Filosofia da caixa preta - Ensaios para uma futura filosofia da fotografia

    Vilém Flusser

    Hucitec
    1985
    92 páginas
    3h 4m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    "Filosofia da Caixa Preta - Ensaios para uma futura filosofia da fotografia" é uma obra do filósofo Vilém Flusser, escrita em 1983, na qual o autor busca formular uma teoria filosófica que explique a fotografia. A obra é dividida em nove capítulos intitulados "A imagem", "A imagem técnica", "O aparelho", "O gesto de fotografar", "A fotografia", "A distribuição da fotografia", "A recepção da fotografia", "O universo fotográfico" e "A necessidade de uma filosofia da fotografia". Flusser não se limita à fotografia mas recorre a ela para explicar relações fundamentais entre humanos e entre humanos e aparelhos na Pós-História. Ele parte da hipótese segundo a qual a invenção das imagens técnicas inaugurou um novo modo de ser (Pós-História) assim como a invenção da escrita inaugura a História: "(...) seria possível observar duas revoluções fundamentais na estrutura da cultura, tal como se apresenta, de sua origem até hoje. A primeira ocorreu aproximadamente em meados do segundo milênio a.C., pode ser captada sob o rótulo "invenção da escrita linear" e inaugura a História propriamente dita; a segunda, que ocorre atualmente, pode ser captada sob o rótulo "invenção das imagens técnicas" e inaugura um modo de ser ainda dificilmente definível".

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    Diego Caldas Chaves16/12/2012Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um filosofia da sociedade pós-industrial

    Vilém-Flusser, neste seu ensaio, levanta diversas questões inquietantes, levando a problematizar se em nossa sociedade atual, o paradigma do materialismo histórico e das classes sociais definidas a partir da propriedade, sãi ainda suficientes para compreendê-la. A fotografia é o exemplo que ele utiliza, seu valor não está mais no papel que a contém, a propriedade, neste caso, possui um valor irrisório, pois o valor está na informação que tal objeto comporta. Flusser vai brincando com os vários conceitos, embora use a máquina fotográfica como suporte de suas brincadeiras, transcende-a e leva sua análise para praticamente todos os aparelhos modernos da sociedade pós-industrial. São caixas-pretas, no sentido em que para cumprirem sua função possuem um sistema embarcado que não precisa ser conhecido pelo "funcionário", este precisa apenas saber aquilo que em informática chamamos de interface, as funções que pode utilizar, as classes de inputs e de outputs. Tal tecnologia é programada de acordo com o sistema industrial que a comporta, que por sua vez é programado pelo sistema econômico e assim ad infinitum. A pessoa que interage com a câmera, tem sua ação limitada por aquela caixa-preta e precisa jogar com o aparelho para lhe entender as regras, para realizar os potenciais outputs, tal jogo é diferente da relação de trabalho que possuia com os instrumentos, que estavam dispostos ao seu redor e que ele poderia se servir deles durante seu trabalho, pois os aparelhos modernos trazem em si programado boa parte do trabalho que outrora era realizado pelo homem, agora a pessoa precisa girar em torno do aparelho, entender como se comportar, para poder lhe utilizar. Ao invés de pinceis, de escolher as tintas, de compor a imagem, basta entender os conceitos da máquina fotográfica, a entrada de luz, as possibilidade de filtro, de velocidade, como construir uma cena dentro de um quadro, etc. Aquela fotografia produzida, é ontologicamente diferente das imagens existentes antes dela. As imagens até então eram representações mágicas de mundo, que para serem desmagicizadas precisavam ser conceituadas, servindo assim de base para a codificação de um texto que lhe explicasse. A fotografia no entanto, é antecedida de conceitos que são utilizados para lhe construir, ou seja, é uma "imagem de segundo grau" e a imagem que produz é condicionada por tais conceitos, remagicizando a realidade. A mágica é entendida como uma forma de leitura do eterno retorno, de olhar e reolhar a imagem, encontrando outros significados, outros pontos de vista, etc. A desmagicização é a leitura linear, passo a passo, racional, etc. Enfim, ao meu ver, o ponto principal da obra é uma questão epistemológica, buscando compreender como esta forma moderna de construção dos aparelhos afetou a relação do homem com sua realidade, o homem se deslocando do papel de operário/proprietário, para funcionário/programador e como isso afeta a forma do homem compreender e se situar no mundo, provocando questionamentos que nos ajudem a encontrar uma forma de criticar tal sociedade, sem deixarmos de entender se os produtos de tais aparelhos são neutros e se o funcionário é um ser livre, que age como bem entende, ou é quanto mais livre se sente, mais escravo é de seu ofício.

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