"Mas houve um instante em que um minuto a bordo correspondeu a sessenta e um segundos no resto da galáxia. Pouco depois, correspondeu a sessenta e dois. Depois sessenta e três.. sessenta e quatro.. o tempo da nave entre esses totais progredia pouco a pouco, mas permanentemente menos... sessenta e cinco... sessenta e seis... sessenta e sete..."
Lançado em 1970, Tau Zero é um livro de Hard Science Fiction escrito por Poul Anderson, a partir de um conto seu lançado em 1967 na revista Galaxy Science Fiction, chamado "To Outlive Eternity". “Sobreviver à eternidade”… este título já nos dá uma boa ideia sobre o conteúdo do livro.
Leonora Christine é o nome de uma nave com tripulação de 25 homens e 25 mulheres. Ela é o máximo em tecnologia que a humanidade tem a oferecer e parte rumo à Beta Virginis, uma estrela da constelação de Virgem, semelhante ao nosso Sol, com o objetivo de confirmar a existência de um planeta habitável e, caso positivo, iniciar sua colonização.
A viagem transcorre sem maiores problemas até que algo inesperado acontece: uma nebulosa não prevista na missão está na rota da nave e, dada a sua velocidade e aceleração crescentes, é impossível desviar o curso. Quando a Leonora Christine a atravessa, alguns sistemas da nave são danificados, impedindo-a de desacelerar.
À medida que a nave acelera e se aproxima da velocidade da luz, o tempo a bordo passa cada vez mais devagar em relação ao resto do universo, como consequência da relatividade e da dilatação temporal. Isso afeta cada vez mais o ânimo da tripulação, que já não espera mais voltar à Terra — que, em determinado ponto da trama, provavelmente nem existe mais.
O que eu senti lendo o livro foi que estava diante de um escritor muito habilidoso. Poul Anderson tem uma história grandiosa aqui mas que, por algum motivo (provavelmente editorial), tinha um número pequeno de páginas com que trabalhar. Explico: Anderson parece ter em mente um panorama imenso, muito maior do que estas 273 páginas poderiam comportar, com um contexto geopolítico bem traçado daquele futuro e discussões interessantes sobre o aspecto psicológico que uma missão como essa pode levantar — este livro poderia ser tranquilamente expandido para 500 ou 600 páginas.
Mas — seja lá por qual motivo — Poul teve que abrir mão de algumas questões: a geopolítica é tratada de passagem no início do livro e a parte psicológica dos personagens acaba mais contida. Por sorte, Anderson é um grande escritor e, por mais limitado que seja o espaço para tratar do pano de fundo desse mundo e de seus personagens, com poucas linhas ele consegue nos dar uma boa ideia e material suficiente para que nós, leitores, preenchamos as lacunas.
Mas Poul Anderson, antes de escritor, era um físico formado (estudou na Universidadede Minnesota) e em Tau Zero ele quis mesmo falar de física, cosmologia e astronomia; explicar conceitos do funcionamento da Leonora Christine, da dilatação do tempo, da morte e do renascimento do Cosmos - o próprio título do livro é uma referência a um conceito de física importante para a história: a medição do tempo a bordo da nave em relação ao tempo do Universo.
Acredito que este seja o livro mais Hard Science que já li, um antecessor da minha obra preferida de todos os tempos, a Trilogia dos Três Corpos, de Cixin Liu. É importante para mim fazer essa relação entre as duas obras, pois senti que Poul Anderson antecipou muito do espírito dos livros de Cixin: ambos falam de fim e recomeço do universo, usam muitos conceitos científicos como base para seus enredos e dão uma atenção especial à psicologia de seus personagens. Eu diria que é como um aluno que pega os ensinamentos de seu professor e os leva a outro nível: Anderson foi a vanguarda; Cixin Liu é o presente.
Sobre os personagens, por mais que o autor fale de alguns deles de maneira periférica, podemos dizer que há maior destaque para três: Charles Reymont, o “policial” da tripulação, a âncora da sanidade da nave, que faz uma espécie de jogo “policial mau / policial bom” com Ingrid Lindgren, a Primeira Oficial da nave. Enquanto Reymont é muitas vezes duro e inflexível com os tripulantes, Ingrid é a oficial mais condescendente, com mais empatia, digamos. Além disso, os dois formam um núcleo romântico na história, compondo um triângulo amoroso com a planetóloga Chi-Yuen, que tem uma personalidade marcante, flutuando entre a melancolia, a delicadeza e uma certa modernidade sentimental.
Um detalhe engraçado sobre Charles Reymont: por mais que o livro seja sério, Anderson trata o personagem, às vezes, como se fosse um herói dos anos 50. Não vou dar exemplos aqui, mas algumas frases o descrevem quase como um herói pulp, que desperta a paixão das personagens femininas que o admiram. Mas isso não é nem de longe o foco; foi algo que percebi em uma ou outra frase em toda a história, e achei um detalhe divertido de notar. Ameniza um pouco o tom maduro do livro, sem nunca atrapalhá-lo.
Em suma, "Tau Zero" é um livro espetacular, que só não é perfeito pelo único defeito de ser muito curto. E é também um livro de ficção científica do começo dos anos 70 que trata suas personagens femininas de maneira digna e inteligente — algo que considero, no mínimo, digno de nota.
TS:
RIVERSIDE:
- Out Of Myself (2003);
- Second Life Syndrome (2005);
- Rapid Eye Movement (2007).