Romance.
Cristal -
Wilson Bueno
Literatura do olhar. Romance da vertigem comichando entre palavras. Palavras a dedo. A observação que faz do olhar atento, um exercício diário, se entrincheira pela ficcionalização do não dito, do inalcançável. A velha, em seu protagonismo solitário acompanhado de suas suposições e opiniões, é observada por nós. Ela olha, nós a olhamos. A capacidade projetiva de suas elucubrações, se dá pela translucidez da janela. Ou melhor, do cristal envidraçado. O cristal que permite a ideia e a companhia, também multiplica as imagens vistas, aumentando-as, tremelicando-as. A sua velhice parece não ter malfadado seus sentidos, afinal, escuta com uma precisão invejável Se a janela fecha, a história cessa. Vive sozinha, mas se projeta na vizinhança. Esse zigue-zague, essas serpentinas lapidadas pela linguagem, são também pormenorizadas no trato de cada cena. Ao se desafiar enquanto literato, Bueno desafia a nós, leitores. A Velha trama, Bueno trama, nós tramamos. Tecelões em dimensões distintas. A literatura, esse absoluto delírio, como dizia nosso Bueno, permite essa multiplicidade inventiva (de invenção-ficção, também) das mais diferentes cenas. Se aconteceu ou não, pouco importa. São capazes de extasiar, anestesiar, colocar em dúvida nossa própria imaginação. Num imbricamento entre passado (a memória tão fugaz), presente (aquilo que nos olha) e o futuro (a projeção contundente), o tempo se dilata, permite que se inquira um passo além. Além do que foi, além do que é, além do que virá a ser. Se um parágrafo pode conter diferentes tempos, o que dizer de todo o livro? Desse emaranhado de fios que se desenrolam para em seguida enrolar-se de novo e de novo. E de novo. Nós vimos e (ela) também: Isso tudo a Velha viu rente à persiana da sala, naquela tarde de mil novecentos e setenta e seis, ela que era uma velha alta e imperiosa, e que não se casara nunca e nem tivera filhos.
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