mesmo uma tradução ruim não nos impede de apreciar a sua escrita. É este um dos motivos que o tornam um clássico. Para aquele tipo de leitor muito fã de um autor e que gosta de saber mais sobre o ídolo, é uma obra excelente, além de uma grande aula de história sobre eventos que se estuda até hoje devido a seus impactos sociais.
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