Em 1940, Carson McCullers escrevia Reflexos num olho dourado quando conheceu Annemarie Schwarzenbach, por quem se apaixonou de modo duradouro e obsessivo, apesar de ter sido cruelmente rejeitada pela jornalista e arqueóloga suíça. A ela dedicou esse seu romance, publicado no ano seguinte que, coincidentemente, trata de um desejo homossexual arrebatador e perturbado, e não-correspondido, de um oficial do Exército de meia-idade por um jovem e taciturno soldado raso. Embora tenha tido, à época, uma reação morna da crítica, em comparação à sua obra-prima O coração é um caçador solitário, Reflexos num olho dourado é outro exemplo expressivo do dom raro de McCullers em vasculhar os recônditos insuspeitos da interioridade, num modo inquietante que faz dela, ao lado de William Faulkner, Truman Capote e Flannery O'Connor, um nome essencial do chamado gótico americano (sobre o qual já falei por aqui, brevemente, na resenha sobre Um homem bom é difícil de encontrar).
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Há uma cena no romance que sintetiza de forma alegórica seu enredo: nela, Firebird, o alazão da esposa que o capitão Penderton tenta, em vão, domar (a ambos, mulher e cavalo), de modo a resguardar sua masculinidade ultrajada pelos impulsos homoeróticos, arranca em uma corrida desembestada e homicida; enquanto isso, do alto da sela o capitão experimenta, simultaneamente, os sentimentos de mais puro pavor e mais exacerbado êxtase, a transfiguração de sua orientação sexual recalcada: "E, tendo desistido da vida, o capitão de repente começou a viver. Uma grande e louca alegria cresceu através dele. Esta emoção, vinda tão inesperadamente quanto o mergulho do cavalo ao desembestada, era de um tipo que o capitão jamais experimentara. Seus olhos estavam vidrados e meio abertos, como num delírio; mas, de repente, ele viu como jamais vira."
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Sendo uma expoente do gótico americano da primeira metade do século XX, há na escrita de McCullers esse predomínio das paixões e instintos mais sombrios na psique de suas personagens. No entanto, há também um traço nessa autora que mais dificilmente encontramos, por exemplo, em O'Connor: uma humanização das misérias humanas, que relativiza os vícios, taras e brutalidades. Suas criaturas ficcionais parecem ser sempre, de alguma forma, atravessadas pela comiseração e empatia de sua criadora. Lembremos que em O coração é um caçador solitário ela consegue tratar com extrema delicadeza um tema tabu, que é a pedofilia, o que faz de Biff Brannon uma personagem verdadeiramente comovente. Em Reflexos num olho dourado não é diferente, e a polarização idealizada entre bem e mal, inocência e culpa, tão cara ao imaginário cristão, é definitivamente borrada, desmistificada.