"Porque eu fui ruim na minha vida passada" "Porque as pessoas não tem o suficiente para ir à escola" "Porque Alá quis" "Porque os ricos não fazem nada pelos pobres" "Porque os pobres não fazem nada por eles mesmos" "Porque não tenho emprego" "Porque é o meu destino" Entre 1992 e 2005, o jornalista e escritor norte-americano William T. Vollmann percorreu diversos países em busca de uma resposta para a simples e enfática pergunta: Por que você é pobre?. Numa mescla de literatura de viagem e ensaio, Por Que Vocês São Pobres? permite aos pobres - objetos de tantas análises sociológicas, políticas e antropológicas - responderem por si mesmos e explicarem, com seus próprios jargões culturais, sociais e religiosos, as causas e as consequências da situação em que vivem. Uma mãe alcoólatra tailandesa e budista, certa de que sua pobreza é um castigo por transgressões cometidas em vidas passadas, e sua filha de 10 anos, cuja fé inocente lhe diz que seu único pecado de outras vidas foi ter sido rica. Um russo discriminado por ter sido enviado para trabalhar em Chernobyl e que emite mais radiação do que máquinas de raios X. Big Mountain e Little Mountain, dois salarymen japoneses que subitamente perderam seus empregos e agora vivem embaixo de uma ponte em Kyoto. Uma mendiga e ex-professora no Afeganistão do Talibã que pede esmolas a seus antigos alunos com o rosto coberto por uma burca, invisível à cegueira voluntária dos transeuntes. Habitantes vizinhos a uma refinaria de petróleo no Cazaquistão que sofrem de anemia causada pelo enxofre expelido. Imigrantes chineses transportados ilegalmente para o Japão por uma máfia chinesa que tortura e assassina seus devedores. O resultado da jornada de Vollmann é a criação de um novo olhar em relação ao tema, amparado por fotografias tiradas pelo próprio autor. São mais de 100 imagens em preto e branco que revelam tanto os seus entrevistados quanto a realidade das paisagens heterogêneas que os cercam, cenários de abandono e desesperança.
Por que Vocês São Pobres? -
William T. Vollmann
Um enorme aprendizado
Foi o primeiro livro de William T. Vollmann que li. Descobri o autor em um blog literário americano (Biblioklept) e passei a ter vontade de conhecer seus textos. O autor reconhece que escreve períodos longos, que ingressou uma das faculdades da Ivy League (principais centros acadêmicos americanos, incluindo Harvard e Princeton) e que seus textos e livros são de difícil acesso às pessoas, principalmente às pessoas que ele literalmente retrata nesse livro. Ele tira fotos dos personagens que entrevistou no Japão, na Colômbia, em países da ex-URSS, na ex-Iugoslávia (durante o conflito entre sérvios, bósnios e croatas), e nos seus EUA natal. Pessoas pobres vivendo em condições ruins sendo obrigadas a pedir dinheiro na rua, vender seus corpos, se entregar às organizações mafiosas, pagar alugueis, receber benefícios (geralmente muito baixos), viver em condições de invisibilidade, quando não de desprezo e ódio dos demais. Citando Adam Smith, Marx, Montaigne e outros pensadores e autores, Vollmann cria uma obra inovadora sem viés ''meritocrático'' ou ''panfletário'', mostra a realidade como ela é, ao menos aos olhos dele. Muitas vezes ele se arrisca ser ofendido, ludibriado, achacado, roubado, ameaçado de morte. Chegou a levar tiros na Sérvia, alguns dos intérpretes que trabalharam com ele se recusaram trabalhar em áreas perigosas (na Colômbia, Japão e Cazaquistão). Os textos variam quanto à forma, o autor vai seguir um padrão no início quando entrevista tailandesas e russas - e mencionará essas personagens ao longo do livro, porque foram as que mais interagiram de acordo com a premissa inicial - responderam questionamentos do autor quanto às suas vidas, e mostraram a Vollmann que ainda que em situação de miserabilidade extrema e vergonha, superam ou tentam superar de alguma forma. Não se trata de uma narrativa como a do jornalismo televisivo (e de programas televisivos americanos e brasileiros, por exemplo) que a partir de um caso visa mostrar que o pobre pode se superar e pelo seu exemplo ajudar os demais e enriquecer. Essas pessoas que o autor encontrou têm consciência de sua miséria, de seu alcoolismo e demais vícios. Nos textos finais o autor surpreende com textos próximos a nós (como a violência na Colômbia das guerrilhas de direita e esquerda, do narcotráfico e do exército conivente) ou completamente surreais (como o texto do Cazaquistão, e a cidade em que as pessoas ''envelheceram'' e tiveram anemia devido ao lançamento de produtos químicos como o enxofre na atmosfera através da extração do petróleo), o texto sobre a relação do autor com moradores de rua surpreende (por mais que ele ajude essa população oferecendo local para eles dormirem, não deixa de ser perseguido, atacado pelos vizinhos e pelos próprios moradores embriagados ou violentos (Vollmann não culpa ninguém, apenas constata o que apresentou ao longo do livro todo, não basta oferecer ajuda financeira aos pobres, mas uma ajuda consistente, não se trata de ''ensinar a pescar'', mas oferecer ajuda para que a situação não se repita com essas pessoas, seus descendentes e demais pessoas que vierem a empobrecer. Trazer essa realidade para a discussão é um começo, dar visibilidade, mostrar a violência sofrida por essa gente - achacada por máfias, governos, pessoas mais ricas e por elas mesmas visando obter um simples prato de comida).
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