Um jovem andarilho de barba e cabelos longos chega a uma pacata cidadezinha no interior do Kentucky, Estados Unidos. Hostilizado pela polícia local e atormentado pelas memórias do que viveu como soldado, ele decide que está na hora de revidar. Disposto a ir até as últimas consequências, Rambo deflagra uma verdadeira guerra dentro do próprio país, mostrando que o treinamento para matar pode ser um caminho sem volta. Todos conhecem a história, mas poucos conhecem sua origem. Escrito pelo premiado autor David Morrell, em 1972, com a Guerra do Vietnã dividindo a sociedade e ceifando a vida e a mente de cada vez mais jovens, Rambo: First Blood caiu como uma bomba na cena literária estadunidense, tornando-se um Best seller aclamado pela crítica especializada e chegando a ser adotado como leitura obrigatória em várias universidades do país. Alternando entre a narração de Rambo e do chefe de polícia Teasle, dois homens fundamentalmente opostos, veteranos de guerras diferentes, mas unidos por seus traumas, Morrell cria não apenas aquilo que até hoje é definido por especialistas como “o pai do romance de ação moderno”, mas também uma narrativa densa, com personagens cheios de contradições, e uma crítica cortante ao militarismo e ao estilo de vida norte-americano. O filme de 1982, dirigido por Ted Kotcheff e protagonizado por Sylvester Stallone, é uma via de mão dupla: se por um lado tornou o livro ainda mais popular e introduziu na cultura pop um dos heróis mais emblemáticos do século XX, por outro, até hoje muitos o acusam de ter descaracterizado o material original, com seu tratamento mais maniqueísta e seu excesso de testosterona, tendo afastado da obra os círculos acadêmicos e intelectuais que a princípio a abraçaram.
Rambo: First Blood -
David Morrell
Rambo: um produto da guerra do Vietnã
O ano era 1968. Os EUA passavam por um período bastante conturbado devido ao seu envolvimento na Guerra do Vietnã, um conflito considerado sem sentido por boa parte dos norte-americanos, principalmente depois que os horrores do Massacre de Mỹ Lai vieram à tona. A população passa a demonizar os soldados que foram para o Vietnã, o que gerou diversos párias, soldados com stress pós-traumático sem lugar dentro de uma sociedade que os tratava como "baby killers". Isso tudo era amplamente noticiado na imprensa norte-americana. Dentre a população que assistia a esse turbilhão, estava um pós-graduando de 25 anos chamado David Morrell, estudante de literatura norte-americana que queria ser um romancista e que viu nos noticiários material suficiente para inspirar seu primeiro livro, "First Blood". Segundo palavras do proprio Morrel contidas no magnífico prefácio do livro: "A justaposição (de uma notícia sobre o Vietnã e um conflito armado doméstico) me fez decidir escrever um romance em que a Guerra do Vietnā literalmente chegava aos EUA. Não há uma guerra em solo americano desde o final da Guerra Civil, em 1865. Com a América dividindo-se ao meio por causa do Vietnā, talvez fosse o momento de um romance dramatizar a divisão filosófica da nossa sociedade e empurrar a brutalidade da guerra para bem debaixo do nosso nariz". Todo esse contexto conferiu muita densidade ao conteúdo de First Blood, que foi lançado em 1972 e se tornou um sucesso imediato, com seus direitos de adaptação para os cinemas adquiridos no mesmo ano (com o filme só saindo em 1982) e a obra ganhando status de leitura recomendada em diversas universidades dos EUA. Vamos ao conteúdo da historia: Rambo (sem o "Jhon" do filme de 82) é um veterano da Guerra do Vietnã e ex-boina-verde (elite militar), que retorna para casa com uma medalha de honra ao mérito e uma mente destruída pelo stress pós-traumático: ele foi preso e torturado na guerra, conseguindo escapar por pouco. Já nos EUA, Rambo já não vê sentido em se enquadrar naquela sociedade e passa a perambular pelos EUA sem documentos, dormindo nas matas. Seu cabelo e barba são compridos, suas roupas são precárias e sujas, o que faz com que seja escorraçado em cada cidade por onde passa, sendo chamado de hippie ou vadio. No começo do livro é dito que Rambo já passou por isso em 15 cidades diferentes. Quando ele chega à Medison, no Kentucky, o ciclo se repete: o chefe de polícia Wilfred Teasle o aborda e o expulsa da cidade sem maiores explicações, mas essa é a gota d'água para Rambo: ele não vai deixar mais que o desrespeitem, não depois do que passou na guerra. Quando ele se recusa a sair da cidade, Teasle o prende, mas Rambo escapa deixando um rastro de destruição e morte atrás de si, indo se refugiar em uma floresta. A partir daí, vemos um jogo tenso de perseguição, onde os policiais de Medison passam de caçadores à caça em questão de horas de perseguição. Morrel é um escritor fabuloso e trabalha a geografia e flora da floresta de forma brilhante e imersiva, tragando o leitor para a caçad, com muitos detalhes das táticas inteligentes de Rambo para subjugar seus perseguidores. E não se enganem: o Rambo de Morrel não é nenhum herói, ele mata cada um dos policiais, a tiros ou cortado pescoços, fazendo uma grande carnificina. Somente Teasle escapa dessa primeira investida. Morrell escala esse conflito de tal forma que justifica o preceito inicial de "trazer a guerra para dentro do território americano". E ele consegue descrever tudo isso com muita tensão e adrenalina (e eu ainda li esse livro ouvindo à banda Sodom, a adrenalina estava no talo!!). É claro que após a leitura do livro eu corri pra rever a adaptação de 1982 com o Silvester Stallone (sugiro que façam o mesmo) e devo dizer que o filme parece uma mera versão resumida da história, com muito menos embasamento e profundidade - mas eu ainda gosto muito do filme, que fique claro! Uma das principais diferenças é o tratamento dado à Teasle, que no filme é um policial caricato, mas no livro divide o protagonismo com Rambo, sendo tão bem trabalhado psicologicamente quanto o protagonista. Tesle também é veterano de guerra, tendo servido na guerra da Coreia, sendo que a trama vai se desenrolando sobre os dois pontos de vista, de tal modo que Morrell coloca em discussão: há algum herói ou vilão nesta história, neste conflito de gerações? Ou será que ambos são apenas produtos de seu meio e de suas vivências, sem nenhum lado certo e com todos sendo prejudicados? Eu acabei a leitura sendo partidário desta última suposição. Falando sobre a edição da Pipoca e Nanquim, ela é primorosa: artes de capa, guarda e contracapa fantásticas, marca-página no formato da icônica faca do filme e um cartão postal com aquela cena do filme onde Rambo chega à cidade, com o carro de polícia do outro lado da rua. Tudo muito caprichado, a editora está mais uma vez de parabéns!!! Gostaria de finalizar dizendo que esta leitura me lembrou das histórias do arco "Reborn" do Justiceiro, sendo que eu acredito plenamente que este livro tenha sido uma inspiração forte para o roteirista Garth Ennis. TS: Sodom: M-16 (2001); Agent Orange (1989); One Night in Bangkok (2003); Persecution Mania (1987); Evile: Enter The Grave (2007) - Há uma música no álbum chamada "First Blood", nada mais adequado!
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