Max e os felinos (L&PM Pocket #234) -

    Moacyr Scliar

    L&PM
    2001
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-13: 9788525410481
    Português Brasileiro

    A mesma ideia e histórias diferentes. A esta edição de Max e os felinos foi acrescentada uma introdução do autor. O texto de Scliar fixa a posição intelectual do autor diante dos acontecimentos fartamente divulgados pela imprensa que são conta da confissão de Yann Martel, autor de The life of Pi (prêmio Booker de 2002), que deu origem ao filme A vida de Pi, onde o personagem Max se vê, após um naufrágio, num pequeno escaler no meio do mar juntamente com um aterrorizante jaguar. Max e os felinos foi lançado pela L&PM Editores em 1981 e, alguns milhares de exemplares e 21 anos depois, foi jogado numa polêmica internacional que acrescentou à sua vitoriosa carreira um ingrediente a mais de celebridade. Num tempo em que os livros aparecem e somem rapidamente, Max e os felinos deve sua longa vida ao fato de agradar os seus leitores, de ser uma excelente história e de ser sistematicamente indicado por professores em escolas de todo Brasil como um exemplo de narrativa instigante e de alto valor literário. E muito deste “valor literário” se deve à inesquecível imagem de um homem e uma fera em um minúsculo barco no meio do oceano.

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    Alexandre Figueiredo12/06/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Ferocidades

    Moacyr Scliar é um escritor de grandeza imensurável. Gaúcho, judeu e exímio ficcionista, ele é um clássico a ser redescoberto. Autor de romances deliciosos como “O centauro no jardim” e “A mulher que escreveu a Bíblia”, Scliar publicou em 1981 esta novela que causou um alvoroço de proporções estratosféricas apenas em 2001 quando o canadense Yann Martel lançou o seu “As aventuras de Pi”. Não. Eu não vou dissecar a polêmica rasa a respeito do livro e vou dedicar a esta discussão apenas este parágrafo. E digo o seguinte: os dois livros são completamente diferentes. Nunca li a obra de Yann Martel, mas vi algumas vezes a belíssima adaptação do sempre interessante Ang Lee (que, dizem as boas e as más línguas, é um filme muito fiel ao seu material de origem). Além disso, li, nesta edição da L&PM, os textos introdutórios do próprio Moacyr Scliar e da professora Zilá Bernd, que são extremamente elucidativos a respeito do burburinho existente entre os dois livros. Um é uma novela, o outro um romance. Um é uma metáfora, uma fábula sobre o nazismo. O outro é sobre as questões que envolvem a espiritualidade e as religiões. O que ambos têm em comum, então? A relativização do conceito de verdade, a migração para a América e, é claro, o motivo de toda a polêmica: as cenas absurdamente idênticas de um imigrante - um alemão no caso de Scliar, um indiano no caso de Martel - que vai lutar pela sobrevivência em um bote (ou escaler, no caso do gaúcho) na companhia de um felino (um jaguar, na história do brasileiro, um tigre-de-bengala, na narrativa do canadense) após um naufrágio. E é isso. Esses são os únicos elos entre as duas histórias. E no fim de tudo, isso é o que basta saber. Misto de real maravilhoso com ficção histórica, “Max e os felinos” é um alerta sobre as ferocidades que nos cercam, sejam elas animais, metafísicas ou políticas. Scliar aborda com extrema concisão e lucidez invejável a questão nazista nesta novela e prende a nossa atenção dando aos leitores apenas informações essenciais para acompanhar a história. Como todo escritor memorável, Scliar sabe escolher as palavras certas para o que deseja contar, algo que ele - e muitos outros - reforçou inúmeras vezes enquanto estava vivo. Afinal de contas, a famosa lei de Lavoisier se encaixa tão bem na literatura quanto na química: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

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