Um dos principais sociólogos até hoje pesquisando violência no Brasil também escreveu academicamente sobre minorias gays. Não é nenhuma surpresa que estou falando de Michel Misse e seu “o estigma do passivo sexual”, um clássico de 1979.
Mas o que me chocou foi a apresentação da terceira edição deste livro (de 2007).
Nela, o antropólogo Peter Fry (contemporâneo do autor na unicamp) fala de si e de Michel misse como raros autores que escaparam a uma tal hegemonia marxista das universidades nos anos 70 que, junto à ditatadura militar, teria tentado impedir estudos sobre gênero, sexo e raça.
…Há muitas maneiras de dizer que na virada dos anos 80 estudos culturais começaram a disputar espaço com uma anterior maioria de estudos econômicos e sobre grandes estruturas. Só que equiparar a ditadura à uma suposta onipresença marxista acadêmica talvez não seja a melhor delas!
Sei que Fry tentou se queixar do que poucos anos depois ele chamou em entrevistas (revista do núcleo de antropologia urbana da usp) de “marxismo vulgar”. Ou seja, de preconceituosos/as que relegavam as questões das minorias a assuntos de menor importância, recebendo por isso críticas de feministas, mulheres, negras, etc.
Mas achei estranho e fico feliz que o próprio Michel Misse, que é marxista, não embarque nesses exagero. Pelo contrário, logo na página seguinte ele alertou leitores para as inúmeras limitações deste trabalho reeditado sem alterações.
Essa é a vantagem de lermos os originais mesmo que precisem de contextualização.