Afonso Henrique é o burocrata. Aquela personagem frustrada social e existencialmente, que nasceu no século XIX, na raiz do novo sistema de relações abstratas, criado pela sociedade burguesa, progressista e pragmática, - a que em nosso século se transformou na sociedade-de-consumo e no império da vulgaridade e da mediocridade, que emergiu das grandezas trazidas pelo dinheiro. Para além do contraste entre o nome heróico recebido ao nascer e a vida anti-heróica a que se vê condenado o seu patético personagem, o título deste romance sugere a correspondência de planos, passado/presente, e a natureza da luta pela vida e pela auto-realização que o homem vem enfrentando há milênios. Nos tempos heróicos da formação dos povos e das nações, sua luta era épica: travava-se nos campos de batalha. Nos tempos burocratas, da conservação metódica, medíocre e repetitiva, - tempo amputado da invenção, da poesia e do gesto criador autêntico, sua luta é lírica, interiorizada: trava-se espírito a dentro, com duendes, idéias, frustrações e sonhos.