O "Discurso sobre as ciências e as artes" lembra um pouco, em seu método e estilo, a maiêutica de Sócrates. Rousseau faz afirmações incisivas, mas são poucas. No mais das vezes ele duvida e formula perguntas. Logo de início diz: "O restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para purificar ou para corromper os costumes? Eis o que se trata de examinar. Que partido devo tomar nessa questão? Aquele, senhores, que convém a um homem de bem que nada sabe e que como tal não se estima menos." Assim, apresentando dúvidas e formulando questões, Rousseau vai extraindo, como em um parto, a experiência vivida de seus leitores para que cheguem a uma conclusão geral. A grande questão é: o homem, ao deixar seu estado de natureza, com toda a sua probidade, honradez, força e energia para se dedicar às ciências e às artes não teria se corrompido no que possuía de mais puro? A resposta cabe, exclusivamente, ao leitor. É a maiêutica.
Discurso sobre as ciências e as artes -
Jean Jacques Rousseau
As ciências e as artes corrompem os costumes?
"Povos, sabei, pois, uma vez, que a natureza nos quis preservar da ciência assim como a mãe que arrebata uma arma perigosa das mãos do seu filho; que todos os segredos que ela vos esconde são tantos males dos quais vos preserva, e que a dificuldade que encontrais para vos instruirdes não é o menor dos benefícios. Os homens são perversos; seriam ainda piores, se tivessem tido a desgraça de nascer sábios." Com um discurso recheado de possíveis citações, Rousseau convida a sociedade do meio do século XVIII, no berço da modernidade e do iluminismo, a refletir sobre como a ciência e as artes levariam à corrupção dos costumes, afastando a população do caminho virtuoso. Não só por ser um discurso, mas pela própria posição do autor, não há a pretensão de criar um sistema filosófico que defenda essa posição, mas trazer diversos exemplos históricos curtos (a maioria, de difícil compreensão para nós) de como a ciência e a arte estavam associadas à ostentação, depravação, fraqueza, empobrecimento da alma e ausência/afastamento da religiosidade. Ao final, o autor parece sugerir uma posição menos radical do que as acusações que vão surgindo ao longo do discurso parecem sugerir, defendendo um relacionamento mais harmônico entre a virtude, a ciência, a filosofia e a arte, de forma que elas encontrem a sua face "verdadeira", quase com uma posição socrática. Apesar do discurso ter vários pontos controversos - pode-se pensar se são realmente virtudes aquelas elencadas -, ele é bem interessante, pela articulação e por sua pretensão. ------------------------------------------------------------------------ Me deparei com esse discurso durante um curso sobre a modernidade. Abaixo deixo algumas citações que achei interessante: "Se as nossas ciências são vãs nos objetivos que se propõem, são ainda mais perigosas pelos efeitos que produzem." "E que se tornará a virtude, quando se precisar enriquecer a qualquer preço? Os antigos políticos falavam, sem cessar, de costumes e de virtude: os nossos só falam de comércio e de dinheiro." "Que fará ele, senhores? Rebaixará seu gênio ao nível do seu século e preferirá compor obras comuns, que se admirem durante a sua vida, a maravilhas que seriam admiradas muito tempo depois de sua morte." "Se é necessário permitir que alguns homens se entreguem ao estudo das ciências e das artes, que sejam exclusivamente os que se sentem com forças para caminhar sós sobre as suas pegadas e ultrapassá-las; é a esse pequeno número que cabe levantar monumentos à glória do espírito humano"
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