As primas [ebook] -

    Aurora Venturini

    Fósforo
    2022
    178 páginas
    5h 56m
    ISBN-10: B0BK5JPYJB
    Português Brasileiro

    Neste romance de formação, definido por Alan Pauls como ‘a meio caminho entre a autobiografia delirante e a etnografia íntima’, Aurora Venturini recria o território de sua infância na La Plata dos anos 1940 e, numa mescla desconcertante entre o trágico e o cômico, constrói o retrato de mulheres abandonadas que, para além da pobreza, são obrigadas a lidar com deficiências físicas, mentais e imaginárias. Enquanto frequenta ‘institutos para limitados’, em casa, a jovem Yuna cresce mergulhada no cotidiano precário de sua mãe ‘professorinha mixuruca e olhe lá’, no de suas primas Petra e Carina, também portadoras de deficiências, e de seus tios e tias, todos às voltas com os cuidados da irmã Betina, infantilizada para sempre em uma cadeira de rodas. Quando conhece o professor José Camaleón, entusiasta do seu talento para a pintura, Yuna vislumbra a possibilidade de escapar do que o destino parece ter lhe reservado. A cada palavra descoberta no dicionário e a cada nova tela pintada, ela acredita superar seu mundo de imperfeições, bem como o lar da ‘família estranha’ onde cresceu. Esse viver áspero, repleto de histórias de estupro, aborto, prostituição e assassinatos, assombra as figuras observadas por Yuna e torna-se tema de sua arte, que garante melhorias materiais para a família e a esperança de se redimir da estranheza que as singulariza. Mas, se Yuna responde à opressão do mundo com a pintura, Petra se vale de toda sorte de ardil para sobreviver e vingar os seus. Com uma escrita definida por Mariana Enriquez em prefácio ao romance como radical, excêntrica, deformada e lúdica, Aurora Venturini estreou oficialmente na literatura latino-americana com As primas aos 85 anos, após uma vida repleta de momentos tão insólitos quanto curiosos - adjetivos que, aliás, também se aplicam à sua escrita. Com a voz inconfundível de Yuna, bem como sua mirada a um tempo cândida e brutal, perspicaz e ensimesmada, Venturini arrebatou os leitores argentinos para em seguida conquistar o mundo, lembrando-nos de que não há convenção literária que não mereça ser posta em xeque.

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    Bookster Pedro Pacifico22/08/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    As primas, de Aurora Venturini

    Extraordinário e peculiar. Dois adjetivos para descrever a leitura de “As primas”, um romance argentino que entrou para a lista das melhores leituras dos últimos tempos. A autora publicou a obra com mais de 80 anos, quando ganhou notoriedade pela sua escrita. Aliás, a vida de Aurora Venturini é bem excêntrica e curiosa e, conforme revelado em algumas entrevistas, esta obra conteria traços autobiográficos. Por fim, um dos pontos altos é a escrita de Venturini. Um humor ácido e irônico, sem filtros e com alta capacidade de incomodar um leitor que não separe o que seria uma “opinião” de uma autora e a construção de seu personagem. E como disse a tradutora da obra, @holamarianasanchez, na conversa que tive com ela para o clube do livro, a literatura tem como um dos seus objetivos justamente causar incômodos no leitor. Um livraço! Nota 10/10 Post https://www.instagram.com/p/DL8WesYx9VM/ O leitor acompanha Yuna, uma jovem que nasceu em uma casa conturbada. Como acompanhamos os seus pensamentos, ela não precisa esconder o que vem à cabeça… não há filtros na hora de analisar o ambiente e as pessoas a sua volta. Yuna tem uma relação de pouco afeto com a mãe, uma professora que não acredita nos talentos da filha, e sente uma certa raiva de sua irmã, Betina, que é uma pessoa com deficiência. Mas o rol de personagens mulheres que povoam a narrativa é muito mais extenso: avó, tias, primas… cada um com suas esquisitices e chatices, na visão de Yuna. Os homens, por sua vez, têm o triste - mas não surpreendente - hábito de abandonar, deixar tudo para trás. Esse ambiente caótico ganha uma possibilidade de saída quando a protagonista conhece o professor Camaleón, que acredita no seu potencial para a pintura. Seus quadros são a sua forma de comunicar todos os fantasmas que habitam sua mente e isso a jovem faz com muita habilidade. Yuna é daquelas personagens tão bem construídas que deixam saudades no leitor. A gente se envolve e acompanha o seu amadurecimento ao longo das páginas. O contraste entre a Yuna do início e do final da obra é emocionante, tanto em relação à linguagem, como ao seu comportamento no ambiente conturbado em que cresceu. O papel da arte também é um aspecto que torna a leitura ainda mais interessante.

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