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    Carmen - Texto Integral

    Prosper Mérimée

    FTD
    1999
    93 páginas
    3h 6m
    ISBN-10: 8532200036
    Português Brasileiro
    3.7
    69 avaliações
    Leram136Lendo1Querem28Relendo1Abandonos2Resenhas8
    Favoritos6Desejados28Avaliaram69

    Carmen, a ciganinha, não nasceu para a vida doméstica, para o cotidiano e para viver num único lugar. Mulher do mundo, seu código de valores diverge radicalmente do código dos homens comuns. José, jovem basco, aspirava a uma vida simples, sem grandes aventuras. Carmen detém o poder na trama amorosa e José, enfraquecido pela paixão, viverá para tentar dominar a ciganinha. O que reserva o futuro par Carmen e José?

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    Resenhas (8)Ver mais
    Manoel Frederico picture
    Manoel Frederico16/04/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O Romantismo exagerado masculino x o Realismo empoderado feminino

    “Carmen”, conto do escritor francês Prosper Mérimée, publicado originalmente em 1845. A história foi adaptada, nas décadas seguintes, em vários formatos, sendo a ópera de Georges Bizes a mais famosa delas. A história tem como narrador um arqueólogo, em viagem pela Espanha. Certo dia, ele conhece a bela cigana Carmen, que se oferece para ler suas mãos, distraindo-o. Seu amante e comparsa, Dom José, rouba o relógio do arqueólogo. Posteriormente, o relógio é reavido quando, preso pelo furto e condenado à morte por todos os seus crimes somados, Dom José resolve contar sua história de amor e decadência. Dom José é um soldado, feliz em sua condição. Sua vida muda completamente quando conhece Carmen, uma bela cigana, por quem se apaixona perdidamente. Mesmo alertado por ela, de que é uma mulher livre, para quem o casamento não é um objetivo, Dom José se deixa arrastar pela paixão, se alinha ao grupo de ciganos, passa a viver de crimes, num caminho rumo à tragédia. Mérimée permite, em sua obra, um contraponto interessante entre o Romantismo e o Realismo. Dom José ama Carmen de forma exagerada, idealizada, doentia. Por sua vez, a cigana deixa bem clara sua posição desde o princípio expondo, de certa forma, suas qualidades e seus defeitos. É sincera, ainda que o texto mostre uma certa dissimulação. O indivíduo romântico, na Literatura, se nos atentarmos aos mais diferentes personagens, com essas características, que os livros já nos apresentaram, tem como traço marcante o egoísmo. É o outro o culpado de seu drama, de seu desespero. Tal indivíduo também é um fraco que, incapaz de ter o objeto de sua adoração, se anula, enlouquece. A idealização o impede de enxergar a realidade, se adaptar à ela, seguir adiante. Há um desejo de raiva, destrutivo, facilmente culminando na violência. Mérimée utiliza de Dom José como um exemplo de tudo isso, de como o amor exagerado (ou o Romantismo) pode ser destrutivo para o indivíduo. Importante deixar claro que o Realismo em si só começaria a se popularizar um pouco mais tarde, a partir de 1850, na França. Logo, essa dualidade, essa divergência de movimentos, muito provavelmente não era o foco de Mérimée. É bem mais provável que ele quisesse apenas fazer uma análise mais simplista, focando apenas nos perigos do amor exagerado. Há ainda um ponto a ser destacado na obra: o protagonismo feminino. Carmen é uma mulher de pensamento forte, ciente do que quer, conhecedora de sua própria natureza e de seu poder (seus argumentos e sua sensualidade). Ela não se subordina, se não quiser. Não se coloca como um objeto, que pode ser apossado, guardado, adquirido. Carmen não pode ser controlada pois Carmen é livre, em suas contradições, em seus sentimentos. Daí a incompatibilidade com o idealismo romântico. Carmen é humana e o Romantismo desumaniza o outro, ao objetivar a pessoa. Mais do que chamaríamos, em nossos dias, de “exemplo de empoderamento feminino”, Carmen é a representatividade da natureza humana: complexa, confusa, fascinante. Um parêntese, como mera curiosidade: olhando um pouco para a literatura brasileira, a leitura de “Carmen” me fez lembrar de duas obras fundamentais, nas quais essa dualidade também se apresenta, até com mais qualidade eu diria. Uma delas é “A Carne”, romance pioneiro do Realismo brasileiro, do escritor mineiro Júlio Ribeiro. A outra é “Dom Casmurro”, mais importante romance do carioca Machado de Assis, maior escritor do Brasil. Ambos os livros essenciais. Por fim, em seu conto, por meio do narrador (uma representação do próprio autor, também um arqueólogo), Mérimée nos oferece a possibilidade de conhecer melhor a cultura cigana, ainda que de uma maneira um tanto estigmatizada. De leitura fluída e dinâmica, “Carmen” é uma leitura rápida, interessante, que permite uma análise do sempre instigante conflito entre Romantismo e Realismo, que jamais será tão complexo e fascinante como a própria natureza feminina, representada pela protagonista do livro.

    2 curtidas

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    3.7 / 69
    • 5 estrelas28%
    • 4 estrelas35%
    • 3 estrelas26%
    • 2 estrelas10%
    • 1 estrelas1%
    Prosper Mérimée profile picture

    Prosper Mérimée

    Prosper Mérimée (1803-1870), escritor francês, estreou na literatura com <i>O teatro de Clara Gazul</i> (1825), um sucesso imediato, mas foi nas novelas e contos que produziu suas maiores obras-primas. Homem de interesses e conhecimentos múltiplos, poliglota, foi também arqueólogo, crítico de arte, historiador, filólogo e senador. Morreu em Cannes, França e ali foi sepultado no <i>Cimetière du Grand Jas</i>. Também aprendeu latim, grego, italiano, espanhol, inglês, e russo. Foi o primeiro a traduzir obras literárias russas para o francês. Ocupou diversos cargos públicos, em todos eles destacando-se pelo bom desempenho de seus deveres. Foi nomeado (1830) Inspetor dos Monumentos Históricos, revelando-se um arqueólogo nato, combinando suas habilidades lingüísticas, uma notável avaliação histórica e sincero devotamento às artes, desenho e arquitetura. Neste mister, seus relatórios vieram muitas vezes a merecer publicação, e destaque em sua produção, ao largo da literária. A ele se deve, em boa parte, a conservação do rico legado cultural, do qual tanto se orgulha o povo francês. Neste mesmo ano conheceu e auxiliou a Condessa de Montijo, espanhola. Quando a filha dela tornou-se a Imperatriz Eugénie, da França, em 1853, Mérimée foi honrado com o cargo de senador. Prosper Mérimée morreu em Cannes, França e ali foi sepultado no Cimetière du Grand Jas.

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    Prosper Mérimée