O primeiro livro de Pauline Melville, uma inglesa que morou na Guiana, foi um conjunto de histórias sobre os laços culturais entre Londres e sua ex-colônia na América do Sul. Estreando agora como romancista, ela volta a contemplar a Guiana sem receio de tomar partido - sob 'A História do Ventríloquo' está o massacre cultural dos povos indígenas assentados naquele espaço que veio a se tornar a Guiana Inglesa. Este livro renova a percepção de como o colonizar transformou costumes indígenas em superstições.
A história do ventríloquo -
Pauline Melville
Edições (1)
Ver maisVentríloquo: O Herói Sem Nenhum Caráter
“Ser escritora é como ser uma limpadora de janelas em uma casa ou castelo onde as janelas estão cobertas de sujeira e fuligem. Escrever é como limpar as janelas para que as pessoas possam ver uma visão do mundo que nunca viram antes.” Publicado em 1997, “A História do Ventríloquo” firmou a britânico-guianense Pauline Melville como uma das vozes mais inventivas da literatura pós-colonial. Ao mesclar ficção histórica, mito indígena e realismo mágico, a autora constrói um painel literário que acende as tensões culturais da Guiana, território marcado pela confluência de memórias ameríndias, experiências coloniais e identidades híbridas. O romance acompanha Chofy McKinnon, mestiço em permanente oscilação entre dois universos inconciliáveis: a cidade e a floresta, o pensamento ocidental e a sabedoria ancestral. Sua trajetória reativa narrativas antigas de seu povo, nas quais amores interditos e transgressões retornam como espectros, impregnando o presente de uma temporalidade fragmentada. O ventríloquo, voz mítica que dá título ao livro, encarna a potência da oralidade como instrumento de resistência e a capacidade da memória de atravessar e recompor tempos históricos. Em gesto irônico e sofisticado, Melville convoca figuras como Mário de Andrade, que aparece como “biógrafo” dessa voz narradora. Portanto, essa intertextualidade projeta a obra para além das fronteiras guianenses, inscrevendo-a na tradição literária latino-americana. Ademais, entre os núcleos temáticos, sobressaem o legado corrosivo do colonialismo, a crise de pertencimento dos personagens, a oralidade como matriz de sobrevivência cultural e a reflexão sobre os limites da moralidade ocidental. Melville não indaga apenas o que se narra, mas sobretudo quem detém o poder de narrar — questão que reverbera em todo o campo da literatura pós-colonial. Como observa o comentarista/resenhista oficial da obra, o ventríloquo compreende “como e por que o amor e a desgraça andam de mãos dadas no Rupununi”. É nesse entrelaçamento de ternura e tragédia que a obra se ergue como uma reflexão sobre vozes silenciadas, histórias interditas e memórias disputadas. Assim, “A História do Ventríloquo” não é somente um romance, mas uma intervenção crítica na paisagem cultural contemporânea: exigente em sua forma, vertiginosa em sua simbologia, e generosa em abrir, como as janelas evocadas por Melville, novos (ou ancestrais) ângulos para olhar o mundo. “Agora que estou indo, vou revelar o meu nome. Eu me chamo Macu… não. Mudei de ideia. Mas, claro, a história do papagaio eu conto. Qualquer hora dessas.”
Estatísticas
Avaliações
3.6 / 10- 5 estrelas10%
- 4 estrelas50%
- 3 estrelas40%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%

