Dirigia-se diretamente para o jardim rebaixado, as labaredas lambendo a cruz germânica na fuselagem - como se algo nos céus estivesse determinado a impedir que o garoto passasse de um mundo a outro. Mas ele já havia feito sua escolha. Não podia hesitar. Esgueirou-se pelo buraco do muro, na escuridão, enquanto o mundo que deixara atrás de si transformava-se em um inferno.
Quando eu vi sobre o lançamento de O Livro das Coisas Perdidas e li sua sinopse, automaticamente me interessei por ele. Apesar das ótimas críticas a respeito, eu não fazia ideia da grandiosidade desse livro e o quanto se tornaria especial para mim. As minhas expectativas foram superadas de todas formas possíveis. Ainda estou saboreando a sensação maravilhosa que essa obra me proporcionou.
Aos 12 anos de idade, David sofre com a morte recente da mãe. Além da dor que é obrigado a enfrentar, ele se sente mais sozinho do que nunca. É nessa ocasião que David encontra conforto e companhia em seu novo quarto repleto de livros. Logo eles começam a sussurrar e conversar com o garoto, e a partir daí, a barreira que separa a realidade da imaginação torna-se tão frágil e tênue que eles acabam se mesclando.
A partir daí, David embarca em uma grande aventura ao adentrar em um mundo encantado, com direitos a heróis e a grandes vilões. O garoto descobrirá que muitos das histórias que ele lia e conhecia são bem diferentes e um tanto assustadoras. Preso nesse lugar, ele segue em busca de uma resposta que poderá levá-lo de volta para casa e para isso terá que encontrar um misterioso rei que tem em poder um livro muito especial que guarda diversos segredos.
A história escrita por John Connolly me fez viajar pelo túnel do tempo, pois me levou a minha infância e me fez lembrar os livros que eu lia naquela época. Nem preciso dizer o quanto me fez sentir demasiadamente saudosista, sem contar que me causou o mesmo impacto quando eu li A História sem Fim. É tão fabuloso e mágico quanto o outro.
A narração em 3ª pessoa é tão primorosa e poética, que é capaz de deslumbrar até mesmo os leitores mais exigentes. Os detalhes são ricos e fascinantes e os cenários são de encher os olhos. Não me lembro da última vez que a escrita de um autor me conquistou dessa maneira. É claramente perceptível a dedicação que foi depositada nessa obra.
Eu me apaixonei pela forma que Connolly conduziu a história, pois ele deu uma roupagem nova a alguns contos de fadas bem famosos. Na verdade, para quem conhece as histórias originais dos Irmãos Grimm sabe que elas possuem detalhes bem sórdidos. Aqui o autor aproveitou disso, para realçar ainda mais a crueldade contida nelas e o resultado é tão macabro quanto.
Os personagens contidos em O Livro das Coisas Perdidas são encantadores, assustadores e enigmáticos e todos - sem exceção - são muito bem construídos. David é um garoto que beira a realidade, pois seus medos e falhas são bem explorados. Apesar dos defeitos, ele tem um bom coração e só deseja ser feliz como qualquer outra pessoa. Sua persistência e coragem são dignas de admiração. O vilão principal é totalmente esquipático e cruel, mas também é sagaz e muito sábio. É possível odiá-lo e admirá-lo ao mesmo tempo.
Ao decorrer da sua jornada, David se depara com muitos personagens interessantes. Alguns do que mais me chamaram a atenção, foram os anõezinhos, pois eles são muito engraçados e mesmo de uma forma estranha, até simpáticos. O Lenhador e Rolando - o soldado - também me conquistaram, mas o personagem que me cativou imediatamente, foi a égua Scylla, que sempre foi doce e fiel. Sem contar com aqueles que me causaram aflição e frio na espinha, mas que reconheço que sem eles, a história não teria um toque todo especial.
Sinceramente eu não sei se consegui expressar tudo o que senti ao ler esse livro. O que posso dizer é que John Connolly soube mesclar os mais diversos elementos fantásticos com toda maestria, no qual resultou um trabalho formidável. O final é repleto de sentimentos e beleza. Me emocionei muito e foi impossível conter as lágrimas. O Livro das Coisas Perdidas conquista a todos, desde os pequenos até mesmo os mais velhos. É uma obra que merece total reconhecimento. Recomendadíssimo!