No tempo das sombras - contos

    José Américo de Lima

    Melhoramentos
    1990
    144 páginas
    4h 48m
    Português Brasileiro

    O conto é um dos gêneros mais difíceis para aqueles que se dedicam ao fazer literário. Mas José Américo de Lima domina como poucos a dificuldade desse gênero. Eis aqui um contista que conhece seu ofício. No Tempo das Sombras é um caleidoscópio de situações, de tramas, de sentimentos, impossível de ser reduzido a poucas palavras. O leitor tem em mãos em verdadeiro mundo, tal a diversidade contida neste livro. E, ao mesmo tempo, pela força da linguagem, estes contos se constituem numa síntese cultural e literária ímpar. O prazer da leitura provocado por No Tempo das Sombras poucas vezes terá sido atingido com tanto vigor na literatura brasileira.

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    Wanderson19/10/2019Resenhou um livro
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    SOMBRAS ESPESSAS

    Após ler Américo de Lima, pus-me a pensar em quantos bons contistas existiram (e existem) no país e que ainda são praticamente desconhecidos. “No tempo das sombras” é um compêndio irregular, mas o autor toca a excelência em algumas narrativas e apresenta inovações linguísticas no mínimo interessantes. A orelha do livro não mente: o autor apresenta um caleidoscópio temático: a um tempo somos transportados para uma arena na Roma antiga por meio do conto “André e o leão”; a outro – “Apartheid” –, já estamos na África do Sul, logo após o regime separatista. José Américo ainda brinca com a intertextualidade ao propor, através de “Periguaci”, uma continuação para o final de “O guarani”, de José de Alencar. Nessa toada, também temos ”O discípulo de Conselheiro”, que apresenta desdobramentos após a Guerra de Canudos. É bastante perceptível em quase todos os contos uma atmosfera sombria e desesperançosa, pelo que o título da obra calha-lhe muito bem. Em alguns dos textos nota-se também uma aprendizagem sobre o humano, resvalando-se em um tipo de moral, a modo de uma fábula. A influência dos escritos bíblicos também é notória. Das epígrafes de certas narrativas à composição de outras as Escrituras fazem-se presentes. O conto “Sacrifício inútil”, texto que permite várias leituras, é um dos que representam essa faceta banhada em religiosidade: “O Grande Mestre é atormentado por dolorosa antevisão: ali está o seu pupilo, frente ao delegado. Um guarda o esbofeteia. Começa o sofrimento. – Queremos os nomes dos outros implicados e você vai confessar também que é subversivo!” (p. 7). Apesar da diversidade de cenários e temáticas, talvez o trunfo de Américo de Lima seja a linguagem, como ele bem demonstra, num estilo hibridizado, em um dos mais bem elaborados contos do livro: “Enfim, Guimarães Rosa”: “Ninguém não está livrado de caminhos resvalosos, sei de mim, e reconfirmo: viver ainda é negócio muito perigoso” (p. 25). No fim das contas, ocorre que a atmosfera claustrofóbica, as trilhas moralizantes e as veredas religiosas em que alguns dos textos se imiscuem podem até conferir-lhes uma unidade, mas acabam por empobrecer o conjunto. Além disso, certos contos resvalam num humor simplório e se tornam quase piadas. De todo modo, uma leitura que não hesitaria em indicar.

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