Antonio Conselheiro e Canudos: revisão histórica (Brasiliana 355) - Ataliba Nogueira

    não informado

    Companhia Editora Nacional
    1978
    226 páginas
    7h 32m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    A obra manuscrita de Antonio Conselheiro e que pertenceu a Euclides da Cunha - segunda edição (1978) - acrescida de cartas e apêndice sobre a economia na vida dos canudenses. O documento foi apresentado por Ataliba Nogueira ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que publicou a primeira edição em 1974. O interesse despertado na imprensa, logo que se divulgou a existência do códice, foi confirmado pelo público. Esgotou-se rapidamente a primeira edição. Fiel a seu compromisso de proporcionar meios de "melhor conhecer o Brasil", a coleção "Brasiliana" apresentou a segunda edição, devidamente ampliada, como convém.

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    R .24/07/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Já lí duas vezes "Os sertões" e na segunda leitura passei a questionar se os relatos de Euclides da Cunha correspondem a toda a verdade. Dúvida surgida não por conhecer minuciosamente a história e contexto, nada disso, mas instigado pela leitura de outra obra do autor, "À margem da História", sobre a Amazônia. Lá tive um choque nas descrições alienadas que o autor faz no início sobre a geografia. Escrevi sobre isso num grupo de leitores e a maioria disse que ele estava apenas retratando a visão de época. Isso não me convenceu, a ciência tinha avanços e concluí que não era contexto científico sendo escrito, mas as impressões de um jornalista que escrevia como cientista naturalista que não era. Então concluí, se houve relapsos clichês ignorantes no livro sobre a Amazônia (que conheço de vivência), será que nas percepções sobre os sertões alguém mais familiarizado não identificaria equívocos... Dito isso, aí entra a importância desse livro, tratado como códice histórico, por ser manuscrito recolhido por um médico dos pertences do Antonio Conselheiro na exumação do corpo. Era seu caderno de anotações, que chegou ao Euclides tempos depois de sua obra-prima e para a sociedade brasileira apenas em 1973, quando saiu a primeira edição. Em termos gerais, tem quatro partes, centradas no pensamento religioso e sociológico, o suficiente para resignificações. A mais importante é que o sertanejo não se resumia ao que Euclides registrou, "um forte", era também letrado, com proposições revolucionárias para a injustiça que havia, através do posicionamento crente em Deus e de união fraternal. Sem esse papo de fanáticos (para o Conselheiro e para o povo). Isso vendeu os jornais e nisso se apoiou o governo para sua selvageria. O concenso no livro é de que as injustiças sofridas reuniram o povo em torno do beato e, na agressão que sofreram, tinham o legítimo direito de defesa. Voltando ao Euclides, existem alguns exageros, como a ènfase a adesão messiânica em torno do beato e até minimização das intervenções militares, que atiraram até mesmo a esmo. Outro aspecto é a tendência a romantização do messianismo, como na famosa passagem em que os seratanejos iam pra batalha como numa espécie de procissão, com armas essencialmente velhas. Assim, fica uma observação sobre o clássico pré-modernista, de impressões de alguém que não era especialista em muitas áreas que relatou e concluiu. Vamos aos tais escritos do Antonio Conselheiro, diga-se de passagem, em letra muito bonita... A primeira parte são divagações sobre Maria, exaltando seu sofrimento, expresso em vários detalhes bíblicos que fez questão de destacar e dissertar. O sofrimento por ser escolhida "mãe de Deus" (responsabilidade), fuga para o Egito, morte das crianças, perseguição, flagelação, crucificação de Jesus, etc e tal. É tipo um livro a parte só sobre os choros de Maria, não vou entrar em questões teológicas, mas vemos aí uma identificaçâo com mães e filhos sofredores sertão afora para uma resposta de fé em Deus ante as injusriças sofridas. E Euclides falou sobre jagunços e criminosos em torno do Conselheiro, quando havia uma busca de sobrevivência pacífica e resoluta na fé. Tem até frases como felicidade correlacionada à aceitação da vontade sempre de Deus... A segunda parte disserta sobre os 10 mandamentos, de maneira prática, dando a sensação de um código civil, da vivência na sociedade. O beato escrevia com brilhantismo citando figuras bíblicas, históricas e literárias. Exemplo na citação de Eneida de Virgílio num contexto sobre honrar os pais, ao citar Eneias e o pai. Rapaz, o cara era bem culto... A terceira e quarta parte são parecidas, com citações da Bíblia em entusiasmo à fé, como carregar a cruz e seguir Jesus. Vou deixar em registro, da quarta parte, alguns posicionamentos do líder de Canudos: a exaltação a igreja construída (tratada como dádiva e, evidentemente, centro do governo) e a rejeição ao governo republicano em favor do monárquico (algo que fora demonizado na repercusão, o que calcou mais as injustiças do governo em reposta). Sobre esse último ponto, a adesão a monarquia era algo compreensível naquela sociedade religiosa, afinal, a constituição monárquica instituiu o catolicismo romano como religião oficial, enquanto a republicana tornou o país laico. Antonio Conselheiro disserta consequências que não concordava como as uniões matrimoniais sem enlace na igreja e civil. Vemos aí uma adesão a questão religiosa, não por politicagem em si... O livro tem mais descobertas curiosas para quem desejar conhecer. Findo a resenha nisso.

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