Vários leitores estão me pedindo. Então postarei a resenha do Dr. Edison Minami, aqui no skoob, que é Doutor em História Social pela USP e que gentilmente, após ler o livro, me enviou. Um cordial abraço a todos, Ana Paula Bergamasco.
O presente livro é a estréia de Ana Paula no universo da literatura. Ela já havia produzido obras para a sua especialidade, o direito, o que de forma nenhuma desmerece a presente obra. Pelo contrário, sentimos que a clareza na exposição das idéias, a linguagem ao mesmo tempo fácil e precisa são indubitavelmente fruto dos anos circulando no universo dos fóruns e tribunais.
Quando comecei a leitura da obra, confesso que pensei estar diante de mais uma obra que procurava romancear sobre um tema já clichê no universo da cultura: a Shoah – o Holocausto Judaico ocorrido na Europa sob o controle nazista. Mas a leitura das primeiras páginas demonstrava o cuidado da autora em descrever o universo em que seus personagens se moviam: os nomes populares de casas, quartos, vilas, os pronomes de tratamento usados por poloneses, judeus, alemães, imediatamente nos revelam os anos de pesquisa da autora para poder penetrar esse universo tão distante do nosso.
Proponho aqui uma análise da obra por dois caminhos distintos que em maior ou menor proporção irão nos ajudar a compreender a obra por caminhos paralelos, mas que irão se encontrar no final: histórica e teológica-moral.
Poderia dizer que Ana Paula se valeu de um dos meios mais nobres para retratar uma das épocas mais tumultuadas da história recente mundial, embora nos dias de hoje já existam meios pouco usuais para narrativas históricas. Além de filmes (Roman Polanski, O pianista; A lista de Schindler, de Steven Spielberg) cito aqui Hadashi no Gen de Kenji Nakazawa e Maus de Art Spiegelman. Se o romance de Ana Paula choca com as descrições de privações, fome, torturas e morte, nas obras acima citadas os autores para narrar os episódios de Hiroshima (Nakazawa) e o Holocausto judeu (o pai de Spiegelman), usaram recursos “infantilizantes” para tentar amenizar a crueza dos fatos narrados.
Ana Paula utilizou o romance em primeira pessoa para contar a vida de Irena, uma jovem camponesa polonesa que se apaixona por Jacob, um judeu que vive perto de sua aldeia. É a partir desse amor impossível que se desenrola toda a trama. Impossível por que não é permitido a uma não judia desposar um judeu, sob a pena de exclusão da comunidade e ruptura da linha de ascendência pelo lado materno, elemento essencial para a manutenção do judaísmo tanto como raça quanto como religião. Tanto mais grave se lembrarmos que as comunidades descritas no romance eram as Askenazis, mais conservadoras com relação à miscigenação do que as comunidades Sefaradis, originárias da península ibérica (Portugal e Espanha) e mais espalhadas pelo mundo.
O cenário não poderia ser mais problemático: a Polônia do Entre Guerras (1914-1918 – 1939-1945) disputadas pelas mais diversas potências européias da época. De um lado a Alemanha nazista, com seu corolário de racismo e violência, e de outro a antiga União Soviética, com a agressiva política expansionista de Stálin. Aqui reside um dos elementos mais saborosos do livro: a veracidade dos fatos narrados.
Ana Paula nos faz passear ao longo das numerosas páginas do livro por alguns dos acontecimentos mais dolorosos do séc. XX: as deportações dos armênios, os Gulags soviéticos, o massacre de Nanquim, o massacre de Katín, os campos de extermínio nazistas, o bombardeio de Dresden, e muito mais. A personagem Irena personifica o nosso pasmo diante de tanta bestialidade ao longo do século da tecnologia e do bem estar. A autora se coloca eqüidistante de dois extremos: a demonização plena dos alemães e a deificação dos aliados.
Pelo contrário, em momentos diversos do texto a autora aponta falhas na ação dos aliados, embora seu grande alvo sejam os regimes políticos totalitários. Ana Paula descreve com precisão o papel dos mais diferentes grupos naqueles anos de guerra: as delações russas de parentes e amigos para os Centros de reeducação, a oposição pacífica de Testemunhas de Jeová e de muitos cristãos ao nazismo e ao comunismo, mostrando como muitas pessoas de bem não se calaram diante da injustiça.
Já pensando de um ponto de vista teológico-moral o livro de Ana Paula nos provoca com uma série de questionamentos: como entender o fenômeno dos totalitarismos no século XX? Porque pessoas cultas e refinadas se deixaram levar pelo ambiente dominante e endossaram extermínios em massa em nome de ideologias como o Nazismo e o Comunismo? Ao longo da leitura do livro Ana Paula nos coloca mais e mais questionamentos: por que existe o mal? Como Deus permite que Gulags, Campos de concentração, paredões, câmaras de tortura tenham existido e continuem a existir? Porque o racismo, o ódio, a indiferença ao sofrimento alheio e o egoísmo?
Logo no início do livro Irena se questiona sobre isso:
“(...) como convencer as pessoas que não podemos julgar um povo inteiro pelo seu governo? De outro lado, seria justo inocentá-los de vez? E os que participaram dos atos de terror?”[2].
Uma possível resposta é a crítica que Ana Paula faz ao materialismo em seu livro em especial as páginas 276-277. Ela ataca a falta de espiritualidade das pessoas como origem de muitos males modernos, que tentariam ser sufocados com modas e bens materiais. E, neste materialismo, tudo o que eventualmente atrapalhe essa busca de bem estar deveria ser eliminada, inclusive fisicamente.
Aqui é possível ver o diálogo de Ana Paula com Hannah Arendt e sua teoria da banalização do mal. Para a famosa pensadora o drama de sociedades onde a permissividade domina através de relativismo moral, corrupção e violência, o mal passa a ser encarado como algo normal, um bem, que as leis deveriam garantir. Entendido assim, o totalitarismo estaria justificado por ser a vontade de uma maioria.
Por fim, devo falar do espírito irênico nas relações pessoais e mesmo amorosas da personagem Irena. Irena desde a mais tenra idade se relacionou com pessoas diferentes do seu universo de origem: judeus, alemães, russos, e também homossexuais, comunistas, fascistas. Chega a ser comovente o espírito realmente ecumênico de suas relações pessoais e de suas convicções. O espírito aberto de Irena é demonstrado sucessivamente ao longo do livro através de sua família, seu esposo e seus filhos. Mais importante que as diferenças é a unidade familiar, que deve pautar nossas ações.
Aqui Ana Paula discretamente nos dá uma das chaves para encontrarmos as respostas para o enigma do mal: o respeito pelas diferenças, o amor pelos outros, mesmo que sejam os nossos inimigos! Aqui destaco a paixão dúbia de Irena pelo comandante do campo, que ao mesmo tempo protegia seus filhos e ela do extermínio, mas não impedia maus tratos e até mesmo tentativas de homicídio. Como explicar essa incongruência? Seria Síndrome de Estocolmo, a compaixão de seqüestrados pelos seus seqüestradores? Ou mero oportunismo para não morrer como mais uma prisioneira?
Aqui transparece o caráter moral de Irena. Ela se compadece das incongruências de seus mais encarniçados inimigos, chegando a se deixar apaixonar por eles. Ana Paula quer dizer que devemos perdoar sempre nossos adversários, por piores que eles nos tratem ou deixem de tratar. O mal não deve ser pago com mal, a vida em todas as suas formas é mais valiosa que a morte. Por exemplo, Irena em nenhum momento pensa em abortar o filho que teve no campo, mas em como sobreviver aos maus tratos.
Essa seria a chave argumentativa e interpretativa de Apátrida: o enigma do mal no séc. XX, o século da Era do desastre segundo o historiador Eric Hobsbawn em seu livro Era dos Extremos, é na verdade o enigma da fomes peccati, a fome de pecar, ou seja, de cometer males a si e aos outros. Porque grandes líderes políticos, intelectualizados ao extremo, permitiram – e continuam a permitir! – atrocidades em nome de um bem maior para o povo, o partido, a humanidade, etc. Aqui Apátrida serve de comparação ao livro Memória e identidade do Papa João Paulo II, ele também um polonês sobrevivente do nazismo e do comunismo.
A concórdia entre os homens não se encontrará nem no liberalismo nem no comunismo, nem na pobreza ou na riqueza, no ateísmo militante ou no dogmatismo estrito, mas no respeito às diferenças e aos diferentes sem abrir mão de convicções religiosas e morais. A firmeza moral de Irena acena para esta direção, assim como as inumeráveis pessoas que, ao longo de anos de cativeiro, sacrificaram-se gratuitamente para que ela e sua família sobrevivessem e emigrassem para o Brasil.
A moral pautando a vida cotidiana e política de uma nação, de um povo, de uma raça. Não uma moral qualquer, mas A Moral. Eis a mensagem final do livro de Ana Paula Bergamasco.
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[1] Edison Minami é Doutor em História Social pelo DH-FFLCH-USP.
O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq-Brasil.
[2] p. 09.