Tudo pela barganha
Hirayama Togo, mais conhecido no Japão por seu pen name, Ihara Saikaku, foi um grande comerciante do período Edo. Grande coisa, todo mundo era um grande comerciante no período Edo. A grande jogada - se é que assim se pode dizer – foi que Ihara deixou de lado seus afazeres profissionais para se dedicar à escrita. Não, também não é isso. Bem, detalhando um pouco mais: Ihara Saikaku nascera na próspera Osaka do século XVII, filho de comerciantes e filho de peixe, peixinho é. Já aos quinze anos, despontava nele o apego aos escritos. Costumava compor renga – haikai encadeados – com grande habilidade e o melhor, em assombrosa quantidade. Muitos anos mais tarde casou-se, mas foi amaldiçoado pelo destino com a morte de sua esposa. Essa tragédia fez com que ele se entregasse ao pincel e chegasse à incrível marca de 16 mil haikai em 24 horas, o que é contestado por algumas pessoas, que dizem que teriam sido, na verdade, 23 mil. Haikai são curtos e fáceis, você pode argumentar. Pois bem, vá lá. Escreva o que puder em 24 horas. Você não vai passar da marca dos cem mesmo... Bem, retomando. A grande sacada de Saikaku foi ele ter se tornado um escritor do povo, que escrevia para o povo, sobre o povo. Nada de novo? Agora, talvez, não, mas naquele Japão em que os nobres eram os detentores das artes literárias e o povo não era tão letrado quanto se poderia imaginar, quem arriscaria deixar de lado um emprego estável no comércio para empunhar um pincel e escrever sobre os amores homossexuais de samurais, as desventuras eróticas de mulheres comuns e o cotidiano de homens de negócios de uma grande cidade japonesa? Saikaku se arriscou e conseguiu atingir a fama imortal. This Scheming World foi escrito em 1692, um ano antes de sua morte. O livro é a compilação de vários casos que ele teria ouvido de outras pessoas em seus anos de peregrinação por várias localidades nipônicas. O livro trata basicamente do julgamento que as pessoas daquele tempo tinham sobre assuntos financeiros: como lucrar mais, como gastar menos, como passar a perna nos outro quando possível, como não ser enganado pelos outros, e por aí vai. Como obra literária, acredito que seu valor esteja nas descrições dos homens do povo, na maneira de pensar do cidadão comum, e nas descrições de vários dos costumes de então, muitos deles já esquecidos ou mudados com o passar dos séculos.
