Publicado em 1951, Bestiário reúne alguns dos contos mais notáveis das letras latino-americanas de todos os tempos, entre eles ''Casa tomada'' e ''Carta a uma senhorita em Paris''. Este livro é uma preciosidade. Contém os primeiros contos do jovem Cortázar, que já em 1951 se mostrava um narrador extraordinário. Para Davi Arrigucci Jr., a admirável arte do Julio Cortázar contista já está toda aqui. ''A perfeita naturalidade com que seu mundo cotidiano sofre a ruptura abrupta do fantástico vem vazada em prosa displicente na aparência, mas de implacável precisão em cada palavra'', escreve o crítico. O gosto por animais insólitos desponta onde menos se espera, caso do clássico ''Carta a uma senhorita em Paris'', em que a narradora em determinado momento passa a vomitar coelhinhos. Ou em ''Bestiário'', em que uma casa de férias é cercada por um tigre. O narrador aqui parece sempre guiado por um senso raro dos encontros fora de hora ou de lugar, descobrindo brechas insuspeitadas no cotidiano mais banal. Em ''Ônibus'', uma singela viagem na linha 168 se torna um assustador percurso pelas ruas de Buenos Aires. Em ''Casa tomada'', dois irmãos vivem sozinhos em uma grande propriedade em Buenos Aires. A rotina deles é tranquila até a casa ser invadida por algo ou alguém misterioso. Repleto de liberdade e risco, um livro sem igual.
Bestiário [ebook] -
Julio Cortázar
Um livro que vomita coelhinhos
Em respeito às estudiosas dos ditos “realismo maravilhoso”, “realismo fantástico”, “fantástico" e afins, eu não vou tentar enquadrar o argentino Cortázar em uma dessas caixinhas. Minha memória sempre me trai, sobretudo porque faz tempo que estudei as diferenciações desses conceitos. Sobre "Bestiário" (1951), limito-me então a tentar descrever, sem conceituar, aquilo que esse conjunto de contos pode nos causar. Durante a leitura, ficamos rapidamente envolvidas no conforto das cenas cotidianas privilegiadas pelo autor (o habitar de uma casa no fim do dia, uma viagem de ônibus, uma carta que traz notícias). Contudo, a questão é que nunca encontramos paz nessas situações, pois há sempre um elemento fantástico/sobrenatural/paranormal que nos tira o sossego. Daí que percebemos a genialidade da escrita de Cortázar: a onipresença do incômodo, do insólito, não descarateriza/invalida a familiaridade que a narrativa nos traz, como o que acontece em outras obras latino-americanas dessa vertente, mas aqui com uma dose maior de suspense a depender do conto. Portanto, neste livro, ou abraçamos o extraordinário como parte da paisagem ou simplesmente não seguimos. E se o abraçamos, o mérito é todo de Cortázar. Lendo e relendo “Bestiário”, eu sempre me convenço de que faz sentido vomitar coelhinhos, criar "mancúspias" ou se habituar ao tigre que passeia tranquilamente pelos cômodos da casa. Lendo e relendo “Bestiário”, eu perco o fôlego com a insanidade dos clássicos contos “Casa tomada” e “Ônibus”, mesmo encarando-os como narrativas que poderiam ter sido protagonizadas por mim num dia qualquer (mesmo sabendo que na verdade isso seria impossível, mas que, quem sabe, sei lá, vai saber, já nem sei de mais nada…). Como eu já disse aqui no Skoob, entendo quem vê em Cortázar certa “repetição de fórmulas”, pois há mesmo aspectos e estratégias que se repetem. A questão é que isso nunca me incomodou, mas ao contrário, me seduz. Me agrada a presença desse “inesperado no esperado” de quando leio seus textos. E, além disso, há contos como “Distante” e “As portas do céu” que escapam ao lugar-comum do fantástico ao tocarem temas tão intensamente humanos como os traumas deixados pela violência física ou o processo de luto pela pessoa amada. Trata-se de um breve livro de contos que é, na minha opinião, uma boa introdução à literatura de Cortázar. Recomendo “Bestiário” com frequência, para muita gente. Não gosto de todos os contos da obra, mas gosto exageradamente de alguns. Quem quiser apenas sentir o clima do livro, pode ler avulsamente, e bem rapidinho, “Casa tomada” ou “Ônibus”, na internet mesmo (sim, esses dois contos são inesquecíveis, por isso a minha insistência neles!). Mas entenda: é preciso ir de peito aberto. É um livro que vomita coelhinhos, não o censure! Obs.: se você já leu “Bestiário" e gostou, sugiro fortemente “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo. Se você aceitou de bom grado a casa tomada, o tigre e tudo mais, não terá problemas em encarar uma novela na qual não se percebe facilmente quem é vivo e quem é morto. Também reli esse livro recentemente e, tal como na releitura de “Bestiário”, celebrei mais uma vez essa fartura latino-americana no que diz respeito ao “fantástico" e ao "extraordinário" em seus sentidos mais amplos.
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