Ouço falar sobre este “Vita Sexualis”, de Mori Ogai, desde que comecei a estudar japonês e bem lá se vão alguns anos. A verdade é que eu sempre evitei contato com a obra por dois motivos bastante claros para mim: primeiro, não tenho muito interesse por relatos escritos de aventuras sexuais, memórias do tempo em que o autor pegava mais de três mulheres ao mesmo e era cortejado por todas as mulheres de sua cidade como um deus do coito e outras mentiras infalsificáveis. Ou seja, não gosto muito de literatura erótica. Segundo, tinha bastante receio de acabar tendo que encarar um daqueles “clássicos” da literatura de um país, ou seja, em bom português, um livro extremamente entediante, com vocabulário pomposo e de mais de um século de idade, em uma história sem muito a oferecer. Enganei-me.
Em 1909, ano da publicação de ViTa Sexualis, Ogai já era um renomado escritor do período de transição entre Edo e Meiji (e sendo, junto com Natsume Soseki, um dos criadores da literatura moderna japonesa), tendo publicado com enorme sucesso Maihime (The Dancing Girl, muito interessante, mas ainda sem tradução para o português) e Utakata no ki (Foam on the waves, igualmente sem tradução). Anos mais tarde sairiam Gan (O Ganso Selvagem, uma nova e brilhante tradução bilíngüe) e Sansho Dayu (Sansho, the Steward, sem tradução), entre outros.
Vita Sexualis conta o desenvolvimento da maturidade sexual de um certo Shizuka Kanai, um professor de filosofia de Tóquio, durante dezenove anos de sua vida. O livro inteiro não possui o menor vestígio de pornografia – aliás, não tem o menor perfume de erotismo fluindo de suas páginas. Por vezes chega mesmo a ser inocente, risível, o tipo de relato que um menino de doze anos leria sem entender de que se trata.
Mesmo assim, Ogai, na voz de Shizuka Kanai, relata os momentos do desabrochar para o sexo com clareza de pensamento e interessantes análises de situação e de carga cultural.
Bom para a compreensão das noções de sexualidade, erotismo e virgindade dos japoneses do séculos retrasado, assim como é um bom quadro da cultura metropolitana da Tóquio de cento e cinqüenta anos atrás.