Este é, talvez, o melhor livro que li em anos. Não importa o quanto eu tente resenhá-o, descrevê-lo, nada que eu faça dará conta da densidade filosófica, poética e psicanalítica dos textos magistrais de Laing. Em A Política da Experiência e a Ave do Paraíso, escutei atentamente ao chamado do autor para que eu voltasse a mim mesma, potencialmente desalienada, e revisitar meus próprios conceitos de loucura e sanidade. Fui - quase - obrigada a ver que o que eu outrora chamava de sanidade era, afinal, minha mais disfarçada loucura.
Nesta profunda meditação sobre a condição humana, fui introduzida ao abismo que existe entre a experiência e o comportamento, entre o que se sente e o que se mostra, denunciando a alienação como eixo central de nossa existência e realidade social. Aquilo que vulgarmente chamamos de normalidade não se trata de saúde, mas sim, a mais insidiosa forma de adoecimento coletivo análogo a um estado de sono psíquico, reforçado por mecanismos de defesa que nos afastam de nós mesmos.
Desse modo, somos abismos em interação com outros abismos. A intersubjetividade torna-se, então, um campo de projeções, fantasias e infindáveis suposições. O eu nunca vê o outro em sua inteireza, apenas a imagem que dele fabrica. A experiência do outro é inacessível para mim (como a minha é para o outro), e ainda assim molda o meu comportamento. Essa tensão funda um paradoxo onde, embora não possamos acessar a experiência alheia, experienciamos o outro como experienciando. O vínculo humano se instala nessa zona incerta, onde o invisível do outro encontra o invisível em nós.
A fantasia, longe de ser uma distorção da realidade, é descrita pelo autor como uma modalidade legítima de experiência. É o modo primitivo pelo qual sentimos o mundo e que nos acompanhará por toda a experiência subsequente. Quando reprimimos, disfarçamos ou patologizamos (Laing é um crítico ferrenho da psiquiatria!), a fantasia não desaparece, apenas assume a modalidade inconsciente e, como tal, continua a operar silenciosamente nos gestos e nas palavras. A realidade que aceitamos como objetiva revela-se tão fantasiosa quanto qualquer delírio, uma vez que é comportada por convenções, normas e é atravessada por estruturas de poder.
Sob esse viés, o homem dito normal é aquele que se ajusta à sociedade ao custo de sua própria inteireza. A alienação existe quando nós deixamos de agir a partir de nossa experiência e passamos a viver segundo papéis impostos, identificações falsas e desejos que são do outro. Laing brilhantemente escreveu: O que chamamos de "normal" é um produto de repressão, negação, cisão, projeção, introjeção e outras formas de ação destrutiva sobre a experiência. Está radicalmente separado da estrutura do ser.
Por fim, o livro é marcado por uma visão radical da responsabilidade. Recuperar-se é recuperar a autoria sobre a própria história. A dissociação é uma forma de sobrevivência, mas também de empobrecimento. Enquanto permanecermos em estado de clivagem, invadidos por esse ou outros mecanismos impessoais, estaremos incapacitados de amar, criar e transformar-nos uns aos outros.
Vi a ave do paraíso, que se abriu diante de mim e jamais voltarei a ser o mesmo. Eis o vislumbre de uma verdade que não se apreende, mas que, ainda assim, tem o poder de transformar. Uma graça que escapa, mas que muda para sempre quem a testemunha. Tal como eu me permiti ser transformada por esse livro.