Como já deixei claro no título, vale dizer antes de mais nada que essa obra não é uma leitura para iniciantes. A autora se utiliza diversas vezes de uma interpretação de vocábulos advindos diretamente do grego, o que, naturalmente, enriquece a leitura, mas ao mesmo tempo a torna mais erudita e complexa. Suponho que seja algo mais adequado para estudantes de filosofia, e, ou, curiosos (como eu!) que tenham muita força de vontade para ir até o fim. Dito isso, aos trancos e barrancos aprendi um bocado de coisas que, sinceramente, ainda não tinha compreendido lendo outros "manuais introdutórios" de filosofia.
A autora começa enfrentando uma das grandes perguntas da historiografia da filosofia: a Filosofia surgiu por oposição ao mito ou a partir dele? Maria Michela Sassi refuta com elegância a ideia de uma ruptura brusca e defende, com base em fontes e estudos modernos, que o pensamento filosófico não emergiu como negação do mito, mas como desdobramento e transformação interna da tradição mítica.
Além disso, a autora desmonta o mito do milagre grego: a filosofia, segundo ela, não é um produto espontâneo e puramente helênico, mas o resultado de interações com culturas como a egípcia, fenícia e persa. Essa visão descoloniza a narrativa tradicional e nos lembra do quanto a sabedoria circulava entre os povos.
Destaco a clareza como a autora me fez compreender a importância de textos fundamentais como Hesíodo e sua Teogonia, Homero com sua Ilíada, e Heráclito e seus respectivos fragmentos. Foi muito enriquecedor.
O posfácio da obra é muito bom, e para quem mantém estudos em áreas correlatas é interessante perceber como a própria autora, ao lado de outros estudiosos, se posiciona pela oposição ao termo "pré-socrático" em virtude de esse período histórico ser muito mais heterogêneo e multifacetado do que normalmente se supõe. Além de, é claro, essa classificação ser simplista e reducionista por si só.
Vale muito a leitura!
As vezes complexa, densa, desafiadora, mas de fato, enriquecedora!