Angus Maddison provides a comprehensive view of the growth and levels of world population since the year 1000. In this period, world population rose 22- fold, per capita GDP 13 fold and world GDP nearly 300 fold. The biggest gains occurred in the rich countries of today (Western Europe, North America, Australasia and Japan). The gap between the world leader - the United States - and the poorest region - Africa - is now 20:1. In the year 1000, the rich countries of today were poorer than Asia and Africa. The book has several objectives. The first is a pioneering effort to quantify the economic performance of nations over the very long term. The second is to identify the forces which explain the success of the rich countries, and explore the obstacles which hindered advance in regions which lagged behind. The third is to scrutinise the interaction between the rich and the rest to assess the degree to which this relationship was exploitative. The World Economy: A Millennial Perspective is a "must" for all scholars of economics and economic history, while the casual reader will find much of fascinating interest. It is also a monumental work of reference. The book is a sequel to the author's Monitoring the World Economy: 1820 -1992, published by the OECD Development Centre in 1995, and his 1998 Chinese Economic Performance in the Long Run, also published by the OECD.
The World Economy - a millenial perspective
Angus Maddison
Dois mil anos de economia
Que dizer de estatísticas econômicas que recuam dois mil anos no passado, se mesmo o crescimento do Produto Interno Bruto deste ano está sujeito a dúvidas, contestações e revisões? Isso mesmo que você pensou. Mas, apesar de ser loucura, revela método, como diria o camareiro de Hamlet. O economista britânico e professor da universidade holandesa de Groningen Angus Maddison, nascido em 1926, faz pesquisas sobre desenvolvimento econômico para a OCDE (a organização para cooperação e desenvolvimento dos países industrializados) desde 1964. É bem conhecido por seus estudos de longo prazo desde 1976, quando analisou o crescimento econômico na Europa desde 1913. Em 1983, comparou o crescimento do PIB em vinte países, de 1700 a 1980. Em 1995, publicou Monitoring the World Economy 1820-1992. Em 2001, ousou ainda mais com "The World Economy: a millennial perspective" – um sumário patrocinado pela OCDE do desenvolvimento econômico do planeta do início da era cristã ao ano 2000. A obra, ainda pouco conhecida no Brasil, dá boas oportunidades de refletir sobre os rumos da economia mundial e da ciência econômica. A obra não chega a corresponder inteiramente à pretensão do título: para antes de 1500, Maddison pôde apenas reunir estimativas de população feitas por historiadores e adivinhações arbitrárias em relação à renda per capita – US$ 450 (em dólares de 1990) para os impérios romano e chinês, US$ 400 para a Europa medieval e US$ 425 para o México asteca, por exemplo – sem discutir o significado desses números para sociedades nas quais o dinheiro e o comércio eram marginais ou não existiam. Quase se ignora o qualitativo, salvo pelo deslocamento do centro dinâmico do capitalismo de Veneza para Portugal, Holanda, Reino Unido e EUA. Mas quem gosta de comparações esdrúxulas poderá agora dizer que a fortuna de Bill Gates supera não só o PIB do Equador como também o do fabuloso império sino-mongol de Kublai Khan – e quase iguala o PIB mundial da época de César Augusto. Se algo se pode concluir com segurança é que Maddison se esforça por narrar um progresso tão contínuo quanto possível. Descarta escolas inteiras de história demográfica que têm sustentado que a população das Américas e da África antes da colonização foi bem maior do que se imaginara. Mantém a tradicional estimativa de 1 milhão para a população do Brasil em 1500, embora a revisão para 3,5 milhões a 8 milhões tenha sido aceita pela maioria dos especialistas. Para as Américas, supõe 17,5 milhões, quando muitos falam em 40 milhões a 90 milhões, caindo para menos de 11 milhões em 1600. Se não se apegasse aos cálculos mais conservadores, Maddison poderia chegar à desagradável conclusão de que a mortandade das primeiras décadas dos Descobrimentos fez cair a população e a produção globais por décadas – e a dos continentes conquistados por séculos. As evidências sobre o início da era moderna são um pouco mais detalhadas, mas continuam frágeis e contraditórias. O economista prefere as que sustentam a tese de um progresso relativamente contínuo da Europa Ocidental, cuja renda per capita teria praticamente triplicado entre 1000 e 1820. Recusa a distinção entre feudalismo, capitalismo mercantil e Revolução Industrial e considera esses oito séculos como “protocapitalistas”. A transição para o verdadeiro capitalismo estaria assinalada menos pela revolução na produção do que pelas inovações dos transportes, nas comunicações e no comércio. Muitos historiadores vêem um progresso incerto dos padrões de vida da maioria da população européia da Idade Média até o início do século 18 e uma rápida transformação a partir do início da Revolução Industrial, por volta de 1760. Os europeus só teriam alcançado o padrão de vida dos chineses bem depois dos Descobrimentos. Já para Maddison, essa ultrapassagem teria ocorrido em 1300 – enquanto o mercador veneziano Marco Polo provocava assombro e descrença ao descrever as maravilhas do Oriente a seus concidadãos da cidade mais próspera e cosmopolita da Europa Ocidental. Também é curioso que seus números indiquem que a decadente Holanda da época de van Leeuwenhoek (1700) teria superado em riqueza não só a contemporânea Inglaterra de Isaac Newton, como também a de George Stephenson (1830), para não falar do Japão de 1950 ou do Maranhão de 2001. A partir do início do século 19 o terreno é mais seguro. Pode-se contar com dados razoavelmente sistemáticos de produção agrícola e industrial para um número cada vez maior de países. Em 1820, a renda per capita do país mais rico – segundo Maddison ainda a Holanda, apesar de toda a devastação das guerras napoleônicas – era apenas 4,4 vezes superior à do continente mais pobre, a África. Surpreendentemente, a vitoriosa Inglaterra, já senhora do comércio mundial, continuava um pouco atrás. No resto da Europa Ocidental e na América do Norte, a renda não chegava a ser três vezes superior à do continente negro. Na maior parte do mundo, variava entre 30% a 60% acima da média africana. Em média, a renda per capita dos países centrais (14% da população mundial) era pouco mais que o dobro da periferia. No Japão, os xóguns controlavam rigorosamente os contatos com o Ocidente, a economia e a difusão de tecnologia, proibindo, por exemplo, as armas de fogo e o uso de veículos nas estradas. O governo absorvia grande parte do PIB e a burguesia era a camada social mais desprezada. Como explicar o futuro desse país que rejeitava inteiramente o comércio internacional? Desta vez, Maddison tem de deixar de lado o puramente econômico e anotar evidências de padrões elevados, para a época, de educação, tecnologia agrícola, higiene, saúde e controle de natalidade. A era da “ordem liberal”, para Maddison, inicia-se em 1870, quando a renda média dos países ocidentais era 3,5 vezes superior à dos países periféricos. Entre estes, alguns já começavam a se destacar: a renda per capita da Rússia era o dobro da África. A da Argentina era superior à da França – aparentemente, já poderia ser incluída entre os ricos. Japão e Brasil estavam estatisticamente no mesmo nível. O economista não ignora o peso do colonialismo e mais uma vez toma nota de dados qualitativos. Nas colônias britânicas, o comércio era formalmente livre e, após o motim indiano que obrigou os britânicos a estatizar a administração colonial em 1857, a apropriação direta da renda passou a ser mais moderada. Mas a elite colonial continuou a decidir os investimentos e, assim como os privilegiados nativos que a imitavam, a comprar produtos britânicos e desprezar os locais – ou mesmo os das potências européias concorrentes. Estas exploravam ainda mais abertamente suas colônias, proibidas de importar produtos de terceiros, obrigadas a transferir grandes superávits comerciais para as metrópoles e a pagar o custo da administração colonial e da repressão de seus próprios nativos. A China era explorada por todas as potências industriais, forçada a abrir seus portos à importação de ópio britânico e até a pagar o custo das guerras movidas a ela com essa finalidade. Em 1913, a média ocidental é 4,8 vezes superior à da periferia e a Grã-Bretanha está sendo superada: os EUA são agora 8% mais ricos, a Austrália, 16% – com uma renda per capita 10,4 vezes superior da China: aberto à força, o país mais próspero do mundo medieval se tornara um dos mais pobres da era liberal. Numa aparente vitória da teoria das vantagens comparativas, a Argentina da juventude de Gardel parecia definitivamente incluída no clube dos ricos à força de exportações de carnes e cereais. Era mais rica que a segunda potência industrial e militar do mundo, a Alemanha do Kaiser. Uruguai e Chile vinham atrás, mas ainda à frente da Itália e da Espanha. Japão, Rússia, México, África do Sul, Colômbia e Peru, com renda duas a três vezes superior à da China, também pareciam a caminho de sair da vala comum, mas o Brasil, depois de 67 anos de Império e 24 de República Velha, estagnara-se no mesmo nível da Ásia colonial. Nada nos números permite ver que em 1913 o Japão já era e continuaria a ser uma potência, mas México e Peru eram dependentes e seriam cada vez mais pobres em termos relativos. Ou prever o triste futuro da Argentina, cujo PIB per capita era maior e crescia mais do que o da Bélgica ou da Suécia. O ambicioso tratado de Maddison exemplifica a insuficiência de análises econômicas quantitativas – como as que hoje pretendem decidir de Wall Street o futuro das nações – quando ignoram as realidades sociais e estruturais. De 1913, Maddison salta para 1950, passando ao largo das décadas turbulentas e decisivas que incluíram a Grande Depressão, as duas guerras mundiais, as revoluções russa e chinesa, os colapsos do III Reich e do Império Britânico. Ao baixar a poeira, os Estados Unidos haviam crescido mais do que a média mundial e deixado para trás as potências do Velho Mundo: sua renda per capita já era o dobro da média da Europa Ocidental. Muitos países da América Latina haviam enriquecido na mesma proporção e superavam a Europa Oriental, os países ibéricos e o Japão. Argentina, Chile, Uruguai e África do Sul cresceram menos, proporcionalmente: continuavam comparáveis aos europeus ocidentais, mas se distanciavam dos EUA, Canadá e Austrália. Nesses 37 anos, o crescimento da renda per capita do Brasil de Getúlio Vargas foi o maior entre os grandes países do mundo. O país deixou de ser uma das mais pobres nações independentes para ter uma renda próxima da média mundial, posição na qual ainda hoje permanece. O segundo mais rápido foi o da União Soviética de Stálin. Apesar dos ônus da revolução e das guerras mundiais, parecia bem mais perto de alcançar os líderes do capitalismo que o país dos samurais. Já o caso da China, devastada por décadas de guerras civis e com o Japão, era deprimente: em 1950 estava atrás da maioria dos países africanos e 30% mais pobre do que havia sido em 1300. A Índia também retrocedera significativamente. Na “era dourada”, como o economista chama o período de 1950 a 1973, é o milagre japonês que mais salta à vista: em menos de uma geração, multiplicou a renda per capita por seis e saltou da semiperiferia para o centro. Dois outros países asiáticos apoiados pelos EUA – Coréia do Sul e Taiwan – também cresceram rapidamente, mas não o suficiente alcançar a média da América Latina. Muitos outros, incluindo a China, também haviam recuperado algum terreno. Fora da Ásia, o crescimento mais espetacular havia sido o da Europa Ocidental: apesar da perda de colônias e do estatuto de potências globais, economicamente os países do velho mundo recuperaram muito terreno perdido e chegaram mais perto do padrão norte-americano do que haviam estado em 1913. O Brasil avançou um pouco menos, mas o suficiente para quase se igualar à média dos outros países latino-americanos, que ficaram mais estagnados. A Europa Oriental também havia crescido mais do que a média mundial, mas já perdia ritmo. A Índia e muitos países da África e América Latina viram aumentar a distância em relação às ex-metrópoles. Mesmo assim, esses países do Terceiro Mundo podiam mostrar algum avanço absoluto per capita, o que em meio a uma explosão populacional não é trivial. Como o crescimento demográfico havia sido muito maior nos países pobres do que nos ricos, a renda per capita mundial cresceu menos que a dos países industrializados: a relação entre a renda média do Ocidente e da Periferia aumentou de 5,8 em 1950 para 6,5 em 1973. Na era da “ordem neoliberal”, de 1973 a 1998, a Ásia continuou a avançar: muitos países asiáticos cresceram acima da média mundial, mas o ritmo de crescimento quanto os resultados finais foram menos impressionantes. Mesmo Coréia do Sul e Taiwan enfrentam crises sérias sem conseguir se igualar ao Japão da geração precedente. O mais notável é a recuperação, depois de séculos de estagnação, dos dois países mais populosos: a China avança da extrema marginalização para a semiperiferia e a Índia, mais modestamente, também ganha posições, ambos desafiando o modelo neoliberal. Em compensação, a renda per capita da América Latina e Europa Oriental cresceu muito pouco, a da África estagnou e a da antiga União Soviética recuou para os níveis da década de 50. Desde os tempos coloniais não se via retrocesso tão grande. Apesar do inegável avanço do continente mais populoso do mundo, a disparidade entre as médias do Ocidente e da periferia aumentou ainda mais e alcança 7 vezes: a mesma diferença que existia entre o Reino Unido e suas colônias africanas em 1870. É de quase 70 para 1 a diferença entre os EUA e o país mais pobre, a Etiópia, com uma renda per capita de US$ 399. Segundo a ONU, o número das pessoas que sobrevivem com um dólar por dia ou menos – um padrão bem pior do que o da Idade Média européia, segundo Maddison – é de 1,5 bilhão (25% da humanidade), quase o dobro dos 838 milhões (14%) que vivem nos países ricos. O crescimento econômico global perdeu ritmo na maioria dos aspectos. De 1973 a 1998, apesar da desaceleração da explosão demográfica, o crescimento anual médio da renda per capita global (1,3%) foi idêntico ao das décadas finais do século 19 e menos da metade do ritmo alcançado de 1950 a 1973 (2,9%). A desaceleração e o aumento da divergência entre ricos e pobres são um fenômeno global, mas Maddison prefere ater-se a causas regionais: na União Européia e Japão, políticas equivocadas; na América Latina e Europa Oriental, dificuldades de transição para o neoliberalismo; na África, endividamento excessivo e fuga de ativos para o exterior (40% da riqueza privada mantida no exterior, contra 10% na América Latina e 6% na Ásia Oriental). Mas também nos EUA o crescimento perdeu ritmo e Maddison desmente que renda e produtividade tenham sido subestimadas pela dificuldade de medir a “nova economia”. O quadro geral mostra um retorno do perfil do crescimento econômico mundial aos padrões da ordem liberal – crescimento rápido do comércio internacional, crescimento lento do PIB e atraso crescente da periferia em relação ao Ocidente. Não é tão freqüente quanto outrora ver as canhoneiras imporem governos coloniais ou bombardearem portos para extorquirem acordos comerciais: as pressões e chantagens puramente econômicas passaram a ser suficientes, tal o grau de dependência econômica, financeira e cultural a que chegaram os países periféricos. O Japão continua sendo o único país de fora a efetivamente alcançar o Ocidente. Resta ver se outras potenciais exceções da Ásia Oriental – como Coréia e Taiwan – terão êxito mais duradouro que o de países do Cone Sul que brilharam sob o primeiro liberalismo, como a Argentina e o Chile. Se o aumento das desigualdades entre países tem sido uma constante nos últimos 500 anos, nos últimos 27 chegou a níveis sem precedentes. Nessa história de dois milênios, o crescimento econômico proporcionou muito a uns poucos, muito pouco à maioria e absolutamente nada a muitos: a injustiça avançou mais rápido que a tecnologia. Se este século for como o que passou, as grandes potências de 2100 ainda serão as mesmas, mas doze vezes mais ricas do que a média dos países periféricos e centenas de vezes mais ricas que os países mais miseráveis – cujos habitantes continuarão tendo razões para preferirem ter nascido no tempo de César Augusto.
Estatísticas
Avaliações
4 / 2- 5 estrelas0%
- 4 estrelas100%
- 3 estrelas0%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%
