Gonçalo M. Tavares é uma das figuras-chave da literatura portuguesa atual. Entusiasticamente elogiado por José Saramago por seu impressionante domínio da língua - "não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos: dá vontade de lhe bater", afirmou o prêmio Nobel em 2005 -, Tavares possui uma extensa obra, incluindo romances, teatro e poesia. O romance integra a tetralogia O Reino, dedicada ao mal, e é escrito numa prosa cuja habilidade narrativa é apenas superada pela desenvoltura com que Tavares combina ficção e investigação filosófica. O pacato funcionário Joseph Walser leva uma vida previsível, enquadrada pelos movimentos repetitivos da máquina industrial que opera. Nem mesmo a guerra é capaz de afetar a estabilidade de seu cotidiano. Entretanto, Walser tem uma paixão secreta: a enorme coleção que mantém fechada à chave, protegida até mesmo dos olhares de Margha, sua calada mulher. Pela propriedade com que trata de temas universais como o poder, a morte e o acaso, A máquina de Joseph Walser merece ser comparado a obras-primas perturbadoras como Auto-de-fé, de Elias Canetti, e O processo, de Franz Kafka.
A Máquina de Joseph Walser -
Gonçalo M. Tavares
Leitura 27 de 2021 A máquina de Joseph Walser [2004] Gonçalo M. Tavares (Portugal, 1970-) Cia. das Letras, 2010, 166 p. Segundo volume da tetralogia O reino composta por Um homem: Klaus Klamp (I), Jerusalém (III) e Aprender a rezar na era da técnica (IV) A máquina de Joseph Walser se mantém no mesmo espaço-país-cidade onde tem lugar o primeiro livro, mas, diferente daquele, começa meses antes do início da guerra. Ainda que algumas personagens de Klaus Klump sejam mencionadas, a apreciação deste romance de maneira alguma depende da leitura da primeira obra da tetralogia. Como já foi dito no post anterior, são narrativas independentes que podem ser lidas individualmente ou em qualquer ordem. Enquanto em Klaus Klump acompanhamos uma personagem envolvida com a resistência armada, Joseph Walser é aquilo que nós podemos chamar de típico isentão. Contanto que seu trabalho mecânico possa ser feito da mesma forma todos os dias e sua curiosa coleção mantida, Walser pouco se importa se o país está em guerra ou o quê reivindicam qualquer um dos lados do conflito. Casado e sem filhos, traído pela mulher e, por sua vez, também infiel, trata-se de uma criatura absolutamente cooptada pela lógica da produção, do desempenho e da alienação, até o momento crucial em que um acidente com sua máquina introduz um corte em sua ingenuidade absolutamente sensacional. Da maneira como é descrita no livro, a relação de Walser com sua máquina é espantosa de tão doentia (me lembrou a Keiko de Querida Kombini). Com o distanciamento necessário, no entanto, não é nada diferente do que vemos hoje entre algumas pessoas e seus trabalhos ou ferramentas de produção. O acidente revela que sua indiferença ao mundo, antes caracterizada como uma melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia nasce, na verdade, de um ódio dirigido a todos e a cada um dos indivíduos com quem a sua existência se cruzava. Walser deseja ser deixado em paz com sua coleção inútil, absurda, secreta, triste retrato de uma classe de pessoas para as quais o mundo não passa de um estorvo à ilusória alegria de suas pequenas engrenagens desumanizadoras. #gonçalomtavares #livros #resenha #companhiadasletras
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