Uma passagem para a Índia -

    E. M. Forster

    Globo
    2005
    365 páginas
    12h 10m
    ISBN-10: 8525040908
    Português Brasileiro

    O livro reconstitui, de maneira ficcional, aspectos da colonização inglesa na Índia, detendo-se sobretudo no conflito que se estabeleceu durante o contato de duas culturas tão diferentes. Uma passagem para a Índia mistura o relato de viagem à análise da sociedade que se criou com a chegada dos colonizadores. Forster, no entanto, não esbarra em um problema comum a esse tipo de texto – a parcialidade – , e abre espaço no livro para uma pluralidade de pontos de vista que compõem painel bastante diversificado da Índia ocupada pelos ingleses.

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    mpettrus03/09/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O Romance Anticolonial de Forster

    “No Oriente todo ato humano é contaminado pelo oficialismo; onde há oficialismo toda relação humana fica prejudicada” Quando terminei de ler a última página desse romance eu estava genuinamente impressionado. Eu exclamava a cada dez segundo: “Que romance notável!”. É uma história inteligentemente satírica e sombria com personagens absurdamente bem desenhados dentro de uma narrativa de descrições e iluminações soberbamente bem escritas. ​ Chandrapur, Índia, durante a colonização britânica na década de 1920. Conta-se sobre uma jovem britânica, Adela Quested, acusando falsamente um médico indiano, Dr. Aziz, de tentativa de estupro. Durante o julgamento, ela reconhece seu erro inocentando o médico. A falsa acusação, o julgamento e a retratação dividiram a nação entre os colonizadores britânicos e os colonizados indianos. ​ Com descrições maravilhosas da Índia, desde as belas mesquitas e rios até a escuridão das cavernas, este é um livro que imediatamente me levou para outro tempo e lugar, que é o que toda grande ficção deve fazer ou deveria minimamente tentar fazer. Mas também há uma escuridão subjacente a história central quando você considera as verdades por trás das atitudes coloniais e tensões raciais. É ficção, mas também é história. ​ Tensões raciais e preconceitos transformam um mal-entendido em um drama. O retrato que Forster pinta dos ocupantes britânicos está muito longe de ser lisonjeiro: eles consideram os nativos inferiores em todos os sentidos, muitas vezes não se incomodando em ser racistas com eles e facilmente os culpando por qualquer coisa que não vá tão bem quanto desejavam, mesmo quando os colonizadores são obviamente os culpados. ​ Os indianos, por sua vez, veem os ingleses como indignos de confiança – exceto, é claro, para aqueles que buscam imitá-los em todos os sentidos. Essas atitudes combinadas reforçam muitos níveis de animosidade entre raças, religiões e castas. Lealdade e justiça não são facilmente definidas para aqueles que vivem neste cenário estranho, e isso confunde muito as coisas. ​ O romance também demonstra como as amizades tentam (embora muitas vezes falhem) cobrir a lacuna existente entre o inglês colonizador e o indiano colonizado. Escrito como uma mistura precisa entre um cenário realista e um tom místico, essa obra mostra seu autor como um excelente estilista e também um juiz perspicaz e aguçado do caráter humano. ​Impressionou-me ler o quão bem Forster retratou a Índia, particularmente considerando a época em que isso foi escrito. Ele não olha com desdém para sua complexidade religiosa, como muitos de seus personagens fazem. Em vez disso, ele reconhece, de forma bastante profética, que os dias do ‘Raj britânico’ (termo usado para se referir ao império britânico na Índia) estão contados e que mais cedo ou mais tarde a Índia declararia sua independência. ​ São os imperialistas britânicos (a quem Forster satiriza) que têm dificuldade em aceitar esse fato. No entanto, ao mesmo tempo, ele não finge que a Índia é perfeita ou que sua independência não levaria inevitavelmente a algum grau de caos. A falsa acusação de estupro de uma mulher inglesa contra um homem indiano apenas foi o detonador de uma bomba relógio. ​Achei muito interessante que o autor passou muito tempo descrevendo e analisando a psique de seus personagens orientais. Embora haja lugares onde ele não consegue se livrar de seus próprios preconceitos culturais ao desenhar esses personagens, ainda assim o faz excepcionalmente bem. Ele os retrata como sendo tão autocontraditórios e estranhos quanto todos os outros homens e mulheres na Terra. ​ Também achei, enquanto leitor, desafiador o começo da narrativa, já que ela começa direto em um diálogo onde nem sempre é óbvio quem está falando apresentando uma ampla gama de pessoas. No entanto, rapidamente fiquei fascinado e ao mesmo tempo chocado por muitas das conversas entre esses personagens — muitos dos quais são francos em seus preconceitos raciais e religiosos. Forster me envolveu completamente neste ambiente colonial opressivo onde as interações são reguladas por regras rígidas de convivência. Há também o humor que transparece na personalidade do Dr. Aziz, o absurdo tragicômico em muitas das declarações ultrajantes que certos personagens fazem, bem como nos mal-entendidos interculturais que surgem. Como este romance é parcialmente baseado no tempo em que o autor viveu na Índia, tenho certeza de que ele ouviu muitas pessoas do seu convívio social fazendo pronunciamentos semelhantes aos personagens britânicos desse romance. Foi magnífico a maneira com que o autor se utilizou dos violentos mal-entendidos interculturais que estouraram a crise que permeou toda a história da metade para o seu final, bastante agridoce, emergindo uma crise que trouxe à tona todo o conflito latente causado pelo insustentável sistema colonial existente. ​A acusação e a prisão do Dr. Aziz são verdadeiramente chocantes. Mas também é perfeitamente compreensível que tal incidente ocorra quando há tanta tensão intercultural provocada por um desequilíbrio de poder. Tal pressão levaria à paranoia e aos conflitos onde pessoas oprimidas são ainda mais vitimadas. Os habitantes coloniais brancos racistas aproveitaram essa acusação como uma desculpa para expressar a raiva e a frustração que têm contra os indianos, foi milimetricamente bem desenvolvida pelo autor, porque, sobretudo, enfatiza o sentimento de que a Índia deve se tornar uma nação independente. Outro ‘golpe de mestre’ na narração utilizado pelo autor é qual é o verdadeiro sentido de ‘mistério’ dentro dessa obra. O mistério da história não é se o Dr. Aziz é culpado ou não, porque sempre fica claro que ele é inocente. O verdadeiro mistério é por que relações honestas de amizades verdadeiras entre pessoas dessas duas nações diferentes são impossíveis dentro desse contexto colonizador-colonizado. A resposta que Forster pareceu-me apresentar é que divisões mais amplas não existem necessariamente devido ao racismo (embora, certamente, haja alguns personagens extremamente racistas neste livro), mas sim por causa de conflitos econômicos, políticos e sociais causados ​​pelo sistema colonial. ​ É claro, Bookstan’s, que não há uma resposta única, mas essa foi uma das quais, diria acidentalmente, vieram à minha mente no decorrer da leitura, porque a grande literatura é atemporal em contraste com o mundo real que não muda tão rápido. Perceberam? Essa obra foi publicada em 1924. Estamos atualmente em 2024. Analisem quantas coisas mudaram para melhor de lá para cá com relação as tensões raciais, conflitos religiosos e colonialismo? ​É um romance sofisticado que fala não só sobre o colonialismo, embora considero uma obra-prima de romance anticolonial, mas também sobre os esforços dos estrangeiros para mudar os habitantes locais, o seu conhecimento e a raiva reacionária (e justificada) dos colonizados contra os seus colonizadores. ​A forma como o Ocidente sempre se coloca como um sujeito exemplar do mundo todo e sua atitude de sabe-tudo que menospreza todas as outras culturas, crenças, conhecimentos e emoções para além de suas vivências e tenta tornar tudo e todos semelhante a si mesmo é soberbamente brilhante e bem escrito pelas mãos habilidosas de Forster. 🇮🇳🪷☕️📖🇬🇧✊🏾🕰⌛️

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