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    Os detetives selvagens -

    Roberto Bolaño

    Companhia das Letras
    2006
    624 páginas
    20h 48m
    ISBN-10: 8535908749
    Português Brasileiro
    4.4
    794 avaliações
    Leram1134Lendo172Querem2580Relendo2Abandonos79Resenhas77
    Favoritos225Desejados2580Avaliaram794

    Os personagens principais deste livro são os amigos Ulises Lima e Arturo Belano, dois poetas que decidem investigar o que teria acontecido com Cesárea Tinajero, uma misteriosa e desaparecida poeta da vanguarda mexicana. Mas embora a história gire em torno destes dois "detetives selvagens", o verdadeiro detetive do romance é o leitor. Os protagonistas de Os detetives selvagens são Arturo Belano e Ulises Lima, dois poetas "marginais", mas em poucos trechos do livro são eles que conduzem a ação. O leitor sabe deles quase sempre através do olhar de outros personagens, numa investigação típica de romance policial. Por sua vez, Belano e Lima também estão numa busca detetivesca, atrás dos rastros de uma misteriosa poeta vanguardista que desapareceu no deserto de Sonora, no norte do México. Na primeira parte, escrita em forma de diário, acompanhamos as andanças dos dois e seu grupo de poetas adeptos do "realismo visceral" em muitas conversas de bar, discussões intelectuais, encontros e desencontros sexuais, puxadas de fumo, num clima típico dos jovens daquela década. A segunda parte é composta por dezenas de "depoimentos" que reconstituem a trajetória de Arturo Belano e Ulises Lima durante os vinte anos que sucedem o diário. Cabe ao leitor-detetive fazer esta reconstituição, a partir dos fiapos que vai colhendo dos "depoentes", alguns dos quais contam longas histórias (sempre muito interessantes) que pouco ou nada têm a ver diretamente com os dois enigmáticos protagonistas. Bolaño exercita aqui sua capacidade de dar a palavra a múltiplas e diferentes vozes e de fazer paródias hilariantes. A terceira parte retoma o diário, relata a busca pela poeta Cesárea Tinajero e explica, de certa forma, as duas décadas de errância dos protagonistas. Na verdade, com muito humor, ironia corrosiva e algum desespero, Bolaño faz o balanço de uma geração intelectual que era demasiado jovem quando havia projetos de transformação radical da América Latina e do mundo e que, ao chegar à idade de participar, descobriu que só restavam escombros e cadáveres.

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    Resenhas (77)Ver mais
    Ana Sá picture
    Ana Sá17/04/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Uma literatura latino-americana em fuga de si, em busca de si

    A narrativa policial de Roberto Bolaño (que não é o Chaves!) é dividida em três partes: na primeira e na última acompanhamos o diário pessoal do jovem universitário Garcia Madero, um recém-agregado ao Real-Visceralismo, movimento literário marginal fundado por Ulises Lima e Arturo Belano; na segunda, as leitoras são convidadas a se tornarem elas as detetives do romance, visto que somos surpreendidas por diversos depoimentos sobre Lima e Belano, sendo grande parte deles fornecidos por personagens já apresentadas na primeira parte, mas também por personagens que protagonizam outras obras de Bolaño (aliás, essa "repetição" de personagens é um marco da escrita do autor e eu particularmente gosto muito disso!). A referência sócio-temporal do livro é o México da década de 1970, sendo que os depoimentos/ as entrevistas da segunda parte se estendem até a década de 1990. O humor e a ironia dão o tom em grande parte do livro, e o restante fica por conta da metaliteratura: personagens-escritores, escritores-personagens, personagens-leitores... E aí está um dos elementos que faz Bolaño ser tão aclamado: no geral, a literatura não é reduzida a sinônimo de erudição ou elitismo; aqui, escritor e prostituta caminham (ou fogem?) lado a lado, por exemplo. A literatura referenciada em "Os Detetives Selvagens" é ora marginal ora caricata, mas sempre a literatura dos sebos, dos livros usados, dos livros roubados, e não das edições de luxo. Eu diria que "Os Detetives Selvagens" é como que um palimpsesto de buscas literárias: Garcia Madero busca seu lugar num movimento literário que nem ele sabe ao certo se existe, e é por isso que ele procura incessantemente por Lima e Belano, enquanto estes buscam por indícios da misteriosa poeta mexicana Cesárea Tinajero. O grande enigma do romance é, afinal, o lugar que a literatura latino-americana ocupa nesse fluxo "visceral". Pra não dizer que não falei das dores, eu confesso que considero algumas passagens do livro enfadonhas. Ainda assim, essa foi uma releitura! E a minha principal motivação é o meu apreço pelo estilo de escrita de Bolaño, mas sobretudo, neste caso, pelo final do romance. Eu adoro o desfecho de "Os Detetives Selvagens", e com essa frase eu encerro a resenha. Daqui pra frente, eu só teria spoiler pra entregar, e longe de mim facilitar a investigação de vocês! ;) Obs.: se você ficou curiosa para conhecer esse escritor que é o queridinho de pessoas como Susan Sontag e Patti Smith, mas está sem tempo ou com preguiça de encarar tantas páginas, eu sugiro o livro (bem curtinho!!) "Amuleto". Ele não revela toda a genialidade do autor, mas nos aproxima do seu "tom" literário; é um bom cartão de visitas, na minha opinião. Já nos contos, eu acho que Bolaño deixa a desejar... Os poemas, por sua vez, têm algo de interessante, mas igual ao que acontece com a poesia de Borges: é preciso separar o joio do trigo! Sei lá, pra mim, Bolaño nasceu é pra ser romancista, e que romancista!

    70 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.4 / 794
    • 5 estrelas57%
    • 4 estrelas27%
    • 3 estrelas11%
    • 2 estrelas4%
    • 1 estrelas1%
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    Roberto Bolaño Ávalos

    Bolaño cresceu no México e voltou ao Chile natal no começo dos anos 70, entusiasmado com o governo do presidente socialista Salvador Allende. Derrubado o regime, em 1973, o jovem trotskista foi perseguido e passou alguns dias na prisão. Depois, partiu para a Espanha e, na Costa Brava catalã, acabou fincando raízes. Seus livros tratam de modo original o gênero policial, mas também falam de política e drogas, além de refletir sobre a própria literatura, tendo usualmente escritores --e a si mesmo-- como personagens.

    82 Livros
    223 Seguidores
    Gran Santiago, Chile

    Roberto Bolaño Ávalos