Descartes (Os Pensadores #16) - Discurso do Método; Meditações; Objeções e Respostas; As Paixões da Alma; Cartas

    René Descartes

    Abril Cultural
    1983
    324 páginas
    10h 48m
    Português Brasileiro

    Introdução por Gilles-Gaston Granger. Prefácio e notas por Gérard LeBrun. Consultoria da introdução por José Américo Motta Pessanha. 1. Discurso do método [1637] ::: Uma das obras mais famosas de toda a literatura filosófica, constitui um dos marcos inaugurais do pensamento moderno. A partir do relato de sua própria formação intelectual, Descartes formula a proposta de um novo método, baseado no procedimento da matemática. Esse método deverá servir “para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade das ciências”. 2. Meditações [1641] ::: As provas da existência de um Deus bom e veraz permitem a Descartes afastar a dúvida que paira até sobre as ideias claras e distintas. Deus passa, assim, a constituir o absoluto fundamento da evidência subjetiva e da própria objetividade. 3. Objeções e respostas [1641] ::: Descartes responde às objeções feitas a seus sistemas por filósofos e teólogos, como Mersenne e Gassendi. Muitas das teses das Meditações são revistas, aprofundadas, enriquecidas. 4. As paixões da alma [1649] ::: Tratando “das paixões em geral e ocasionalmente de toda a natureza do homem”, Descartes apresenta sua concepção dualista para a explicação do relacionamento entre o corpo e a alma. 5. Cartas [1643/45/47] ::: Em cartas dirigidas a Elisabeth e a Chanut, Descartes discute e esclarece temas fundamentais de sua filosofia.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (1)Ver mais
    Fabio Shiva picture
    Fabio Shiva25/12/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    DESCARTES – Coleção Os Pensadores

    Foi mesmo uma sincronicidade que nessa fase em que tenho relido alguns livros especiais fosse justamente Descartes o próximo da fila na Coleção Os Pensadores. Já havia lido a introdução e o “Discurso do Método” para a faculdade, e gostei tanto que li por conta própria as “Meditações”, leituras que acabaram na letra de uma música heavy metal. Pois bem. Comecei a ler pela segunda vez, desde o princípio. Jamais esperava o impacto das revelações que recebi. Tive que parar a leitura no início do “Discurso”, assim que terminei a longa introdução (59 páginas). Precisava parar para absorver aquilo tudo. Agora posso falar sobre o assunto. Pois então. Na introdução, é claro que Descarte é louvado como um grande filósofo, imortal autor da célebre frase: “Penso, logo existo.” Mas há também, aqui e ali, a acusação mais ou menos velada a uma falha fundamental no sistema filosófico de Descartes, e até de uma covardia intelectual. Essa mesma conversa eu escutei na sala de aula. Galileu disse uma coisa que a Igreja não gostou, e foi obrigado a abjurar, a renegar seu próprio trabalho científico. Então Descartes ficou com medo e recuou em suas teorias. Eu escutei isso na faculdade, e li no livro, então acreditei! Hoje percebo que essa é uma leitura totalmente não-filosófica de Descartes!!! o covarde e o herói O xis da questão é o seguinte: Descartes é um dos nobres pais da ciência. Ao formular em seu “Discurso” as regras do método científico, influenciou definitivamente o modo de se entender e fazer ciência, tanto que vem de seu nome a palavra “cartesiano”. O grande embaraço, para os ferrenhos seguidores do cartesianismo tal como ficou conhecido, é que a filosofia de Descartes apóia-se em Deus! Após sua belíssima odisséia até chegar ao “cogito”, abraçando totalmente a dúvida até que a própria dúvida torne-se a certeza de um ser que duvida, Descartes ancora a existência do ser pensante à necessária existência de Deus. Essa é a filosofia cartesiana, purinha. Descartes não foi um covarde (ou pode até ter sido, é algo totalmente irrelevante do ponto de vista de sua filosofia). Eu acreditei nisso porque acreditei em pessoas que acreditam que o materialismo científico é a conclusão inevitável de toda ciência possível, então se Descartes não chegou a essa conclusão, logo ele que foi o pai (padrasto) dessa zorra toda, então para essas pessoas Descartes foi um covarde. No entender dessas pessoas, corajoso foi Laplace, matemático que veio logo depois de Descartes. Questionado pelo rei por não ter mencionado Deus em parte alguma de seu tratado, ele respondeu que Deus não era necessário em suas equações. a dúvida e a certeza Sabem qual é o problema de uma ciência sem Deus? Quando um deus é derrubado, logo outro toma seu lugar. O deus que a ciência segue hoje atende pelo nome de Progresso. Em nome do progresso, todos os avanços da ciência são justificados. E é assim que temos xampu que não arde no olho da criança, graças à tortura e morte de incontáveis seres sencientes, tão capazes de sentir dor quanto os seres humanos. É assim que temos Progresso para todos os lados, a custo da poluição e extinção da vida no planeta. O Deus que está faltando na ciência não virá de nenhum dogma religioso, de nenhuma seita ou igreja estabelecida. Isso também pode ser jogado fora junto com a velha ciência. O Deus que está faltando é o mero pressuposto: existe Deus. Só isso basta. Sabendo que Deus existe, nenhum cientista que se preze vai torturar coelhinhos para fazer xampu!!! Parece brincadeira, mas a coisa é profunda, estremece até os alicerces. Descartes foi lá, viu, e contou. É só olhar e ver. *** vista o manto sagrado ao ler um livro assim Donde a importante conclusão: só se pode ler filosofia sendo filósofo. Nunca leia um livro de filosofia de boca aberta: os pensamentos de outra pessoa podem se tornar os seus, sem que você sequer perceba. (24.03.11) DISCURSO DO MÉTODO - Descartes Não foi à toa que a leitura da introdução me provocou tantas emoções. Pois ao reler o “Discurso” vivenciei novamente todo o entusiasmo dessa grande aventura chamada filosofia! Descartes se opõe principalmente ao pensamento escolástico, baseado na mera repetição do que está escrito nos livros antigos. Esse caminho só poderá levar, na melhor das hipóteses, à verossimilhança, algo que tem apenas a aparência de verdade. Para alcançar a ‘verdade verdadeira’, é preciso exercitar a dúvida radical: questionar tudo como incerto, como possível enganação. Somente o que passar pelo crivo das quatro regras do método poderá ser considerado verdade: 1) Evidência – aceitar apenas aquilo que for evidente à razão. 2) Análise – dividir cada assunto em suas menores partes. 3) Síntese – juntar as partes em um todo coeso. 4) Rememoração – nada omitir em sucessivas recordações do assunto. É isso o que torna Descartes um grande filósofo: seu primeiro passo é colocar em suspenso tudo o que foi escrito antes dele, não aceitar nada como certo. Ele se propõe a investigar o mundo inteiro e a si mesmo a partir de sua própria razão. E desse mergulho profundo na dúvida ele emerge com uma luminosa certeza, um dos pontos mais altos da filosofia ocidental: “penso, logo existo”. Uma tradução mais adequada para o famoso “cogito ergo sum” seria “duvido, logo existo”. O próprio ato de duvidar (ou de pensar) exige um sujeito pensante, e é daí que nasce a certeza de Descartes. Genial! O passo seguinte é demonstrar a existência de Deus como algo evidente e irrefutável para a razão. Não foi uma manobra para “fazer média” com a Inquisição. Não foi covardia intelectual, muito pelo contrário. Descartes falando que Deus existe é filosofia pura, na verdade é a base de seu sistema filosófico. Em minha opinião vivemos hoje um certo retorno da Escolástica no pensamento científico. Tenho observado que diante de evidências que contrariam os dogmas científicos atualmente vigentes, a reação da grande maioria dos pesquisadores é simplesmente ignorar o dado conflitante. Já tive oportunidade de perceber essa postura de negação em várias áreas da ciência. Acho isso de uma maluquice tremenda! Para ser sincero, creio que hoje vivemos uma Idade Média da ciência. É necessário que surja um novo Renascimento, dessa vez não o renascimento da razão isolada, que se mostrou tão estéril quanto a fé isolada. É necessário um renascimento espiritual, tanto quanto intelectual. Pois só assim a humanidade alcançará a tão sonhada sabedoria. (05.09.11) AS PAIXÕES DA ALMA - Descartes Primeira parte: DAS PAIXÕES EM GERAL E OCASIONALMENTE DE TODA A NATUREZA DO HOMEM Descartes surge aqui como um dos primeiros psicólogos modernos, se não o primeiro, ao esboçar um sistema teórico completo para o funcionamento da personalidade. Uma das partes mais interessantes sem dúvida é quando o filósofo fala da glândula pineal, que para ele é o ponto do corpo onde a alma está especialmente concentrada. Muito massa essa visão dele! Um aprendizado à parte que essa leitura trouxe foi essa sacação de como a filosofia ocidental nasceu e se desenvolveu quase que totalmente na ignorância de sua irmã mais velha, a filosofia oriental. Esse pensamento me proporcionou muitas viagens, que sintetizo na alegoria de um romance na linha de Irvin Yalom, autor de “Quando Nietzsche Chorou”, ou então na linha do escritor de “O Mundo de Sofia”, Jostein Gaarder: “O que teria acontecido se René Descartes tivesse lido o Baghavad-Gita?” Talvez pouca coisa tivesse mudado. Mas quem sabe o mundo inteiro que conhecemos hoje fosse completamente diferente! (07.09.11) AS PAIXÕES DA ALMA - Descartes Segunda parte: DO NÚMERO E DA ORDEM DAS PAIXÕES E A EXPLICAÇÃO DAS SEIS PRIMITIVAS Descartes já começa enfatizando a importância da glândula pineal na origem das paixões: “(...) a última e mais próxima causa das paixões da alma não é outra senão a agitação com que os espíritos movem a pequena glândula situada no meio do cérebro.” (Art. 51) Para o filósofo, as seis paixões primitivas são: “a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza; e todas as outras compõem-se de algumas dessas seis”. (Art. 69) Terceira parte: DAS PAIXÕES PARTICULARES Foi o trecho que mais gostei desse livro. Hoje não dá para se guiar muito pelo sistema de classificação das paixões usado por Descartes, baseado ainda em “espíritos” e “humores” (bilioso, sanguíneo etc.). Então o texto interessa principalmente ao estudante de história da filosofia, mas é sempre interessante observar o modo como Descartes via o mundo, o que aparece em algumas frases marcantes. Sobre a generosidade: “Assim creio que a verdadeira generosidade, que leva um homem a estimar-se ao mais alto ponto em que pode legitimamente estimar-se, consiste apenas, em parte, no fato de conhecer que nada há que verdadeiramente lhe pertença, exceto essa livre disposição de suas vontades, nem por que deva ser louvado ou censurado senão pelo seu bom ou mau uso”. (Art. 153) Como a generosidade impede que se despreze os outros: “Os que têm esse conhecimento e sentimento de si próprios persuadem-se facilmente de que cada um dos outros homens também os pode ter de si, porque nisso nada há que dependa de outrem.” (Art. 154) “Assim, os mais generosos costumam ser os mais humildes”. (Art. 155) “(...) e acontece muitas vezes que os que possuem o espírito mais baixo são os mais arrogantes e soberbos, da mesma maneira como os mais generosos são os mais modestos e os mais humildes.” (Art. 159) Descartes encerra sua explanação afirmando que as paixões “são todas boas por natureza e que só devemos evitar o seu mau uso ou os seus excessos.” (Art. 211) Não pude evitar pensar novamente: e se Descartes tivesse travado contato com a filosofia sankhya? Como teria influenciado em sua filosofia o conhecimento do conceito hindu de “rajas” (paixão)??? A que alturas ele não teria chegado, partindo já de tão alto??? Imaginar é de graça... (20.09.11) MEDITAÇÕES – Descartes Uma linda aventura do espírito humano! Um homem que eleva a sua consciência beneficia a humanidade inteira. Certamente essa foi uma das melhores leituras que fiz em 2011. É extremamente improvável que René Descartes conhecesse a ciência da Yoga, o que torna a leitura de suas “Meditações” ainda mais impactante. Pois o método proposto pelo filósofo para alcançar a verdade não difere muito em sua essência da prática de meditação iogue: “Fecharei agora os olhos, tamparei meus ouvidos, desviar-me-ei de todos os meus sentidos, apagarei mesmo de meu pensamento todas as imagens de coisas corporais, ou, ao menos, uma vez que mal se pode fazê-lo, reputá-las-ei como vãs e como falsas; e assim, entretendo-me apenas comigo mesmo e considerando o meu interior, empreenderei tornar-me pouco a pouco mais conhecido e mais familiar a mim mesmo.” (Meditação Terceira, parágrafo 1) Ao exercitar a sua dúvida radical (que levou ao célebre “penso logo existo”), Descartes descreve um panorama que qualquer hindu identificaria imediatamente com o conceito de Maya, a Ilusão: “Todavia, há muito que tenho no meu espírito certa opinião de que há um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou. Ora, quem me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo extenso, nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não me pareça existir de maneira diferente daquela que eu vejo?” (Meditação Primeira, parágrafo 8) Só pode ter noção da audaciosa aventura proposta por Descartes aquele que se dispuser a acompanhá-lo. Não é um mero jogo do intelecto, que pode ser feito com segurança em uma confortável poltrona, e sim uma apaixonada busca existencial, onde tudo é colocado em risco, para que o bem maior seja alcançado: a verdade. Duas verdades essenciais E o filósofo emerge de seu profundíssimo mergulho trazendo duas pérolas de valor inquestionável: 1) eu existo 2) Deus existe Ouso afirmar que Descartes alcançou essas verdades não através do puro raciocínio, mas pela sutil intuição. Essa é uma opinião minha, pois em momento algum o filósofo fala de intuição. Mas tenho para mim que ele voltou de sua busca com essas duas certezas da mesma forma que o Iogue retorna de sua meditação carregando essas mesmas brilhantes certezas. Sendo, porém, um filósofo e não um iogue, Descartes escreveu seu livro exercitando a razão em grau máximo, a fim de demonstrar inequivocamente o que seu coração sabia ser a transparente verdade: eu existo e Deus existe! Essas razões e argumentos tão refinados fizeram o deleite dos eruditos ao longo dos séculos, uns defendendo e outros atacando, com maior ou menor habilidade. Mas esses intermináveis debates não apetecem aos sinceros e humildes buscadores da verdade, que contemplam em si mesmos o mesmo que contemplou Descartes. Citações “Sempre estimei que estas duas questões, de Deus e da alma, eram as principais entre as que devem ser demonstradas mais pelas razões da Filosofia que da Teologia: pois, embora nos seja suficiente, a nós outros que somos fiéis, acreditar pela fé que há um Deus e que a alma humana não morre com o corpo, certamente não parece possível poder jamais persuadir os infiéis de religião alguma, nem quase mesmo de qualquer virtude moral, se principalmente não se lhes provarem essas duas coisas pela razão natural.” (introdução) “(...) tudo quanto se pode saber de Deus pode ser demonstrado por razões, as quais não é necessário buscar alhures que em nós mesmos, e as quais só nosso espírito é capaz de nos fornecer.” (introdução) “Mas é possível também que eu seja algo mais do que imagino ser e que todas as perfeições que atribuo à natureza de um Deus estejam de algum modo em mim em potência, embora ainda não se produzam e não façam surgir suas ações.” (Meditação Terceira, parágrafo 28) – mais uma profunda intuição de Descartes que o aproxima da filosofia oriental! “Pois, como a fé nos ensina que a soberana felicidade da outra vida não consiste senão nessa contemplação da Majestade divina, assim perceberemos, desde agora, que semelhante meditação, embora incomparavelmente menos perfeita, nos faz gozar do maior contentamento de que sejamos capazes de sentir nesta vida.” (Meditação Terceira, parágrafo 42) “(...) concluo tão evidentemente a existência de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos de minha vida, que não penso que o espírito humano possa conceber algo com maior evidência e certeza.” (Meditação Quarta, parágrafo 2) Viva Descartes!!! (07.10.11) OBJEÇÕES E RESPOSTAS – Descartes Esse texto consiste no debate entre Descartes e um tal de R. P. Mersenne, que recolheu de diversos teólogos e filósofos argumentos contrários às “Meditações”. Algo que fica logo evidente é a disparidade no nível dos debatedores. Pois as objeções levantadas contra Descartes não são filosóficas, mas apoiam-se na retórica (sofismo), no melhor dos casos, ou mesmo na ignorância pura e simples. Bom exemplo disso é quando Mersenne tenta derrubar a evidência de que Deus existe (porque o maior não pode surgir do menor) afirmando que as moscas surgem do nada! Estava ainda em voga a teoria da geração espontânea... Isso me ensinou uma coisa: é preciso ser um gênio para trazer algo de novo para a humanidade, mas para criticar não é necessário nenhum talento especial, é coisa que qualquer um pode fazer. A leitura foi muito válida por reforçar os conceitos trabalhados por Descartes em suas “Meditações”. Eu, que não estava convencido da validade racional de sua demonstração da existência de Deus, acabei me rendendo incondicionalmente a ela, pois não consegui de modo algum refutá-la. E mais ainda, creio ter encontrado uma evidência empírica para sua prova ontológica no fato de que todas as civilizações humanas conhecidas manifestam em sua cultura algum tipo de relação com o sagrado. Isso sugere que a ideia de Deus está presente na essência do homem. “(...) toda força de meu argumento consiste em que não poderia ocorrer que a faculdade de formar essa ideia existisse em mim, se eu não tivesse sido criado por Deus.” Outra coisa que chama a atenção é a paciência e elegância de Descartes ao rebater os argumentos contrários, mesmo os mais sem noção, e até os potencialmente perigosos, como os que tentam colocar sua filosofia em atrito com as palavras da Bíblia. Mas chega um ponto em que até a paciência de Jó tem limite: “Ora, que há em nós alguma ideia de um ente soberanamente poderoso e perfeito, e também que a realidade objetiva desta ideia não se encontra em nós, nem formal, nem eminentemente, isto tornar-se-á manifesto aos que pensarem seriamente no assunto, e quiserem dar-se ao trabalho de meditá-lo comigo; mas não poderia enfiá-lo à força no espírito dos que lerem as minhas Meditações apenas como um romance, para se desenfadar, e sem lhes prestar grande atenção.” “E não importa que talvez julgue haver demonstrações para provar que Deus não existe; pois, como essas pretensas demonstrações são falsas, é sempre possível dar-lhe a conhecer a sua falsidade; e leva-lo, então, a mudar de opinião.” RAZÕES – Descartes RAZÕES QUE PROVAM A EXISTÊNCIA DE DEUS E A DISTINÇÃO QUE HÁ ENTRE O ESPÍRITO E O CORPO HUMANO DISPOSTAS DE UMA FORMA GEOMÉTRICA O título imponente me fez aguardar com expectativa essa leitura, a célebre demonstração matemática da existência de Deus! Mas não há aqui complexas fórmulas numéricas, nem gráficos mirabolantes. Na verdade, Descartes seguiu apenas a forma de exposição “dos geômetras”, apresentando suas proposições em sequência lógica. Fez isso não por iniciativa própria, mas a pedido dos opositores (e aliados) que queriam ver do que o filósofo era capaz. Em resumo, é isso: “Proposição primeira: A EXISTÊNCIA DE DEUS É CONHECIDA PELA SIMPLES CONSIDERAÇÃO DE SUA NATUREZA” O que somou muito nessa leitura foi afinal perceber o que Descartes tanto repete: essa “conclusão pode ser conhecida sem prova pelos que se acham isentos de todos os prejuízos”. Descartes não “prova” a existência de Deus. Ele demonstra, e quem quiser (e puder) que entenda. “Proposição segunda: A EXISTÊNCIA DE DEUS É DEMONSTRADA POR SEUS EFEITOS, PELO SIMPLES FATO DE SUA IDEIA ESTAR EM NÓS” “Proposição terceira: A EXISTÊNCIA DE DEUS É AINDA DEMONSTRADA PELO FATO DE NÓS PRÓPRIOS, QUE TEMOS EM NÓS A IDEIA DE DEUS, EXISTIRMOS” “Corolário: DEUS CRIOU O CÉU E A TERRA, E TUDO O QUE NELES ESTÁ CONTIDO. E, ALÉM DISSO, PODE FAZER TODAS AS COISAS QUE CONCEBEMOS CLARAMENTE, DA MANEIRA COMO NÓS AS CONCEBEMOS” “Proposição quarta: O ESPÍRITO E O CORPO SÃO REALMENTE DISTINTOS” RESPOSTAS DO AUTOR – Descartes Dessa vez foi um tal de Senhor Gassendi que esbanjou sua retórica para tentar pegar Descartes em alguma contradição. E novamente fica clara a disparidade entre os dois contedores: de um lado a argumentação sofística, do outro o raciocínio filosófico. Eu, que não tenho muita paciência para debates, li pulando as páginas. Já estava saciado. E o próprio Descartes também dá mostras de que não aguentava mais tanta aporrinhação de mentes que se esforçam em destruir o trabalho do outro, mas sem se dar ao trabalho de tentar construir para ver como é que é: “Eis, Senhor, tudo o que creio dever responder ao alentado livro das Instâncias, pois, embora satisfizesse talvez mais aos amigos do autor se refutasse todas as suas instâncias, uma após a outra, creio que não satisfaria tanto aos meus, que teriam ocasião de me repreender por ter despendido tempo em uma coisa tão pouco necessária e por assim tornar senhores de meu lazer todos os que quiserem perder o seu em propor-me questões inúteis. Mas agradeço-vos pelos vossos cuidados. Adeus.” Dá-lhe René!!!! (14.10.11) Comunidade Resenhas Literárias Aproveito para convidar todos a conhecerem a comunidade Resenhas Literárias, um espaço agradável para troca de ideias e experiências sobre livros: . http://www.comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/ * http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=36063717 *

    4 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.3 / 81
    • 5 estrelas49%
    • 4 estrelas28%
    • 3 estrelas22%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%