Invenção do cotidiano Vol. 2 - Morar, cozinhar

    Pierre Mayol,Michel de Certeau,Luce Giard

    Vozes
    2025
    376 páginas
    12h 32m
    ISBN-13: 9788532616692
    Português Brasileiro

    Este livro é o segundo volume da obra "A invenção do cotidiano". Agora, o foco recai sobre as “micro-histórias” que atravessam a esfera privada, como a cozinha e as artes da alimentação, até a esfera pública, como a prática do bairro e o espaço da moradia. Entrevistas, especialmente com mulheres, revelam trajetórias individuais, unindo hábitos, coações e astúcias criativas moldadas pelas circunstâncias. Juntos, os dois volumes destacam a “ciência prática do singular”, admirando com respeito e ternura a inventividade das pessoas comuns, que transformam os espaços público e privado em “lugares de vida possível”.

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    Joseilton de Lima Correia06/10/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Pensamento profundo e bem articulado! Gênial!

    “A invenção do Cotidiano” é um livro pioneiro nesse exercício de desvendar as práticas culturais contemporâneas, vistas aí, não mais do ângulo elitista da razão técnica e produtivista, mas pelo lado mais fraco da produção cultural: o da recepção anônima, da cultura ordinária, da criatividade das pessoas comuns. Para além de certa vertigem populista, por aí já se vê que estamos diante de um livro difícil que não se contenta em definir, ingenuamente, o popular através do povo e/ou vice-versa. Profundamente insatisfeito com as teorias sociais, que pintam o quadro de uma sociedade estruturada em papéis abstratos e estereótipos, Certeau procura esboçar uma teoria das práticas cotidianas e identificar uma espécie de lógica operatória nas culturas populares. Lógica do avesso e da teimosia, fundada quase que apenas no real, pois recusa a escrita como espaço da dominação e do controle; lógica do informal, porque utiliza suas táticas conforme as estratégias dos outros; lógica do instável, porque, sem qualquer ponto de ancoragem emocional busca, afinal, a própria sobrevivência. Lógica que é muito mais uma "arte de fazer", pois as experiências do homem ordinário não se deixam aprisionar pela linguagem escrita: quer se trate da voz do selvagem, dos primeiros relatos etnográficos, do ato de assistir TV ou de enveredar pelas inesperadas ruas das grandes cidades. Certeau quer buscar uma lógica cujos modelos remontam talvez às astúcias multimilenares dos peixes disfarçados ou dos insetos camuflados e que, em todo caso, é ocultada por uma racionalidade hoje dominante no Ocidente. Mas encontra "artes de fazer" em todas as sociedades: cita episódios relacionados às gestas de Frei Damião, no Brasil; episódios de "Robinson Crusoé" ou, até, do impagável Carlitos, de Chaplin. Com seu bigodinho e andar de pato, Carlitos tece a rede de uma antidisciplina: rejeita destinos prévios e trajetórias previsíveis, e resiste, com a leveza do lúdico, a toda situação opressiva. Na improvisação sem limites, Carlitos rejeita toda mecanização, procura sempre contornar a dificuldade em vez de resolvê-la e, nesta sua não-aderência às coisas e aos acontecimentos, parece revelar-nos que os objetos de nossa cultura se inscrevem no vazio, não têm qualquer futuro, a não ser fora do sentido que a sociedade lhes atribui. Certeau faz verdadeiros malabarismos teóricos para se equilibrar entre Freud, Foucault e Bourdieu, mas parece encontrar inspiração nos inquietantes fragmentos de Wittgenstein. Talvez porque o historiador saiba, como o "homem ordinário" de Wittgenstein, que cada página em branco é um lugar desenfeitiçado das ambiguidades do mundo, e que as narrativas do cotidiano estão mais próximas da intensidade da vida real.

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