Conhecem Hellraiser, clássico oitentista do cinema de horror? Aquele do cubo mágico que serve de portal à dimensão demoníaca dos famigerados cenobitas, experimentalistas do sadomasoquismo, “demônios para alguns, anjos para outros”. O filme é baseado na obra do britânico Clive Barker, adaptado e dirigido por ele mesmo. Quando eu era moleque adorava aquela nojeira do cara em carne viva se recuperando aos poucos com os sacrifícios que a ex-amante trazia, as paredes se abrindo com luzes e fumaça e trazendo cenas de tortura e monstros horripilantes.
Imajica é a obra mais ambiciosa do Barker, com quase novecentas páginas e sem escassez de cenas delirantes e temas metafísicos. Recomendo para quem gosta de fantasia e magia, mas não recomendo para quem tem frescura ou pudor, pois é literatura fantástica com boas pitadas de horror grotesco e descrições sexuais. O livro conta a jornada de Gentle, um falsário hedonista com passado nebuloso, em busca de uma resposta fundamental à morte e à própria existência ao longo da Terra e de outros mundos. A Terra num plano mais amplo é apenas um dentre cinco Domínios que juntos compõem o que se chama Imajica. Aqui no Quinto Domínio o apego à terra e ao material levaram ao fenecimento da magia que ainda circula nos outros quatro Domínios e à separação do nosso mundo. Se no Quinto Domínio os humanos se isolam com seu materialismo, no Primeiro Domínio se isola Hapexamendios, o não contemplado, ou Deus, revelado apenas no final da jornada. Nos outros três domínios há toda uma gama de seres governados por um autarca genocida.
Barker se arrisca em alguns temas difíceis. Atração sexual é abordada de uma forma muito sincera e sem presunção de certo ou errado. O protagonista encontra o amor numa criatura andrógina que tem a habilidade de transmutar-se fisicamente de acordo com o desejo do parceiro, o sonho de todo hedonista. Jesus Cristo é outro transfigurador ilustre e volta e meia é lembrado pelo texto, mas gostei mais da transfiguração metafórica do Gentle que engloba o mundo como alternativa ao materialismo na tentativa de reconciliar diversas culturas. Dá um pouco mais de esperança do que a transfiguração do corpo de Hapexamendios, desprovida de relações interpessoais, desfigurada e, em última instância, podre. O homem mata Deus ou, ainda melhor, as mulheres matam Deus, porque Barker também aborda questões de gênero. Para ele as mulheres tem tanto ou mais potencial para um poder criador.
O livro todo é pontuado por descrições de mundos fervilhando de raças estranhas, cores e conflitos, mundos putrefatos, sexo bizarro de humano com não-humano, não-humano com não-humano ou remetendo a canibalismo e pelo menos três alusões a estupros. Pode parecer pesado, mas é tudo muito agradável de ler, com personagens com motivações decentes, um bom desenvolvimento de temas espinhosos e um baita final satisfatório.