Lucy largou uma carreira promissora como produtora de televisão e uma vida social agitada para cuidar dos filhos, mas maternidade não significa se tornar uma dona de casa convencional. Colocar em ordem o caos doméstico -a pilha de roupa para lavar tem no mínimo 1 metro de altura e não faz muito tempo que levou os filhos à escola vestindo pijama - não é uma tarefa simples para Lucy, e ela ainda precisa encontrar tempo para resolver os dramas emocionais das amigas. Até que ela começa a flertar com o Pai Sexy Domesticado. Será que a velha Lucy Sweeney está de volta?
A vida secreta de uma mãe caótica -
Fiona Neill
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<i>A culpa é a planta trepadeira da maternidade. As duas são tão inexoravelmente interligadas que é difícil saber onde termina uma e começa a outra</i>. Quem pensa que mãe e sedução são palavras incompatíveis no dicionário é bom rever os conceitos. A maternidade contemporânea vista sob a perspectiva da escritora britânica Fiona Neill abre espaço para a sexualidade e o desejo em meio a fraldas e mamadeiras. Inspirada em uma coluna que mantém no jornal The Times, na Inglaterra, a autora une em <i>A vida secreta de uma mãe caótica</i> - Ed. Record - elementos de comédia romântica e reflexões sobre o ser mãe versus o ser mulher nos tempos modernos. E nos apresenta Lucy, uma divertida anti-heroína que tenta dar conta do marido, três filhos, tarefas domésticas, vida social, dramas familiares e ainda arranja tempo para cair em tentação e se apaixonar por um pai da escola das crianças. Lucy não é perfeita como mocinha de novela. É confusa, carente, culpada, fuma feito uma chaminé, se acha quilos acima do peso e consegue pagar tantos micos quanto a conterrânea Bridget Jones. Com a diferença de uma ser dona de casa - mãe em tempo integral no linguajar político-corretês - e a outra uma profissional liberal, as duas personagens muito se assemelham. Essa familiaridade da história de Fiona Neill com a rainha das anti-heroínas criada por Helen Fielding nos idos da década de 90 e responsável pelo boom do Chick Lit (literatura feminina moderna), dá um grande conforto ao leitor. É como pisar em caminho conhecido, mas não necessariamente igual. Fiona Neill tem suas cartas na manga para não ficar à sombra de uma mera imitação. Lucy é inspirada em dezenas de mães que escrevem semanalmente para a coluna de conselho doméstico e sentimental que a autora mantém no jornal de maior prestigio da Inglaterra. A protagonista é um pouco autobiográfica também. Fiona Neill tem três filhos e conhece bem os sentimentos conflitantes das mães atuais, eternamente divididas entre dar tudo de si na educação das crianças e não perder espaço no competitivo mercado de trabalho. Além, claro, de arranjar tempo para aparecer sempre linda, cheirosa e depilada. É esse avatar de super mulher bem resolvida e capaz de dar conta de multitarefas que as capas das revistas vendem, mas a realidade pulsa anos luz de distância. Os terapeutas que o digam... <b>Psicologia e humor</b> - Em comum com O diário de Bridget Jones e não tem como ser diferente porque Helen Fielding fez escola <i>A vida secreta de uma mãe caótica</i> possui a narrativa em primeira pessoa e a construção psicológica da personagem principal. Lucy é tão divertida e atrapalhada quanto a solteirona balzaca Bridget, porque encarna o estereótipo de todos os nossos defeitos e virtudes femininas (melhor dizendo, humanas). Além disso, também vive um dilema bridgetiano: deve escolher ficar com o sujeito certinho e meio previsível (o marido Tom) ou jogar-se numa aventura com o charmoso pai dos coleguinhas de seus filhos no ensino fundamental? Sentindo-se engolfar pela rotina doméstica entediante, a aventura - e o adultério que vem de brinde - assemelha-se a uma ilha de prazeres proibidos e secretos que revelariam a verdadeira Lucy, uma jovem radiante e cheia de projetos antes do casamento. Haja força de vontade para não deixar-se levar. Mas será que Lucy é forte o bastante? Ou será que vale a pena sacrificar a cumplicidade adquirida por uma vida em comum com o marido apenas pelo sabor da aventura? As torturas psicológicas da personagem são tratadas com muita graça pela autora. Queremos ver Lucy se debater no seu dilema trair ou não trair o marido? Eis a questão, porque quanto mais ela se sente culpada, mais confusa fica e mais divertido é o desenrolar da história. A autora também brinca com os conceitos de fidelidade e decoro impostos pela nossa construção social e com a moral apregoada pela religião, sem no entanto subverter ou tecer juízos de valor. Deixa a critério de cada um tomar a defesa ou jogar pedras em Lucy. <b>Brincando com estereótipos</b> Mordaz e irônica a fleuma britânica atuando em favor da condução narrativa a personagem é carismática porque encarna dramas da vida cotidiana e ordinária, mas é também muito irritante. Por mais que as leitoras se reconheçam em alguma situação vivida pela protagonista, ninguém gosta de assumir-se passivo diante da vida. No fundo, torcemos para que ela organize não apenas a bagunça na cozinha, mas sobretudo na própria cabeça. A redenção de Lucy é o passaporte para manter o <i>status quo</i> de mulheres modernas e pseudo bem-resolvidas. Se ela fracassar, o ideal de mulher maravilha desaba junto. A intenção da obra é usar lentes de aumento para acentuar e fazer piada, de forma inteligente e perspicaz, com os defeitos humanos. O livro está cheio de estereótipos impagáveis - mas nem por isso preconceituosos -, como a classificação que Lucy faz mentalmente das mães e pais da escola primária: a mãe alfa é a super competitiva que, uma vez fora do mercado por conta das obrigações maternas, transforma a própria casa em sucursal de multinacional, estabelecendo regras marciais para as crianças; a mãe gostosa número um é a rata de academia e de salão de beleza, com cartão de crédito ilimitado e batalhões de empregados para cuidar das crianças enquanto ela retoca a maquiagem; já as mães caóticas, como Lucy, são as mortais comuns que não tem nem disciplina e nem conta bancária para pertencer às duas categorias anteriores. No meio desse mulherio almodoviano (à beira de um ataque de nervos), está o pai sexualmente domesticado, aparentemente bem casado e dedicado. No fim das contas, trata-se de uma obra de autodescoberta, mas ao invés de descambar para o dramalhão ou a autoajuda, a autora segue o caminho do escracho e revela-se uma sagaz observadora do comportamento humano, principalmente feminino, diante de tantas exigências e papeis ainda rigidamente demarcados no jogo afetivo e social. *<i>O texto da resenha também foi publicado no Caderno 2+, do jornal A TARDE, neste sábado, 11/12/2010.</i>
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