Isolamento e Poder - Fortaleza e os Campos de Concentração na Seca de 1932

    Kênia Sousa Rios

    Museu do Ceará
    2014
    145 páginas
    4h 50m
    ISBN-10: 8588828545
    Português Brasileiro

    No início do século 20, no Ceará, os poderes públicos estadual e federal criaram campos de concentração para evitar que flagelados famintos fugindo do sertão semi-árido chegassem a Fortaleza. “E você tem visto muito horror no campo de concentração?”, pergunta o sertanejo Vicente a Conceição, personagens do romance O Quinze, da escritora Rachel de Queiroz. Os dois conversam não sobre as prisões nazistas construídas durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, quase três décadas depois. O diálogo diz respeito aos currais erguidos no Ceará pelos governos estadual e federal para isolar os famintos da seca de 1915, considerada uma das mais trágicas de todos os tempos no Nordeste. O objetivo dos campos era evitar que os retirantes alcançassem Fortaleza, trazendo “o caos, a miséria, a moléstia e a sujeira”, como informavam os boletins do poder público à época. Naquele ano, criou-se o campo de concentração (era assim mesmo que se chamava) do Alagadiço, nos arredores da capital cearense, cenário do livro de Rachel, que chegou a juntar 8 mil esfarrapados, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro de 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos. Segundo o historiador Marco Antônio Villa, autor de Vida e Morte no Sertão, durante a seca de 1915 teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migrantes para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semi-árido. O medo das autoridades diante dos flagelados da seca tinha um antecedente. Em 1877, uma leva de cerca de 110 mil famintos saiu dos sertões e tomou as ruas de Fortaleza, assombrando os moradores que viviam a ilusão, importada de Paris, de urbanismo e civilidade. No livro A Fome, o mais consistente relato sobre o cenário de 1877 nas ruas da capital, o cientista e escritor Rodolfo Teófilo assim descreveu o que viu: “A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que te afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! Faz horror! Os que têm rede, vão nela, suja, rota, como se acha; os que não têm, são amarrados de pés e mãos em um comprido pau e assim são levados para a sepultura. E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”.

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    Elineuza Crescencio22/02/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    História da seca de 1932

    #desafiodos100livrosemumano 2024 28/100 Leituras de Fevereiro 2024 – 15 Título: Isolamento e Poder Fortaleza e os Campos de Concentração na Seca de 1932 Autoria: Kênia Sousa Rios País:Brasil - CE Páginas: 145 Editora Museu do Ceará – CE – 2014 Avaliação: 4/5 Início da Leitura: 21/02/2024 Término da leitura: 22/02/2024 Autora É professora do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará. Mestra e Doutora pela PUC de SP. Publicou diversos trabalhos relacionados à História e Memória e História e Museu. Sobre o livro É um estudo sobre a seca de 1932 e o flagelo de seu rigor trazendo miséria e migração dos sertanejos para a capital. Chegavam em multidões provocando medo aos habitantes da capital. O desemprego e a fome provocavam tumultos e vandalismos. A solução do governo de então foi afastar toda essa gente da cidade criando locais onde eles pudessem se acomodar e ao mesmo tempo prestarem serviços para a cidade, prefeituras e propriedades particulares. O tratamento recebido porém, era desumano e as “vítimas” da seca recusavam-se à submissão dos administradores dos campos de recolhimento. O mecanismo de servidão era perverso. Subempregados e subalimentados acabavam por cometerem delitos indesejáveis aos olhos dos superiores e da Igreja. O estudo é bem fundamentado e há uma vasta documentação registrada. Para amantes de História vale a leitura, para quem quer conhecer mais sobre as agruras da seca e seus efeitos na pessoa e condição da sociedade, vale a leitura..

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