Confesso que quando li o trocadilho “está chovendo homem, aleluia” – uma referência óbvia à música – senti uma vontade genuína de não continuar mais. Foi um daqueles momentos em que você percebe que a obra está tomando um rumo que simplesmente não condiz com a seriedade que o tema merece. Como sociólogo, fico particularmente incomodado quando narrativas com potencial crítico se rendem ao humor fácil e às referências pop que mais atrapalham do que contribuem para a reflexão.
Neste volume, temos o desfecho dos eventos do capítulo anterior, com mais detalhes sobre quem está ordenando às soldadas do exército israelense que cacem Yorick. A trama se desenvolve de forma previsível, seguindo exatamente os clichês que eu temia desde o volume anterior. Continuamos presos na mesma lógica de espionagem internacional, agentes secretos e conspirações governamentais que poderiam estar em qualquer thriller americano dos anos 90.
Mas enfim, minha nota de 3 caiu para 2. Preciso ser honesto sobre isso: está bem escrito tecnicamente, a qualidade editorial da Panini continua ótima, e os desenhos de Pia Guerra são genuinamente excelentes. Guerra consegue transmitir emoções complexas através de expressões faciais sutis e constrói ambientes que realmente comunicam o peso do mundo pós-apocalíptico. Sua arte merece uma narrativa à altura, e é frustrante ver tanto talento visual sendo desperdiçado em uma história que insiste em trilhar caminhos tão convencionais.
No entanto, o conteúdo em si está sofrível. É como assistir a um filme com produção impecável, mas roteiro medíocre. Vaughan continua optando pelas soluções narrativas mais óbvias, desperdiçando sistematicamente o potencial sociológico da premissa. Em vez de explorar como diferentes culturas e classes sociais lidariam com essa catástrofe, continuamos seguindo a mesma fórmula de ação centrada em personagens com recursos e treinamento militar.
Algo em mim diz “não se frustre pela expectativa gerada, desfrute o que está lendo, aprecie o que está sendo apresentado e não o que não tem”. Eu entendo essa lógica, realmente entendo. Como leitor, sei que às vezes criamos expectativas que a obra nunca pretendeu atender. Talvez Y: O Último Homem nunca tenha sido pensado como a reflexão sobre gênero e sociedade que eu esperava. Talvez Vaughan sempre tenha pretendido criar apenas uma aventura de ação com uma premissa interessante.
Mas, nossa… é difícil não se sentir enganado pela promessa inicial. A premissa de Y sugeria exatamente o tipo de narrativa que poderia dialogar com as teorias de Butler, Preciado e outras vozes contemporâneas sobre gênero e poder. Em vez disso, estamos recebendo mais uma história sobre americanos salvando o mundo, agora com a novidade de que a maioria dos salvadores são mulheres – mas ainda seguindo os mesmos padrões narrativos patriarcais de sempre.
O que mais me incomoda é perceber que Vaughan tem capacidade para algo melhor. Os momentos envolvendo Hero, irmã de Yorick, sugerem uma compreensão mais sofisticada das complexidades psicológicas e sociais que essa situação geraria. Mas esses vislumbres de profundidade são rapidamente abandonados em favor de mais perseguições e conspirações.
Enfim, irei até o fim da série, mas com o coração meio apertado e um gosto amargo na boca. Não por masoquismo intelectual, mas porque ainda tenho uma esperança – cada vez mais tênue – de que Vaughan eventualmente explore o potencial real de sua premissa. Talvez nos volumes seguintes a narrativa amadureça e se afaste dos clichês americanos que têm dominado até aqui.
Por ora, Y: O Último Homem continua sendo uma oportunidade perdida: uma obra que poderia ter sido revolucionária na forma de abordar questões de gênero e reorganização social, mas que prefere se contentar em ser mais uma aventura de ação com roupagem pós-apocalíptica. É tecnicamente competente, visualmente impressionante, mas intelectualmente decepcionante – e isso, para uma obra com essa premissa, é quase imperdoável.