Nos primórdios do Nove, as "indiazinhas saradas" já encantavam os nautas lusitanos e franceses que, depois de semanas ao mar e do cheiro podre dentro dos navios, desciam à terra dançando o vira, emborcando o vinho e cantando hinos de louvor à Iracema. Nos anos 60 e 70, nas dunas do barato, "as grandes cabeleiras serviam para nos identificar e nos disfarçar" e, às vezes, rolava um "quiproquó" da galera com os surfistas - raça pura de Ipanema. Mas o cachimbo sempre passava de mão em mão e a paz voltava. "Pelados no litoral, cada rodinha revivia rituais nativos". Já os anos 90 encontraram a praia poluída, as carrocinhas da Kibon e da Geneal deram lugar aos quiosques do calçadão. Apareceu uma galera mais nova, "mocidade independente que se reúne à noite no Baixo Gávea", e a praia recebeu uma poderosa iluminação que tornou infinito seu tempo útil. Saudoso, Chacal confessa que "a praia deixou de ser meu lá em casa há um bom tempo. Não é mais como no tempo do Sol Ipanema que já chegava e tinha minha roda". E começa a desfilar lembranças de uma época em que "era urgente ser inteligente" e ele dividia seu tempo entre "momentos em que a praia podia esperar" (passeios pela Cinemateca do MAM e o estudo no André Maurois) e o desbunde do Píer - as dunas de Gal... e de Cazuza, de Baby, de Caetano, de Waly - "a ilha da fantasia encravada na unha do dragão". Em 74, desmontaram o Píer (onde a informação proibida na mídia circulava subterrânea) e a galera foi em direção à Montenegro. Em 75, o Nove começa o seu reinado, seu destino de inventar moda. E vieram a poesia em mimeógrafos e o teatro, a Nuvem Cigana e o Asdrúbal Trouxe o Trombone, a tanga de Gabeira e o topless, o Circo Voador e o verão da lata, os churrascos na areia e o apitaço. E, embora tudo comece com sol, mar e areia em algum ponto obscuro do litoral carioca, Chacal deixa bem claro: "noves fora nada".
