O livro do Gustavo Franco, Cartas a um jovem economista (2022), tem um objetivo bem claro: apresentar o mundo de um economista e o que ele pode fazer ao se tornar um. Nesse sentido, o autor alcança muito bem o seu objetivo. Franco aqui, conta sua trajetória como economista, de estudante a participante do plano real e além. Da vida privada a vida pública. Das salas de aula à Brasília e de lá para o mercado financeiro. As possibilidades são inúmeras e ele deixa claro isso.
No entanto, é preciso saber que, quando se fala de economia, não há consenso em quase nada. Gustavo também deixa isso bastante evidente, uma vez que ele é liberal e constantemente critica a esquerda de forma sutil e discreta. Seu principal alvo com certeza é Maria da Conceição Tavares. Ele a cita tantas vezes que fácilmente de perde as contas.
Outro detalhe, que me parece ser o mais interessante do livro, é quantidade de pessoas citadas. Foram 193 pessoas entre economistas clássicos como Adam Smith e John M. Keynes, até economista que ganharam o Nobel em 2024, como Daron Acemoglu e James A. Robinson. Mas não só de economistas é feita essa lista. Nela também tem nomes de filosófos como Francis Bacon, Pitágoras, Shakespeare, Machado de Assis, Lula, Trump, Getúlio Vargas, Míriam Leitão. Enfim, muita gente mesmo, das mais diversas áreas.
Sob esse aspecto, o livro fica muito interessante, uma vez que ao pesquisar sobre tantos e tantos nomes, você certamente irá conhecer um pouco mais de história, seja do nosso país, seja do mundo. Isso, claro, não é por acaso. Gustavo Franco tem por espacialidade uma área que muitas vezes acaba sendo escanteada nas universidades ou mal vista pelos próprios alunos: História Econômica. Aqui, Gustavo Franco não nos permite cair no esquecimento da importância que tem conhecer o seu passado. Ele, por saber o que já havia ocorrido no passado, poderia trazer os remédios do passado ou pelo menos não tomar seus venenos.
A parte mais gostosa desse livro é ele contando a trajetória do plano real. Senti falta de mais detalhamento sobre o plano dos pais do Real, Pérsio Arida e Lara Resende, ficou parecendo que o próprio Gustavo Franco pensou muito mais no plano do que esses dois, o que, na graduação descobrimos que não é bem por aí. Pérsio Arida e Lara Resende participaram ativamente do novo modelo. Eles idealizaram o plano real, a base utilizada para alcançar a estabilidade da moeda. Não a toa o plano é também conhecido como Plano Larida, que sequer é citado dessa forma no livro. Não há problema do Franco levar os louros por um dos maiores feitos econômicos (se não o maior) do Brasil, ele também estava lá. A questão aqui é o quanto ele parece ser maior frente a pouca relevância que ele dá a quem realmente merece os créditos.
Outro aspecto negativo é que ele é muito introdutório, então não há profundidade. O que não seria problema algum se a linguagem fosse realmente acessível. Para um leitor que já conhece os termos, com certeza é bem fácil, mas se for usado para apresentar um novo mundo para alguém, possa ser que não atinja o objetivo, mesmo havendo um glossário ao fim do livro. O glossário é pouco útil porque ele tenta fazer piadinhas com os termos e, particularmente, o humor dele não é dos mais agradáveis. Claro, questão de gosto.