Primeiro de abril: narrativas da cadeia, de Salim Miguel, refere-se a 1964, quando ele, intelectual já conhecido, redator da Agência Nacional, passou cinquenta dias numa prisão militar em Florianópolis. Seu relato não denuncia arbitrariedades inéditas, nem torturas como as que ocorreram em outros lugares. É o depoimento de um escritor, de um homem sensível, que sabe valorizar o detalhe e recolher, dentre os variadíssimos tipos humanos que o cercam, o traço mais significativo; de um ficcionista atropelado por uma realidade dolorosamente imprevista, mas que não perde o sentido do pitoresco, do humor, mesmo quando descreve a destruição da livraria que foi sua, a queima absurda de livros em pleno centro da capital catarinense. Habilmente construído, com capítulos que podem funcionar como módulos autônomos, usando com boa técnica o flashback e a revelação do que viria depois, o livro de Salim Miguel se acrescenta à sua bibliografia de muitos títulos como uma nova e marcante contribuição à história do golpe de 1964 e seus ecos pelo país afora. História vista e contada do ângulo das vítimas, por isso mesmo mais reveladora.


