“Ler Mario Benedetti é beber numa das mais belas fontes humanas de conhecimentos e sentimentos desse tipo, que é a do poeta que sabe por que afirma que “só quando transgrido alguma ordem / o futuro se torna respirável”. Ler Mario Benedetti é aprender a ver a América Latina e as suas não-liberdades atrás de nosso instante, quase infinitizando-o dentro do sonho e da realidade e da história, já que dentro desse instante o poeta também requer que seja reveladoramente enxertada a dimensão do universo. “ Moscyr Félix
Mario Benedetti foi um dos maiores poetas uruguaios e fazia parte da Geração de 45, foi autor de novelas, contos, poesia, teatro, ensaios, crônicas humorísticas, letras de canções.
Esta antologia poética e edição bilíngue de 1988, tradução de Julio Luis Gehlen é uma reunião de poemas escolhidos à porta de sensibilidade, e alguns bem famosos como “A ponte”,
“eis a ponte / para cruzá-la ou não cruzá-la / e eu vou cruzar / sem prevenções”
“Sou meu hóspede”,
“sou meu hóspede noturno / em doses mínimas / e uso a noite para despojar-me da modéstia / e outras vaidades”
“Façamos um trato”,
“companheira você sabe que pode contar comigo / não até dois ou até dez / mas sim contar comigo”
e o belíssimo “Porque Cantamos”,
“você perguntará por que cantamos
cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino”
A poesia de Mario o fez um dos latino americanos mais lidos dos últimos anos, e um autor mais que consagrado na segunda metade do século XX, além de mostrar uma escrita preocupada com as insurgências do seu tempo construindo uma “América Latina insubordinada”, também foi extremamente querido por aqueles que apreciam as emoções e sentimentos reunidos junto de boas ideias, e de sinuosas características como a sua “bondade inexplicável” descrita por Eduardo Galeano. “Mario ocupava um lugar muito maior do que ele mesmo achava”, segundo José Saramago. Antologia poética é um bonito apanhado literário de poemas que são “sistemas de cumplicidade”, sem muitas preocupações estéticas, zelos e cuidados com a palavra com um itinerário extremamente empático.