O teatro e o seu duplo -

    Antonin Artaud

    Iluminuras
    2025
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9786555192568
    Português Brasileiro

    “O ator é um atleta do coração”. Com essa frase, Antonin Artaud não poderia ter ido mais longe no entendimento dos duplos do teatro. O atletismo afetivo ao qual ele se refere faz do teatro uma experiência sensível para captar até mesmo os mínimos instantes metafísicos de forças adormecidas. Para além do manifesto do teatro da crueldade no começo dos anos 1930, Artaud desmonta os psicologismos do teatro moderno e, sob o princípio do duplo, o teatro é posto à prova pela cultura, pela peste, pela própria metafísica, pelos procedimentos alquímicos até atingir os pontos de tensão entre ocidente e oriente. Esse teatro tem uma linguagem concreta: busca-se uma dignidade típica de exorcismos particulares. Eis uma espécie de possessão pelas formas de sentidos e de significações. Muito atento à linguagem, Artaud buscou extrair dela uma capacidade primeira de feitiço, podendo ser um detalhe ou uma articulação de detalhes. Diante da cena e em cena, emerge um teatro de transes, cujo repertório totêmico e hieroglífico põe em circulação a palavra colada ao seu sopro, ao gesto e à expressão, ou a combinação deles. O teatro e seu duplo contém uma consciência singular que um encantamento pode ser elaborado. Para fabricá-lo, Artaud ressalta vibrações menores: entonações, linguagem visual de objetos que, junto aos gestos, prolonga seus sentidos fisionômicos aos signos. Artaud abre o terreno dos limiares, situando o teatro numa encruzilhada entre cores, luz, instrumentos musicais, figurino, palco ou local de encenação. Eis alguns dos pontos cardinais onde o corpo permanece como um espaço de invenção. No Brasil, pode-se imaginar a beleza inquietante deste livro aberta às manifestações afro e ameríndias onde as sombras ancestrais encontrariam uma força extática e performática. Nesse sentido, os objetos encontram uma potência sonora expressiva, propiciando vasos comunicantes entre forças adormecidas. Daí a necessidade do seu grito. Uma vez posta a crítica do teatro bem falado, que não sabe gritar ou orientar-se por gestos, Artaud faz com que a força vital dos afetos siga acionando o duplo do teatro. O humano, para além e aquém da sua própria espécie, assume uma dimensão espectral da sensibilidade. Extremamente atento, rigoroso, Artaud capta as vibrações não-ocidentais para alterar os rumos do teatro em pensamento e em ato. Ele implode a retórica bem comportada para fazer com que o teatro respire, pulse no seu atletismo afetivo que nos mantém enfeitiçadas, enfeitiçados. - Eduardo Jorge de Oliveira.

    Edições (2)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover

    Similares (2)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    Resenhas (6)Ver mais
    Flávio Café de Miranda picture
    Flávio Café de Miranda13/03/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Artaud, um revelador

    Artaud é, certamente, um dos grandes reveladores do século passado e esse livro é uma revelação em matéria de teatro. Essa coletânea de textos escritos de uma forma poética e provocadora traz uma visão daquilo que o teatro deveria ser em detrimento, principalmente, do teatro que se fazia na época de Artaud, no qual a palavra era a mais soberana das faculdades do teatro e nos espetáculos faltava, como diz o Autor, "tudo aquilo que é especificamente teatral". Com os seus manifestos do teatro da crueldade e as suas cartas sobre a linguagem desse teatro, o autor, apresenta uma proposta de teatro como ele sempre foi, mas que a nossa sociedade intelectualizada, racionalizada, travada, neurótica, destruiu. Muitas das propostas de Artaud já foram parcialmente atingidas hoje como, por exemplo, a destituição da importância exacerbada do dramaturgo, a restituição dos poderes e da dignidade ao encenador (aqui expresso no sentido daquele que põe em cena, como no françês "metteur en scène") e a união do diretor com o dramaturgo, contudo, o espírito paralizador do pensamento psicológico europeu ainda prevalece em grande parte da produção teatral ocidental. Não que o teatro psicológico seja um erro, mas ele certamente destrói aquilo que é próprio da arte do teatro, ou seja, gesto e o movimento expressivos. Ainda que muitas vezes confuso, Artaud é, certamente um visionário, um sonhador e um reformador da cultura ocidental europeanizada.

    4 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.4 / 165
    • 5 estrelas55%
    • 4 estrelas32%
    • 3 estrelas12%
    • 2 estrelas1%
    • 1 estrelas1%