Uma das discussões mais velhas sobre os quadrinhos é qual a sua função. Eles seriam um intrumento de mera diversão ou poderiam servir para fins pedágógicos/educacionais? A resposta para mim sempre foi muito clara: os quadrinhos possuem uma infinidade de possibilidades, que passam pela diversão e seus super-heróis e tirinhas cômicas, por histórias biográficas, pela reportagem e pela educação.
Logicomix aglutina muitas dessas diferentes características: história, biografia e conceitos de lógica/matemática e filosofia! Trata-se da história de Bertrand Russel, um notável matemático/lógico e pacifista. Ela é contada por um grupo de amigos que pretende tornar a história da lógica possível em quadrinhos, o que é um projeto bem ambicioso. O bacana é que os autores utilizam o artifício de se colocar na história. E essa autorreferência facilita muito na compreensão de alguns conceitos, pois em alguns momentos-chave da história, os autores interrompem e discutem sobre os assuntos abordados.
Os autores utilizam como base para um dia no anos de 1939, quando Russel faria uma palestra na Inglaterra sobre Lógica. Naquele dia o Reino Unido acabara de declarar guerra à Alemanha, o que as pessoas achavam absurdo, pois alegavam não ter nada a ver com a guerra contra o nazismo. Os "pacifistas", sabendo dos posicionamentos políticos de Russel, resolvem ficar na porta do auditório e convidar o pensador a cancelar a palestra e juntar-se à manifestação.
Russel acaba convencendo a todos eles entrarem na palestra, que abordaria a Lógica nas questões humanas. O que se ouviu, foi a história de Russel e sua busca desde pequeno pela lógica (principalmente relacionada à matemática no início), o que, anos depois, resultou em sua teoria (que trata principalmente de conjuntos) que revoluciou a área. Sobre elas, transcreverei (na medida do possível) uma das explicações dadas pelos autores:
Christos- "Quando algo se refere a si mesmo, há sempre o risco de surgir um paradoxo. Por exemplo, os livros autorreferentes... Como "Tristam Shandy" de Sterne, "Se um viajante numa noite de inverno", de Calvino... (Nota de rodapé: Logicomix, é claro, também é autorreferente) Suponhamos que vocês façam um catálogo completo de todos os livros que NÃO SÃO autorreferentes."
Annie- "Seria um catálogo desde tamanho..."
Christos- "Claro! Mas a Questão é... Ele conteria a si mesmo?"
pausa para reflexão...
Annie- "ENTENDI! Quando contiver, não conterá! E quando NÃO contiver, conterá!"
A partir do paradóxo de Russel, todos os outros pensadores lógicos e matemáticos tiveram de basear seus estudos. A teoria de Russel revolucionou o pensamento matemático anterior e criou novos fundamentos. Logicomix trata justamente dessa evolução do pensamento matemático, que, no futuro, chegaria à invenção do computador.
Além de contar a historia da evolução do pensamento lógico/matemático, Russel também conta sua vida pessoal e o seu eterno embate contra a loucura. Aliás, essa ambiguidade lógicaXloucura é bastante explorada no livro, mostrando como muitos dos principais pensadores da área sofreram, de uma forma maior ou menor de excentricidade. Alguns chegaram a anlouquecer. O próprio Russel, após criar seu paradoxo, ficou 10 anos com seu amigo, o também matemático Whitehead, tentando solucionar o grande problema que criou (as bases tradicionais da matemática tinham ruído).
Logicomix consegue trazer à luz coceitos complicados. É didático sem parecer, aborda temas complexos sem deixá-los com cara de aula tradicional de matemática. Imagino as maravilhas que o livro fariam se utilizado em uma sala de aula, com cometários e discussões com os professores de matemática e filosofia. Mostra que o preconceito bobo contra quadrinhos deve ser superado e que ele pode fazer maravilhas na educação.
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