Afirmo com toda a convicção que “Estátuas de Sal” foi um dos melhores romances nacionais que tive o prazer de ler neste ano de 2010. André Cardinali, sem dúvida alguma, se consagrou para mim como uma das maiores promessas literárias nacionais com este livro, que me conquistou logo em suas primeiras quatro páginas.
Sabe aquele tipo de livro que você abre, lê um trecho e fala “isso aqui é bom demais”? Foi exatamente o que se passou entre “Estátuas de Sal” e eu. Após muito ouvir falar, recebi um exemplar do André e parti para a leitura ansiosa para desvendar por conta própria os mistérios do livro. O que são, afinal, as estátuas de sal? Levados à uma reflexão sobre o papel de Deus, das religiões e do futuro da humanidade, acabamos cercados por uma série de referências religiosas, populares e intelectuais, que vão de Nietzsche à “Alice no País das Maravilhas”. Assim como a criação de Lewis Carroll, a Alice protagonista de “Estátuas de Sal” mergulha em um mundo desconhecido e surpreendente, repleto de mistérios e surpresas nem sempre agradáveis a cada esquina.
Após a destruição da cidade de São Paulo por um terremoto, os escombros da cidade tornaram-se uma recordação de tudo aquilo que deveria ser esquecido: uma cidade engolida e devastada pelos seus pecados, com habitantes que haviam virado suas costas a Deus e ao caminho de justiça indicado pelo Senhor. O jovem casal Pedro e Mariana, após se envolver no assassinato de um pastor, é apontado como o catalisador da destruição da cidade; representações do mal e da deturpação moral que havia dominado os habitantes da cidade que se relaciona às antigas cidades de Sodoma e Gomorra.
Tentando investigar o suposto suicídio de seu pai, Alberto Villela, a jovem Alice segue buscas e descobre a chamada Ordem das Almas Libertas, grupo que intenta levar a verdadeira mensagem sobre Deus às pessoas através de intrincadas pistas. “Enxergar além dos olhos”, instrução repetida diversas vezes ao longo do livro, é quase como uma palavra de ordem neste maravilhoso romance: trata-se de enxergar além das concepções humanas, das limitações da nossa mente e dos nossos preconceitos. A realidade, assim como uma imagem refletida em um espelho, nunca é exatamente aquilo que vemos.
Como centro cultural e financeiro do país, a cidade de São Paulo ocupa o papel representativo de fonte de tudo o que é perverso, egoísta e mesquinho no mundo atual. É muito interessante ver descrições de fugas, perseguições e a simples luta pela sobrevivência em ruas bem conhecidas por muitos de nós, como a Avenida Paulista ou a Avenida Brigadeiro Faria Lima.
Em meio a seitas secretas, enigmas, anjos caídos, profecias bíblicas, nefilins e passagens dos livros sagrados das chamadas “religiões do livro” (islamismo, judaísmo e cristianismo), acompanhamos a jornada de Alice em meio ao caos e a destruição. Para além do fanatismo, somos inclinados a pensar sobre o sentido da vida, do amor e das relações pessoais. O ritmo, no entanto, é frenético. A sensação de isolamento, dúvida e desnorteamento que nossa protagonista sente nos acompanha a cada página, e o surgimento de novos personagens na trama se dá de forma surpreendente. Os sobreviventes, o casal Pedro e Mariana, a misteriosa menina de azul, os sacerdotes de manto vermelho… todos eles exercem uma função integradora à trama, como complementos de um quebra-cabeça maior, que é a destruição de uma das maiores cidades do mundo a custa de seus pecados. Com uma escrita bem elaborada e cativante, torna-se impossível largar o livro até nos depararmos com seus últimos acontecimentos.
Pode existir um Deus negligente? Somos governados por um Deus de guerra e temor, de dor e medo? Deus está realmente morto? Seria Ele apenas uma invenção humana? Com um final libertador e imaginativo, “Estátuas de Sal” nos lança perguntas fundamentais nestes tempos tão conturbados e descrentes. Com uma abordagem nova e muito bem construída sobre o poder das religiões, da crença e do livre arbítrio humano, é leitura mais que recomendada para todos os interessados na reflexão sobre a humanidade e suas criações.
>> Resenha postada originalmente em www.up-brasil.com