Por volta do final de 1973 chegaram a S. Paulo, trazidas em caminhões, as nove mil toneladas de sucata em que se transformou uma das maiores epopéias que o Brasil já viveu: a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A ferrovia nasceu do Tratado que em 1903 incorporou o território do Acre ao Brasil, que se comprometeu a construir a estrada para facilitar o escoamento, ao Atlântico, das riquezas da bacia amazônica, especialmente da Bolívia, vencendo um trecho de saltos e corredeiras que impediam a comunicação fluvial. Sua construção demorou mais de trinta anos, em vez dos quatro previstos. Cada trecho aberto na selva foi uma tragédia. Quando inaugurada a estrada, contavam-se por milhares, ou dezenas de milhares, os que tombaram nessa luta de gigante. Percorrendo o Brasil, o escritor Kurt Falkenburger, economista formado pela Universidade de Viena, deparou, com surpresa, aquela franzina estrada perdida na Amazônia. Que titânico esforço a colocara ali? Apaixonou-se pelo assunto, pesquisando em bibliotecas, percorrendo palmo a palmo a estrada, sentindo em cada quilometro de trilhos a palpitação do sofrimento e das esperanças dos que as assentaram, e procurando, e descobrindo na mata, os muitos cemitérios que permaneceram como testemunhas da epopéia.
As Botas do Diabo -
Kurt Falkenburger
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Da Inglaterra, depois de convencido, o jovem engenheiro viaja ao Estados Unidos e se junta a equipe da segunda tentativa de varar a ferro a mais insalubre vegetação que o homem já se meteu. O trajeto de barco não foi dos mais tranquilo. E lá conheceu Sam, repórter bonachão e Gertie, mulher meio pirata, de poucos anos e poucos pudores. Andava só de calças puídas e tinha a boca mais suja da tripulação. Encalhando aqui e ali na passagem do mar revolto para as águas misteriosas dos rios amazônicos, seguiram correnteza a cima até o acampamento da primeira tentativa da construção. Um vilarejo de péssima aparecia onde os cacarecos da empreitada anterior eram comidos pela floresta. Uma das causas que fez Reggi sair da civilização para entrar no selvagem jardim do Éden era saber o que aconteceu com o pai que integrou a primeira equipe. O dono do boteco local, que presenciou e fez dinheiro com a empreitada toda reconheceu certos traços na feição de Reggi. Logo soube dizer o que aconteceu com o Wire Senior. Estava plantado no bananal, que era o apelido que deram para o cemitério. Os trabalhos iniciais começaram com provas de fogos. Mosquitos insaciáveis que provocaram a malária. Beribéri devido má alimentação. Parece que a caça na floresta amazônica não era tão rica como se pode pensar. Animais peçonhentos e formigas aos milhões que comiam tudo; de mantimentos a corpos. A doença era inevitável e o medicamento ineficaz e escasso. Mortes diárias. Contornando cachoeiras para abri novos acampamentos, mas se cai na água... Piranha! Trabalho ingrato porque não rendia. Incapacitando homens que iam ao hospital de campanha para murchar de febre nos leitos improvisados. No meio do mato era ainda pior. A dias de viagens do acampamento central, os exploradores sofriam de verdade. Sempre acompanhado de nativos cordatos, enfrentava a fome, ataques a flechas de índios hostis, a própria mata parecia se fechar as suas costas. Reggi escapou de duas enrascadas bravas como único sobrevivente. Salvo por seringueiros e tratado dos ferimentos pela a filha mestiça do chefe seringalista, que acabou se apaixonando possessivamente por ele. Com o novo fracasso da ferrovia, ele pensa em ir embora porem a floresta já era dono dele. Acabou ingressado no negócio de extrair seiva da Hevea Brasiliensis. Então viveu no mato tirando leite de pau durante o auge do Ciclo da Borracha. Nesse período a ferrovia foi completada pela terceira e mortífera tentativa. E só mostrou pouco útil. A biopirataria tirou a preponderância da região no abastecimento mundial do produto. A abertura do canal do panamá tornou esse tipo de transporte férreo nada interessante para outras cargas e o fim da estrada de ferro foi melancólico.
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